COMPARTILHAR

Não há uma semana sem novas medidas de perseguição judicial e policial na Catalunha. Em algumas ocasiões beiram o absurdo, como na final da Copa del Rey, quando a polícia confiscou as peças de roupas amarelas, em uma atuação típica de uma ditadura, fato visto no mundo todo.

Por: Felipe Alegría

Uma perigosa tendência autoritária com epicentro na Catalunha

Agora, a Promotoria de Barcelona acaba de denunciar por “crimes de ódio” nove professores do  Instituto El Palau de Sant Andreu de la Barca, povoado onde está localizado o maior quartel da Guarda Civil na Catalunha. Segundo os promotores, os professores teriam “vexado e humilhado” alunos filhos de guardas civis. Os delitos, construídos como de costume, consistiriam em “lesão da dignidade” e “injúrias graves” à polícia e à Guarda Civil. O crime: falar da repressão de 1o de outubro e fazer uma concentração no pátio “pela paz e a não violência”.

São curiosos os “crimes de ódio” do regime. Supunha-se que haviam sido criados para proteger os coletivos e minorias vulneráveis ante os abusos, incluídos os das próprias autoridades. Entretanto, transformaram-se em uma arma para investir contra quem questione a Guarda Civil, a polícia, a hierarquia católica ou o Rei, isto é, instituições de máximo poder e impunidade.

Macabro também é o delito de terrorismo, agora que, graças à reforma do Código Penal do PP-PSOE, pode-se incorrer nele sem pertencer a nenhuma organização terrorista. Assim, uma briga de bar em Altsasu a altas horas da madrugada, na qual participaram dois guardas civis e suas parceiras, transforma-se em terrorismo e o promotor pede uma pena de 375 anos! para oito jovens, em um processo repleto de irregularidades.

Leia também:  Madri se manifesta pela liberdade dos presos políticos catalães

A Promotoria, incitada por Ciudadanos, PP, PSOE e pelo aparato midiático do regime, está arremetendo contra os CDR (Comitês de Defesa da República), comparando-os à kale borroka[1]. A primeira atuação dura foi contra a jovem Tamara Carrasco, detida numa operação policial digna dos melhores tempos do ETA e acusada de terrorismo… por bloquear o trânsito!

A negativa do Tribunal alemão de Schleswig-Holstein a extraditar Puigdemont pelo delito de rebelião deixou evidente que a acusação havia sido fabricada, assim como a de malversação, que Montoro (ministro das Finanças espanhol) nega e o juiz Llarena proclama sem provas.

Estamos vivendo uma grave tendência autoritária do regime monárquico que, com epicentro na Catalunha, afeta todo o Estado. Com o Rei de adorno e o aparato judicial e a polícia a todo vapor, Ciudadanos e o PP disputam para ver quem é o mais duro e o mais espanholista, enquanto o PSOE, fiel súdito, endossa submisso. Cada nova atuação repressiva mostra com maior clareza que a Monarquia é herdeira do franquismo. É contra esta tendência repressiva e pela liberdade dos presos que em 15 de abril mais de meio milhão de pessoas saíram às ruas em Barcelona.

Disputa entre Puigdemont e ERC

A direção do movimento independentista clama ao regime pelo diálogo, em meio a uma áspera disputa entre ERC (Esquerda Republicana Catalã) e Puigdemont (ex-presidente da Generalitat) pela hegemonia, que se desenvolve sob a pressão sufocante da repressão. A ERC tem pressa em formar “já” um governo efetivo e cessar as “gesticulações”. Mas Puigdemont, hoje herói do independentismo, tem outros ritmos e aposta seus trunfos apelando à legitimidade. Entretanto, a posição de fundo é a mesma, já que ambos rechaçam toda estratégia de insurreição popular, acatam o marco constitucional e confiam tudo a um hipotético diálogo, que viria facilitado pelas decisões do tribunal de Schleswig-Holstein.

Leia também:  Madri se manifesta pela liberdade dos presos políticos catalães

O povo catalão somente triunfará se conseguirmos levantar uma nova direção, com os setores mais avançados do movimento operário à frente, associando a batalha pelas reivindicações sociais à luta pela soberania nacional, numa luta comum com o resto do Estado para derrotar a Monarquia e estabelecer uma União Livre de Repúblicas, abrindo o caminho para uma mudança de regime social, rumo ao socialismo.

Nota:

[1] Kale Borroka: termo basco que significa “luta de rua”, refere-se às manifestações de rua com atos violentos praticados por militantes ou simpatizantes da esquerda abertzale, em sua maioria jovens, considerados pelo Estado espanhol como atos de terrorismo.

Tradução: Lilian Enck