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Na última cúpula europeia, os líderes da União Europeia pactuaram um plano de acolhimento para 100.000 pessoas nos próximos anos. A metade das vagas será concedida pela Grécia e o restante pela agência de refugiados da ONU (ACNUR). A idéia é realocar uma parte dos refugiados que chegam à Grécia, à Hungria e à Itália e enviá-los para outros países do continente para, assim, “aliviar” a pressão sofrida por aqueles países.

Por: Gabriel Huland e May Assir

A ACNUR calcula que 705.000 imigrantes e refugiados chegaram à Europa pelo Mar Mediterrâneo em 2015. Cerca de 3.200 pessoas morreram no mar. À medida que o inverno se aproxima, a situação se complica por causa do frio e da chuva. Os recursos destinados à assistência aos refugiados são totalmente insuficientes para atenuar o drama dessas pessoas, que se veem obrigadas a deixar suas vidas e aventurar-se em busca de um futuro melhor.

Se, por um lado, vemos a incapacidade dos países europeus para chegar a um acordo sobre como solucionar esta crise de maneira positiva, recebendo as pessoas e destinando os recursos necessários para isso, por outro, vemos a rapidez com que constroem muros e aumentam os controles nas fronteiras.

Diante do fracasso da União Europeia em administrar esse tema, estão surgindo, em vários países, movimentos espontâneos e independentes de acolhimento e solidariedade com os imigrantes. Movimentos como a Rede Solidária de Acolhimento de Madri, que vem se reunindo desde o início da crise dos refugiados com o objetivo de organizar iniciativas de solidariedade, como acolhimento nas estações de ônibus, serviços de tradução e acompanhamento das pessoas que necessitam realizar trâmites civis.

O caso de Madri é emblemático porque retrata bem o conflito gerado pela crise entre a população, disposta a acolher, e as instituições políticas, que estão cada vez mais afundadas em suas disputas.

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Os políticos da UE enchem a boca para falar de solidariedade entre os povos, mas na prática estão fazendo o contrário. Áustria, Dinamarca e Alemanha, por exemplo, estão criando mais obstáculos legais para o acolhimento de pessoas que vêm de zonas em conflito.

O primeiro-ministro húngaro levanta a voz para falar contra a entrada de pessoas na União Europeia. Um prefeito francês afirma que não aceitará imigrantes muçulmanos. Definitivamente, a União Europeia aumenta a repressão e mostra sua verdadeira face.

Em Madri, por exemplo, a prefeitura liderada por Manuela Carmena prometeu, no início da crise, em uma reunião com ativistas da Rede de Acolhimento, que destinaria recursos e alojamentos para apoiar o movimento. Até o momento, as medidas anunciadas não foram concretizadas e praticamente todo o trabalho está sendo feito de maneira voluntária pelas pessoas. O argumento central utilizado para justificar a falta de ação é que é necessário esperar a iniciativa do governo estatal. Em Barcelona, a situação não é diferente.

As redes de acolhimento

As redes de acolhimento que estão sendo criadas em todo o Estado Espanhol devem atuar paralelamente em dois âmbitos: a organização ativa de solidariedade e a luta social nas ruas para pressionar e denunciar as instituições públicas em relação à sua falta de compromisso com as pessoas imigrantes e refugiadas. Devem também politizar o debate, discutindo seriamente as causas da crise migratória atual, gerando assim mais consciência social.

Nesse sentido, estamos totalmente de acordo e apoiamos o manifesto elaborado pela Rede Solidária de Acolhimento de Madri lido na concentração do dia 25 de outubro:

A denominada crise dos refugiados gerou em nossas sociedades uma tomada de consciência não apenas pelas terríveis consequências que milhões de pessoas sofrem pelo conflito armado na Síria e por tantos outros conflitos esquecidos; mas também pelas nefastas consequências das políticas migratórias de controle da União Europeia e de alguns de seus Estados membros, que entregam às máfias, quando não à morte, centenas de milhares de pessoas que fogem de seus países em busca de proteção e de segurança na Europa. Gerou-se um sentimento de acolhimento que inundou toda a Europa.

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É necessário organizar uma grande campanha de solidariedade que denuncie a União Europeia e os governos estatais, mobilize os trabalhadores e acolha os refugiados. Os sindicatos devem entrar com força nessa campanha, retomando a tradição internacionalista e a solidariedade de classe, tão forte no passado e tão esquecida atualmente.

Do que os refugiados fogem?

As pessoas que se veem obrigadas a fugir de seus países e buscar a vida em outros lugares não fazem isso por vontade própria, mas porque são obrigadas pelas circunstâncias em que se encontram.

Na Síria, a abominável ditadura de Bashar Al-Assad, responsável pela morte de mais de 400.000 pessoas, continua matando seu povo com a cumplicidade tácita da UE e dos Estados Unidos. O Estado Islâmico, no fim das contas, só pôde se desenvolver por causa da ocupação norte-americana do Iraque e da omissão do Ocidente em ajudar os grupos independentes que lutam contra o regime de Assad.

Na África Subsaariana, a extrema pobreza gerada pelas políticas de espoliação aplicadas por governos aliados da China e dos países imperialistas leva milhares de pessoas a terem que recorrer às máfias para tentar chegar à Europa.

No Saara Ocidental, a situação não é diferente. O Estado Espanhol é cúmplice do Marrocos em sua política de ocupação e apartheid nessa região.

Os eritreus, por sua vez, fogem de uma ditadura assassina. Na América Latina, a pobreza ocasionada pelos governos submissos às políticas neoliberais promovidas pelos Estados Unidos gerou um aumento da emigração.

Os países centrais (Estados Unidos, União Europeia, Japão etc.) aproveitam o drama dessas pessoas para aumentar suas taxas de lucro e pressionar os salários para baixo. As empresas alemãs, por exemplo, estão muito satisfeitas por ter à sua disposição uma massa de trabalhadores bem qualificados que estão dispostos a reconstruir suas vidas e trabalhar por salários muito abaixo da média.

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Somos todos(as) refugiados(as)

No dia 25 de outubro, cerca de cem pessoas participaram da concentração convocada pela Rede Solidária de Acolhimento de Madri em frente da sede da Secretaria de Imigração e Emigração. O objetivo era denunciar a total falta de políticas por parte do governo do Estado Espanhol para acolher os refugiados.

Na concentração, diferentes coletivos e refugiados de vários países, como Síria, Senegal, Palestina e Marrocos, fizeram uso da palavra. Também falaram representantes de sindicatos, assim como os membros da Rede. A Rede se reúne às quartas-feiras em Lavapiés para organizar os turnos de acolhimento na estação de Méndez Álvaro, o acompanhamento psicossocial aos refugiados e para preparar outras atividades. Também organiza debates, convoca concentrações, além de receber roupas e alimentos que são distribuídos em Madri ou enviados a outros países.

Artigo publicado em Página Roja n.° 34, novembro de 2015.

Tradução: Otávio Calegari