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A direita e a extrema direita ganharam destaque por sua campanha teatral contra a posse do novo governo, que eles chamam de “traidor”, “ilegítimo” e apoiado por “terroristas”. Agitam a bandeira da Espanha e se postulam como defensores do Rei e da “unidade da Espanha”.

Por: Manuel Cid

A sujeira franquista, produto de um regime monárquico nascido do pacto de Transição, com as elites franquistas no comando, protestam ante o novo governo de coalizão. Paralelamente, o Vox se estabeleceu como a terceira força eleitoral, obtendo 52 cadeiras, canibalizando C´s (Ciudadanos). O PP, enquanto isso, mostra sua face mais ultra, tentando competir com a formação de Abascal.

Tudo indica que viveremos uma legislatura agitada na rua pela direita. No domingo passado, 12 de janeiro, vimos as primeiras manifestações em frente às prefeituras.

O novo governo será um freio à direita?

Um dos principais argumentos para o novo governo de coalizão é que sua presença fecha a passagem para que a direita chegue ao governo. No entanto, é possível que o novo governo acabe abrindo a porta. Especialmente, se o PSOE e a Unidas Podemos decepcionar as expectativas que agora estão depositadas neles, espera-se que seu apoio eleitoral possa cair.

Em um contexto de agitação da direita, e levando em consideração os resultados ajustados, não é difícil que mais cedo ou mais tarde possamos ver um novo governo de coalizão. À direita desta vez.

A Constituição de 1978 é uma arma para combater a direita?

O fato de a extrema direita poder apresentar sem problemas sua agenda autoritária, machista, racista e homofóbica nas instituições, enquanto nega a milhões a possibilidade de decidir sobre a Monarquia ou a República, ou a relação entre os povos do Estado, dá uma ideia da verdadeira face da “democracia” do Estado espanhol.

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Isso não deveria ser uma novidade, no entanto, a esquerda parlamentar – com a Constituição em mãos – longe de praticar essa crítica à farsa da Transição, contribuiu para ampliar a ideia de que profundas transformações podem ser alcançadas dentro das margens deste regime.

Pablo Iglesias passou de contestar o regime de 78 para defender que dentro dele, e com base nos artigos “sociais” da Constituição, a maioria trabalhadora pode ser defendida. No entanto, essa abordagem esquece que os artigos “sociais” do texto constitucional não vão além de ser um catálogo de boas intenções, sem aplicação legal direta.

O que é obrigatório é cumprir o pagamento da dívida às instituições financeiras, sobre qualquer gasto social. Também não é uma piada o artigo 8, que confia ao exército a “defesa da unidade espanhola” e a “ordem constitucional”.

Além disso, os aparatos estatais, como o sistema judicial, permanecem firmemente dominados por forças reacionárias, que vão travar ou bloquear qualquer avanço social ou democrático que possa surgir.

Ser oposição de esquerda ao governo faz o jogo da direita?

Devido à sua submissão aos regulamentos financeiros da UE, à sua submissão ao aparato estatal e à própria natureza social e política do PSOE, acreditamos que o próximo governo não atenderá, em essência, às demandas sociais. É por isso que pensamos que não devemos parar de levantar as mesmas demandas que defendemos nos últimos anos, mesmo que esteja a “esquerda” no governo.

Jogar o jogo da direita seria justamente diminuir nossas demandas para defender o novo governo a todo custo. Essa atitude abre as portas para a demagogia da extrema direita penetrar entre a população da classe trabalhadora.

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A primeira tarefa para combater a extrema direita é não dar respiro. Confrontar, em cada espaço com sua propaganda, não os deixar entrar em nossos bairros ou em nossas empresas. Denunciar seu autoritarismo, seu machismo e seu racismo. Mas uma segunda tarefa é manter, diante do novo governo, a luta operária e popular.

O possível fracasso do novo governo deve nos encontrar claramente levantando uma alternativa independente da esquerda, que permita que os trabalhadores desencantados não procurem uma saída pela direita, mas em posições revolucionárias.

Tradução: Túlio Rocha