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Aconteça o que acontecer nestas eleições, o ciclo da chamada “nova” política – que não era mais que a versão atual da velhíssima política eleitoralista do eurocomunismo, só que sem nenhuma referência ao “comunismo” – chegou ao fim. Agora temos que pensar em preencher essa lacuna, mas a partir de outra perspectiva.

Por: Roberto Laxe

O exemplo, o discurso de Pablo Iglesias em seu retorno ao ringue: depois de um discurso cheio de lugares comuns da esquerda; a denúncia do caráter burguês dos meios de comunicação, e o papel dos bancos e grandes empresas já foram estudados pelos marxistas do final do século XIX e início do século XX, com Lenin à frente, toda sua proposta se resume a … ter postos ministeriais no governo dos banqueiros, do PSOE. Porque o PSOE é o que é.

De “assaltar os céus” passamos para “nós queremos postos ministeriais”; isso é rebaixar o programa do partido até deixá-lo em nada; em ser a ala esquerda de um governo de banqueiros. Para essa viagem, não eram necessários esses alforjes, que significaram o desmantelamento total da mobilização social de 2014 e de anos anteriores; que o 15M tinha começado e culminou na Marcha da Dignidade de março e a renúncia do antigo rei.

Nesses três anos, milhões de pessoas tomaram as ruas do Estado espanhol, milhares foram organizados a partir da base, nas Marés, em PAHs, no sindicalismo de classe e combativo, etc. A chegada do Podemos galvanizou essa força social; mas fez isso da velha forma eleitoralista: disse, a mudança social vem  pelo “vote-me” e depois me deixa “defender” você no parlamento. Desta forma, a passividade social foi fomentada, o que apenas desorganizou as organizações que emergiram da base, colocadas em função dos resultados eleitorais.

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Para que uma base organizada e politizada que discuta os objetivos e os meios para alcançar resultados eleitorais? Para isso, só precisa, como disse Alfonso Guerra na época, “10 minutos de TV”, e não “10 militantes”.

Além disso, esta opção eleitoralista tem outra perspectiva; se o seu objetivo é chegar a um pacto com o PSOE, que é parte do regime, tanto quanto o PP, só que “progressivo” não pode dar ao luxo de uma base politizada discutir o giro à direita envolvido nessa opção. A democracia de uma organização é a primeira vítima quando esta gira para a direita.

Para pactuar com o PSOE tem que rebaixar o programa político no nível que seja aceitável para aqueles que o financiam, e isso significa admitir suas políticas de cortes políticos (lei da mordaça 155, 135, ….) e sociais (reformas previdenciárias, trabalhistas , privatizações, …), que sustentam o regime atual. É por isso que a primeira vítima é a democracia, porque temos de impor isso à base, que vem (ou veio) da luta social; e se o que existe é uma base politizada, que discute e age, …. esse pacto não será possível.

Mas o fechamento do ciclo se manifesta de outra maneira; cinco anos atrás, no calor da poderosa mobilização social, a direita estava na defensiva … até que o rei renunciou. Hoje, a direita, em particular a extrema de VOX marca a agenda política: não foram os catalães, que os tiraram do armário como disse Iglesias na época, foi a passividade social, induzida pelo eleitoralismo no âmbito de uma não resolução da profunda crise do regime.

É o resultado de chamar a confiar nas instituições do inimigo como o Parlamento ou as prefeituras, isso desmoraliza a população trabalhadora, porque vê como as políticas de cortes são mantidas; a partir dessa desmoralização, os defensores desses cortes se fortalecem e, como estamos em um período de profunda crise, os mais radicais desses partidários. É a luta de classes, estúpidos! Acaso não foi o que, sob outras condições, aconteceu com o BNG quando esteve com o PSOE, ou IU na Andaluzia também governando com o PSOE? Não aprendem!

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Entrar em governos, em qualquer nível, local, nacional ou estadual, para terminar aplicando as mesmas políticas de cortes, seja “por razões legais” só leva à decepção e desmoralização, abrindo as portas para a direita rançosa, proprietária e administradora deste regime. Somente mantendo uma política de classe, independente das instituições, é possível avançar na mobilização social, para a ruptura e a transformação socialista da sociedade.

Tradução: Lena Souza