COMPARTILHAR

O ano de 2018 começa com importantes lutas em vários países. Pela sua importância estratégica, merece destaque especial a greve de mais de 160 mil operários metalúrgicos da Alemanha, que começou no último dia sete de janeiro em Baviera e Renânia do Norte-Vestfália (sede de importantes empresas metalúrgicas, siderúrgicas, elétricas e de engenharia) e se estendeu a vários outros estados do país.

Por: Daniel Sugasti

As ações mobilizam trabalhadores de empresas como Porsche, Daimler, Bosch e outras de automóveis, autopeças e elétricas, como Siemens e AUG. A greve foi convocada pelo maior sindicato do país, IG Metall. Este sindicato não chamava uma greve desde 2003.

O pano de fundo é a crise econômica, política e social que, sem ter alcançado o grau atingido na Grécia, Espanha ou Portugal, foi se agravando, devido aos ataques e políticas de ajuste contra os trabalhadores, executados durante os últimos governos de Merkel. O ajuste foi corroendo os salários e o nível de vida da classe trabalhadora retrocedeu. Para se ter uma ideia, enquanto os lucros das patronais da indústria automobilística e elétrica aumentaram 11% em 2014, 9% em 2015 e 12% em 2016, os salários nominais subiram entre 2 e 3% ao ano.

O IG Metall exige um aumento salarial de 6% neste ano para os aproximadamente 3,9 milhões de operários que representa. Os patrões, por sua vez, descartaram esta reivindicação e a taxaram de excessiva. A patronal oferece um aumento salarial de 2% e um pagamento único de 200 euros (241 dólares) durante o primeiro trimestre.

Este embate de classes é central, dada a importância estratégica do setor operário industrial, especialmente metalúrgico, que é chave na economia e nas exportações alemãs.

A intransigência patronal cria a ameaça de radicalizar as medidas dos operários. Segundo o dirigente do sindicato IG Metall, Jörg Hofmann, “a massiva participação nas primeiras greves em escala nacional é uma demonstração da aceitação da proposta patronal na base: nula”. Além disso, Hofmann anunciou a ampliação sucessiva do movimento nos próximos dias. A perspectiva de uma greve por tempo indeterminado está sendo discutida, como ocorreu em 1984, quando, após sete semanas de greve, os operários conquistaram a redução da jornada de 40 para 35 horas semanais, sem redução de salários.

28 horas semanais de trabalho

Além da reivindicação salarial, o IG Metall lançou a campanha “minha vida, meu tempo”, que consiste em estabelecer a opção para que alguns operários reduzam a semana de trabalho de 35 para 28 horas, por um prazo de até dois anos. A proposta se baseia na necessidade dos trabalhadores por turnos, os pais com filhos de até 14 anos e as pessoas que têm que cuidar de familiares.

A semana de 28 horas é uma proposta que significaria um avanço para a classe operária. É rechaçada pela patronal porque, sem dúvida, abriria um precedente importante para uma possível luta mais ampla, que busque generaliza-la.

Contudo, a proposta dos dirigentes alemães tem limites. O problema é que o IG Metall a propõe apenas para um setor e, além disso, com redução de salários. Isso é perigoso, pois abre espaço para legalizar a diminuição de salários e a “jornada flexível”, algo que a patronal não descarta totalmente, caso seja obrigada a ceder. Por isso, é fundamental que a base discuta o problema a fundo e supere a proposta de sua direção sindical, retomando a tradição de 1984 e levantando a bandeira da semana de 28 horas sem redução salarial.

De qualquer maneira, a entrada em cena de centenas de milhares de operários metalúrgicos alemães é um fato de enorme importância política. A forte greve metalúrgica explodiu na situação alemã e europeia e seu exemplo pode ter um alcance importantíssimo. Trata-se, afinal, da principal economia do continente e do maior proletariado industrial, que agora está em movimento.

Tradução: Isa Pérez