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No dia 12, o papa Bento 16, máximo representante da Igreja Católica, pronunciou um discurso que provocou a fúria do mundo muçulmano. Dirigindo-se a uma platéia da Universidade de Regensburg, na Alemanha, o papa citou um trecho de uma obra do imperador bizantino Manuel 20 Paleólogo (1391), relacionando a religião islâmica e seu máximo profeta Maomé à questão da violência. “Mostre o que Maomé trouxe de novo e achará somente coisas más e desumanas, como sua ordem para espalhar pelo medo da espada a fé que pregava”, disse o pontífice, que em seguida declarou: “A violência é incompatível com a natureza de Deus e a natureza da alma”.


Depois do discurso, milhares de líderes muçulmanos protestaram contra a associação do islamismo com a violência e exigiram que o papa se desculpasse publicamente. Porta-vozes do Vaticano, porém, negaram que o pontífice tivesse como objetivo ofender os muçulmanos. Disseram que Bento 16 apenas condenou o uso da religião para promover a violência.
 
Passado condenável


É difícil acreditar que o discurso de Bento 16 não foi um deliberado ataque ao islamismo. Muitos analistas do Vaticano, inclusive, opinam que o pronunciamento do papa pode indicar uma mudança de postura da Igreja Católica depois da sucessão de João Paulo II, tido como um conciliador entre as religiões.


Se Bento 16 realmente desejasse condenar a religião como forma de combater a violência, teria começado fazendo uma auto-critica da própria Igreja Católica. Por séculos, ela promoveu, em nome da fé, a Inquisição, a caça aos dissidentes e às pessoas que professavam outras religiões. Em nome da fé e com a cumplicidade da Igreja, conquistadores espanhóis e portugueses promoveram o massacre de populações indígenas no continente americano. Em nome de Deus, o papa Urbano II promoveu as famosas Cruzadas na Idade Média. O objetivo era organizar missões militares em conjunto com a nobreza feudal para fortalecer o poder da Igreja e conquistar terras no Oriente Médio. As Cruzadas são lembradas pelo banho de sangue contra as populações islâmicas. Até hoje o Vaticano não pronunciou uma só palavra de auto-crítica sobre esse passado sombrio. E, na história recente, fechou os olhos para regimes fascistas como o de Hitler e apoiou ditaduras militares.
 
Pouco a ver com religião


A grande imprensa apressou-se em sair em defesa do Papa. A maioria dos veículos disse que não há fundamento nas críticas feitas pelos líderes muçulmanos, sugerindo que estes procuram criar uma “guerra religiosa”, produto de seu “fanatismo religioso”.  


Em primeiro lugar, não podemos deixar de contextualizar os ataques de Bento 16: um momento de agressão militar do imperialismo norte-americano e britânico contra países islâmicos. Não podemos nos esquecer que há milhares de soldados norte-americanos e britânicos no Iraque e no Afeganistão.


Do mesmo modo, não é possível compreender as declarações do papa sem mencionar os 60 anos de brutal ocupação militar da Palestina por Israel, sob a bênção do imperialismo. É a serviço da agressão imperialista que as declarações foram realizadas.


O escritor paquistanês Tariq Ali, em uma entrevista, declarou a propósito da suposta “guerra religiosa”: “Não estamos vivendo um choque de religiões, mas uma guerra imperialista para impor a hegemonia norte-americana. Esse não é basicamente um conflito religioso. Acontece que o povo islâmico está assentado em terras ricas em petróleo. Se fossem os hindus que vivessem na mesma região, estaríamos presenciando um conflito contra eles, e não contra o Islã”.


A resistência dos povos está atrapalhando os planos do imperialismo. Por isso, é necessário demonizar os resistentes. Cria-se, assim, uma imagem negativa dos povos árabes que permita a manipulação da opinião pública favorável à guerra. É o que percebemos quando vemos os telejornais da CNN, Fox e Rede Globo e lemos revistas como Veja. Todos pintam os muçulmanos como “fanáticos que não têm amor à vida”.
Trata-se de pintar Maomé como um terrorista em charges, como no início do ano, ou de soldados dos EUA usarem o Alcorão como papel higiênico nos banheiros das prisões de Guantánamo.


São provocações contra as nações muçulmanas feitas por governos e por uma imprensa reacionária, xenófoba e defensora dos interesses econômicos e militares do imperialismo. Cria-se a imagem do mundo árabe “atrasado” lutando contra o mundo “civilizado” ocidental, liderado pelos EUA. Mas os conservadores cristãos “civilizados” da Casa Branca são os mesmos que são contra pesquisas científicas com células-tronco. Além de defenderem que o criacionismo faça parte do currículo das escolas públicas. A teoria religiosa do criacionismo afirma que a origem dos seres vivos foi uma criação divina. Oposta à teoria cientifica da evolução de Charles Darwin.


A reação das populações muçulmanas é de ódio contra as bombas que matam o seu povo, contra as torturas que martirizam os seus filhos, contra uma propaganda de guerra que quer demonizá-los e exibi-los como terroristas. “A maioria do mundo islâmico não tem nada contra a religião cristã, mas sim contra a política dos Estados Unidos”, declarou o líder islâmico Sheikh Hatib.
 
O ‘Papa’ do mundo


O verdadeiro causador de conflitos é a política levada a cabo mundo afora pelo imperialismo norte-americano. “O verdadeiro ‘papa’ do planeta hoje é o que vive na Casa Branca”, declarou Tariq Ali.


Os atentados contra as torres gêmeas em 11 de setembro foram o estopim para a chamada “guerra ao terror”, promovida pelo presidente dos EUA, George W. Bush. Por trás da pasmaceira do presidente norte-americano, se escondia o objetivo de tomar os recursos naturais e as reservas de petróleo em uma das regiões mais ricas e estratégicas do mundo. Para isso, uma nova cruzada foi declarada por Bush. “Esta cruzada contra o terrorismo vai levar um tempo”, disse ele, dias depois dos ataques. 


O que Bush não esperava, porém, é que o conflito no Iraque demorasse muito mais tempo do que imaginava. O imperialismo está metido em um pântano, enfrentando uma dura resistência no Iraque e no Afeganistão. Soma-se a isso a recente derrota de Israel no Líbano, que aprofunda a crise imperialista na região.  


Bush ganhou publicamente um importante aliado na sua guerra suja. As declarações de Bento 16 não são religiosas, são políticas. Servem para apoiar a política do imperialismo de dominar o Oriente Médio. As palavras do papa sobre o islamismo contrastam com o silêncio diante das barbáries cotidianamente promovidas pelas tropas imperialistas. Não é de estranhar que tais declarações venham de alguém que fez parte da juventude hitlerista.