Após as informações publicadas na mídia internacional e a investigação nos tribunais suíços, os escândalos de corrupção de Juan Carlos I alcançaram tais proporções que já não há como silenciá-los. Até o PSOE e o PP, os partidos que o protegeram incondicionalmente durante quatro décadas, se veem obrigados agora a se distanciar de suas atrocidades para tentar assim proteger o herdeiro e a Monarquia. Inclusive ativaram o Ministério Público do Supremo para remover a investigação da Justiça suíça e evitar surpresas.

Por: Corriente Roja

Não é apenas a corrupção de um monarca, é a corrupção de um sistema

Os desmandos de Juan Carlos I não são como querem nos apresentar, algo alheio à Monarquia que ele personificou durante 40 anos, desde que foi coroado nas Cortes franquistas após jurar os “Princípios Fundamentais do Movimento”, até sua desonrosa abdicação em junho de 2014.

Se Juan Carlos I pôde comportar-se como um delinquente de altos voos desde o próprio início de seu reinado é por duas razões. Uma é a descarada impunidade que a Constituição lhe concede, cujo artigo 56.3 diz textualmente: “a pessoa do Rei é inviolável e não está sujeita à responsabilidade”. A outra é a indecente cumplicidade da qual gozou, tanto dos sucessivos governos do PSOE e do PP como do resto da cúpula de Estado e dos grandes meios de comunicação.

O agora degradado rei emérito é o mesmo que anteontem era apresentado como “o melhor embaixador da Espanha”. O mesmo que embolsou desde os anos 80 fabulosas comissões pela compra de cada barril de petróleo saudita, pela venda de armas espanholas ou por ser intermediário “régio” das grandes firmas do IBEX 35 com as quais compartilha impunidade. O mesmo que estava por trás do “caso Noos”. E é também o mesmo que estava por trás do general Armada em 23-F, mas depois foi santificado como o grande “defensor da democracia espanhola”.

A comissão de 100 milhões de dólares cobrada pelo contrato de AVE (linha ferroviária de alta velocidade) Medina – Meca é só a ponta do iceberg de uma fabulosa carreira de corrupção com a qual pode acumular uma das maiores fortunas da Europa: 1,8 bilhões de euros, segundo o New York Times publicava em 2012. Uma fortuna manejada por testas de ferro na Suíça e em paraísos fiscais que lhe permitiram levar uma vida marcada pelo luxo, o esbanjamento e o desperdício mais extremos, enquanto em cada um de seus discursos apelava à exemplaridade moral.

A pedra angular do pacto da Transição foi a permanência na chefia do Estado de Juan Carlos I, o rei restabelecido por Franco. Sua “inviolabilidade”, ou melhor dizendo, sua patente de corso para roubar à mão cheia, fazia parte do trato.

Um trato no qual o PSOE, o PCE e os partidos nacionalistas, em troca de oficializar liberdades e direitos já conquistados nas ruas, aceitaram a continuidade dos aparatos de Estado franquistas (exército, forças policiais, juízes e altos funcionários), a anistia dos crimes do franquismo, a renúncia ao direito à autodeterminação e a permanência dos grandes negócios acumulados sob o franquismo.

A corrupção do rei emérito derivou em uma crise de Estado que suja Felipe VI e a própria instituição monárquica, ameaçando abertamente a arquitetura da Transição.

Operação Resgate: Salvar a Monarquia!

O governo trata ansiosamente de levantar um cordão sanitário ao redor de Felipe VI, do qual ressaltam sua “conduta exemplar”. Lástima que os fatos não se apiedem do relato oficial.  Felipe VI sabia, no mínimo desde março de 2019, da existência de uma fundação “offshore” com sede no Panamá e opaca ao fisco espanhol, da qual o rei emérito era titular e ele próprio o primeiro beneficiário. Mas só um ano depois, quando a imprensa internacional tinha tornado público e já não podia ser ocultado, que emitiu um comunicado expressando sua “intenção” de renunciar à herança que num futuro pudesse lhe corresponder de fundos ilegais. Com certeza, não denunciou os fatos nem exigiu uma investigação judicial.

