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Entrevista a António Ramos


 


António Ramos é timorense e estudou na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde se formou em Relação Internacionais. Conversámos com ele para perceber um pouco mais o que pensa a população daquele país sobre os recentes acontecimentos que forçaram a demissão do então primeiro-ministro Mari Alkatiri


 


Tu pertences a um grupo de activistas timorenses.


Sim, à Resistência Nacional dos Estudantes de Timor Leste, um movimento que abrange todos os estudantes timorenses. A RENETIL surgiu ao aproveitar a tentativa, por parte da Indonésia, de politizar a nova geração de timorenses, através do envio de estudantes para universidades indonésias. O movimento surge contra a ocupação indonésia. Actualmente a RENETIL existe na Indonésia e em Timor.


 


Uma parte da RENETIL fez parte da fundação do Partido Democrático.


Sim, a maioria teve papel relevante na fundação deste partido, que tem uma forte base de apoio estudantil. Dois meses depois da criação do PD, este partido foi o segundo mais votado depois da FRETILIN.


 


O PD, portanto, não faz parte do Governo?


Não fez parte do Governo de Alkatiri, nem faz parte do de Ramos Horta. Tem deputados no Parlamento Nacional.


 


Tu fazes parte de um grupo que tenta construir uma ala mais à esquerda dentro do PD?


Bem, qualquer partido tem sempre um certo pluralismo, mas existe de facto uma ala que pretende posicionar-se mais à esquerda dentro do partido.


 


Explica o que quer dizer a sigla “Libertar a Pátria”.


Esta é uma sigla da RENETIL. Já temos soberania e independência, mas falta a parte mais difícil, que é libertar o povo da miséria, da exploração e das desigualdades sociais. Essa é agora uma tarefa que constitui a bandeira de todos os movimentos sociais em Timor.


 


Porque achas que caiu o Governo de Mari Alkatiri? Houve um golpe de estado orquestrado pela Austrália, que manipulou um sector social em Timor de modo a conseguir a queda do governo?


Essa é a leitura dominante da opinião pública portuguesa, não é só da esquerda, toda a imprensa tem essa leitura. Mas temos de olhar um pouco para a realidade timorense. As questões reais do país. Segundo as estatísticas do Banco Mundial, o governo timorense fez um bom trabalho, Timor é um modelo em termos dos países do Terceiro Mundo, e é um bom filho do Banco Mundial. Mas ignorou as questões sociais, tal como a comunidade internacional.


 


Achas que Alkatiri governou mais para as elites que para o povo?


Temos de ser honestos e reconhecer alguns méritos a Alkatiri, nomeadamente o facto de, no futuro, Timor não ter de pagar a dívida externa ao Banco Mundial e ao FMI. O que tem a ver, em parte, com a resistência por parte de Alkatiri. Houve também uma certa resistência na negociação com a Austrália. Mas tem que se dizer que Alkatiri e os grupos que em torno dele actuam pretendem construir em Timor uma democracia tutelar, autoritária, em que a oposição é praticamente eliminada. Praticavam um modelo do tipo estalinista, em que as oposições dentro da FRETILIN são infiltradas por agentes, como aconteceu no último congresso deste partido.


 


Diz-se que havia um descontentamento social e da juventude contra o Alkatiri que não era propriamente provocado pela Austrália.


Existia mesmo. Para um timorense como eu, que acompanha a situação política desde que Alkatiri chegou ao poder, e que sempre criticou Alkatiri e a sua maneira de governar Timor, ele falhou.


E aquela rebelião dos 600 militares?


Isso só acontece em Timor. Em nenhum país há uma crise militar por despedir 600 militares. Alkatiri deixou isto acontecer, porque o problema da marginalização de uma determinada etnia em relação a outra, de dominação da instituição militar por parte da etnia lorosae (do Leste) em detrimento da etnia loromono (do Oeste), não é uma questão de agora, recente. Vem do tempo da transformação da guerrilha Falantil em forças armadas convencionais. Em 2003, Xanana Gusmão criou uma comissão que produziu um relatório recomendando ao governo que resolvesse esse problema.


 


Existe hoje, em Timor, uma alternativa revolucionária a Xanana e a Alkatiri?


Não, é preciso construí-la, mas será de forma lenta. Não imediata. Para os timorenses Xanana é visto como mais à esquerda que Alkatiri, porque Alkatiri governou para as elites e divorciou- se do povo. Xanana é visto como fazendo parte de uma esquerda popular que trabalha para o povo. Em determinados pontos, podemos alinhar com Alkatiri, em outros, com Xanana. O objectivo a alcançar é o de qualquer movimento social, construir alguma coisa por baixo, independente deles.


 


Tu dizes que há novos movimentos a surgir à esquerda, por baixo, que são favoráveis a uma alternativa mais popular.


Há movimentos mais à esquerda, essencialmente de base estudantil, que têm um projecto abertamente revolucionário definido e têm por ambição chegar ao poder através de uma revolução social.


 


Em relação ao envio das tropas da GNR por parte do governo português qual a tua posição?


No período de transição para a independência, a GNR teve algum papel importante na manutenção da ordem pública. Mas, com estes conflitos, a imagem que passa para o timorense comum é que a GNR serve para favorecer Alkatiri e os seus grupos. Automaticamente a população passou a não ver a GNR com bons olhos.


 


Há um movimento forte contra as tropas da GNR?


Sim.


 


E em relação às da Austrália?


Também.


 


Qual a sua posição em relação às potências externas que intervêm em Timor?


O que Timor reflecte é a imposição do modelo ocidental, o que estraga tudo. Nós classificamos de Tripla Aliança o conjunto formado pelas elites locais, as potências internacionais e as multinacionais. Para um revolucionário, estes são os três alvos a abater.