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Se alguém pensava que o “procés”[1] tinha terminado com o artigo 155, com os presos e exilados, com os grupos de “quitalazos”[2], este 11 de setembro Dia Nacional da Catalunha, desmentiu essa afirmação. Mais de 1 milhão de pessoas, nem todos independentistas, mas simplesmente democratas e republicanos, clamando pela liberdade dos presos e pela república catalã.

Por: Eusebio López

Na frente, 140 cargos de Cs (Cidadão) em um ato, que se fosse feito pela esquerda, seria chamado de ridículo. O Partido Popular (PP) já não pode ser contado, com Pablo Casado contra as cordas. No meio, o governo, o Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC) e os Comuns, seguindo as palavras de ordem da imprensa madrilenha que já Miguel de Unamuno, em 1907, apelidava de “fodona”: “merecemos perder Catalunha. Essa imprensa porca madrilenha está fazendo o mesmo trabalho que com Cuba. Não se dá conta. É a mentalidade bárbara castelhana, seu cérebro fodão (tem testículos ao invés de miolos na cabeça)”.

O “procés” catalão não se acaba porque ele é a máxima expressão da crise do regime de 78, da contradição entre monarquia e república. Por mais que se empenhe a “imprensa madrilenha” e seus tentáculos nas “províncias”, os que ontem estavam nas ruas de Barcelona não só eram independentistas, eram fundamentalmente republicanos e democratas.

Por isso não se fecha o proces catalão; porque o regime está podre de cima a baixo, nas suas instituições fundamentais. Não faz nem dois dias, tiraram uma foto clássica com os prebostes da “justiça” espanhola, com o rei a frente. A foto é um tiro na linha flutuante da tão falada paridade de gênero, de todos os cargos que ali aparecem, não está nenhuma mulher. Casualidade? Ou é que o regime é um dos baluartes da desigualdade de gênero? Tão baluarte que são capazes de tirar da lei sálica da Constituição ( preferência do homem sobre a mulher, na linha sucessória da coroa)

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É óbvio que eu não sou monárquico, nem de longe; mas é um exemplo da incapacidade deste regime sequer para auto reformar-se no que diz respeito ao mais  mínimo. Não pode, visto que por trás estão os restos do franquismo em poderosos conselhos administrativos de grandes empresas, a igreja e seus privilégios, que lhe reportam 11 bilhões de euros em subvenções ou isenção de impostos, além do roubo de propriedades públicas com a falta de matrícula de catedrais e mesquitas; e um exército que segue estudando Franco como um grande general.

É um regime que teve que amparar o juiz que ditou ordens e contra ordens contra políticos catalães, que declarou inviolabilidade ao “velho rei”, por suas comissões nos negócios que apadrinhava com regimes com tanto caráter democrático como a teocracia da Arábia Saudita.

Antonio Maura, antigo político burguês conservador da 2ª restauração monárquica depois da 1ª república; a primeira foi depois da guerra pela independência, quando voltou Fernando VII (que aboliu a Constituição de Cádiz e restaurou o absolutismo); bom, esse político afirmou que o chamado “problema catalão”: “É somente uma questão de cinquenta anos de administração honrada”. Honrada? O regime de 78?

Este é o problema do “problema catalão”; que o capital espanhol não é capaz de levar em conta nem ao menos a um dos seus representantes mais significativos. O capital espanhol vive da corrupção, o exemplo é o famoso “palco de Bernabéu”, onde se repartem a riqueza gerada pelos trabalhadores e trabalhadoras de todo o estado, que se repete em todos os palcos dos times de futebol, cada um a seu nível. O capital espanhol não é capaz de ser honrado nem um minuto; a corrupção é uma forma de enriquecer.

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O “problema catalão” é, no fundo, o problema da contradição entre um regime monárquico em crise, e a luta por uma federação de repúblicas, que somente pode resolver se de uma maneira, através de um processo constituinte que rompa com o regime e tome medidas de emergência social. Neste quadro, as nações como Catalunha (Euskadi e Galícia) encarariam com garantias democráticas, processos constituintes nacionais onde decidiram de que maneira querem relacionar-se com os demais povos.

Esta crise é o motor do “procés” catalão,e não as idéias de Puigdemont ou qualquer outro dirigente.

[1] É o nome que foi colocado para o movimento com o qual os catalães querem total independência da Espanha

[2] https://www.elespanol.com/reportajes/20180906/quitalazos-convierte-simbolo-amarillo-bandera-espana/335966734_0.html

Tradução: Luana Bonfante