Felipe VI continuou cultivando as lucrativas amizades de seu pai, com suas visitas à Arábia Saudita, Emirados, Quatar ou Cazaquistão. Foram gastos 467.000 euros em sua lua de mel, bancados por seu pai e um de seus testas de ferro. E são conhecidas suas amizades íntimas como López Madrid, genro de Villar Mir, condenado pelos cartões black de Bankia e «compi yogui» do casal real.

Sua principal atuação política como Rei foi seu discurso de 3 de outubro. Uma declaração de guerra contra o povo da Catalunha por querer defender seu direito de decidir frente a uma Espanha unida à força. Não é estranho que 75% dos catalães rechacem a Monarquia. Nem que o façam os mais de 50% no resto do Estado, razão pela qual o CIS há cinco anos não pergunta a respeito em suas pesquisas.

O Governo e o resto dos altos poderes do Estado, buscam angustiados uma saída negociada com a Casa Real, na qual não descartam “sacrificar algum dedo” se for preciso, para “salvar a mão”. Entre outras opções, ponderam tirar o emérito de la Zarzuela, procurando para este um exílio dourado ou inclusive excluí-lo da Família Real, opções todas elas problemáticas, que, além disso, requerem a conformidade de Juan Carlos.

Sánchez, em uma manobra de distração, lançou a “reflexão” de estudar uma mudança constitucional para que a inviolabilidade do rei seja “só nas funções próprias de seu cargo”. Mas isto não apenas é confuso juridicamente, como ele sabe que as condições extremas que a Constituição exige para esta reforma a tornam inviável.

O PP e o Vox por outro lado, fazem propaganda contra Sánchez porque não defende o Rei “com a firmeza necessária”. Mas a verdade é justamente o contrário, pois Sánchez está integrado, junto à Casa Real, em plena operação de salvamento de Felipe VI e da Monarquia.

Bradam também contra o Podemos porque segundo eles, ataca a Monarquia. Mas há que se ler com atenção o pronunciamento de Iglesias, que começa elogiando o que ele chama “a valentia de Sánchez e a sensatez de Felipe VI”. Depois de dar palmadinhas nas costas e dizer algumas verdades de Perogrullo como que não se pode “desvincular os supostos delitos cometidos por Juan Carlos I de sua condição de rei”, o que “torna complicado ignorar que a monarquia é uma instituição hereditária na qual a legitimidade descansa precisamente na filiação”, conclui dizendo que “não há correlação de forças” e que “um debate desta natureza dificilmente pode ser traduzido em mudanças em curto prazo em nosso sistema político”. E que ainda que a Unidas Podemos, não lhe agrade “está comprometido com a Lei”. Isto é, que se submetem de bom grado a uma lei corrupta para continuar fazendo parte do governo e posando de ala esquerda do regime.

Para lutar por um verdadeiro plano de resgate da classe trabalhadora: derrubemos este regime monárquico corrupto!

Quando o desemprego e a pobreza se estendem pelos bairros populares, a violência machista e o racismo aumentam e os novos surtos do coronavírus se multiplicam, obrigando muitas/os a escolher entre se contagiar ou a fome. Enquanto nos chamam a nos unir com a grande patronal e a confiar na Europa do capital para “lutarmos juntos contra a crise”, tentam nos convencer de que não vale a pena se preocupar agora com os negócios sujos do rei emérito ou pela luta pela República.

Mas da mesma maneira que nos unir com a grande patronal é a ruína da classe trabalhadora e que as “ajudas” da UE são uma corda em nosso pescoço, temos que rechaçar os que dizem que a sorte da Monarquia não é assunto que nos deva inquietar. Se acabarmos com esta Monarquia corrupta, dinamitaremos um regime feito à medida dos grandes empresários do IBEX 35, no qual as velhas elites franquistas persistem e continuam prosperando.

Chamamos a unir forças para nos mobilizarmos contra a monarquia corrupta, para exigir que devolvam até o último euro roubado, sejam julgados e paguem com a prisão pelos seus delitos. Chamamos a unir forças para lutar por um referendo vinculativo sobre a Monarquia. Chamamos a unir forças para acabar com o regime e toda sua herança franquista, para convocar as Cortes Constituintes livres, sem as ataduras da Constituição de 78 e respeitando o direito à autodeterminação dos povos.

Abaixo a Monarquia corrupta!

Referendo já sobre a Monarquia!

Fora o regime monárquico de 78 e toda sua herança franquista!

Eleições livres para Cortes constituintes!

Tradução: Lilian Enck