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As greves gerais tornaram-se quase um ritual de todos os anos para a maioria das centrais sindicais na Índia. Isso indica duas coisas. Em primeiro lugar, que a condição da classe operária neste país está piorando e, em segundo lugar, que a atual direção da classe operária se vê forçada a tomar uma atitude. Então, novamente, no dia 2 de setembro de 2016, a maioria das centrais sindicais e mais de 100 outras organizações de trabalhadores decidiram se unir em uma greve geral em todo o país.

Por: Platform for Struggle

A greve foi organizada em torno às seguintes reivindicações:

1. Medidas urgentes para conter o aumento de preços mediante a universalização do sistema de distribuição pública e proibir o comércio especulativo no mercado de matérias-primas.

2. Conter o desemprego com medidas concretas para a geração de emprego.

3. Cumprimento rigoroso de todas as leis trabalhistas básicas, sem nenhuma exceção ou isenção, e aplicação de medidas punitivas severas contra a violação das leis trabalhistas.

4. Cobertura de previdência e seguridade social universal para todos os trabalhadores.

5. Salário mínimo não inferior a 18.000 rúpias (US$ 270,00) por mês com as disposições da indexação (por trabalhador não qualificado).

6. Aumento no seguro de pensões não inferior a 3.000 (US$ 45,00) por mês para todos os trabalhadores (incluídos o do setor informal).

7. Fim do desinvestimento em empresas do setor público estatal.

8. Fim da terceirização do trabalho permanente e pagamento de mesmo salário e benefícios aos trabalhadores temporários que executam trabalho igual ou similar aos trabalhadores regulares.

9. Eliminação de todos os tetos de pagamento e de elegibilidade dos bônus, fundo de previdência e aumento na proporção de gratuidade.

10. Registro obrigatório dos sindicatos no prazo de 45 dias a partir da data de apresentação do pedido e ratificação imediata das convenções C-87 e C-98 da OIT.

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11. Não ao IED (investimento estrangeiro direto) na Rede Ferroviária, na Defesa e em outros setores estratégicos.

12. à alteração unilateral das leis trabalhistas.

Antecedentes da greve atual

Esta greve geral, assim como a anterior, apresenta as reivindicações por aumentos salariais e se opõe à privatização de empresas do setor público. Devemos lembrar que, nos últimos anos, houve um ascenso da combatividade da classe operária. Apesar das dificuldades, a onda ainda está na direção de um maior confronto. Recordemos 2007, quando os trabalhadores da Maruti Suzuki começaram suas mobilizações. No mesmo ano, havia muitas outras mobilizações do mesmo setor, principalmente na Rico e na Honda Motors.

Ambas indicam um novo ascenso das lutas dos trabalhadores. Em todo esse período, até 2010, houve inúmeras greves, pequenas e grandes, dos trabalhadores em todo o país. Embora as lutas mais acirradas se concentrassem no cinturão industrial de Gurgaon e em empresas do setor privado, em termos de tamanho absoluto de mobilizações e greves os trabalhadores do setor público assumiram a liderança. No final de 2010, no entanto, vimos algo excepcional.

Pela primeira vez desde 2003, as principais centrais sindicais que representam milhões de trabalhadores em toda a Índia entraram em greve. Foi uma greve curta, de um dia, que levantou a reivindicação por um salário digno e pelo fim das privatizações das empresas do setor público. A contribuição mais importante desta ação foi a união de vários sindicatos em uma ação conjunta. Esse foi um ponto de referência. Greves gerais posteriores contribuíram para essa unidade. No entanto, faltava alguma coisa.

As greves perderam força, as reivindicações quase nunca eram cumpridas, apesar das “garantias” vagas por parte do governo. Isso continuou durante anos, e está prestes a ser repetido novamente no dia 2 de setembro deste ano. Ninguém sabe se algo concreto vai surgir a partir dessa ação. E provavelmente a resposta é não.

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Enquanto isso, a condição de vida das pessoas continua piorando, como no resto do mundo, o que as obriga a adotar um enfoque mais radical do que antes. A ameaça de empobrecimento continua obrigando as grandes massas, especialmente a classe trabalhadora, a se colocar em pé de guerra, enquanto seus líderes respondem com um “ritual anual” de uma greve geral.

O caminho a seguir

Nas décadas de 1960 e 1970, uma onda de lutas se estendeu pela Itália. Nessa ocasião, o Partido Comunista Italiano embarcou em uma estratégia interessante: todo ano uma greve geral. As ações da greve mobilizaram milhões de trabalhadores italianos jovens radicalizados e sacudiram o governo. Mas as greves terminavam sem resultado, em última análise, cada greve geral simplesmente minou a força das massas, até que se tornou desmoralizante continuar lutando.

A classe trabalhadora da Índia deve aprender com essa experiência, porque os stalinistas na Índia, como os seus homólogos italianos, embarcaram na mesma estratégia falida. Tenham certeza que o resultado na Índia não será diferente do que foi na Itália.

Em um momento, quando a reação se torna mais ameaçadora do que antes, a falta de visão e estratégia para o caminho a seguir será fatal! A classe operária precisa de uma nova direção e precisa de uma direção com um sentido da estratégia revolucionária. As greves podem ser excelentes ferramentas educativas, já que cada greve coloca a classe operária em confronto direto com seu inimigo de classe. No entanto, elas não são um fim em si mesmas. A direção que inicia a greve deve fazer melhor uso dessa ferramenta para educar os trabalhadores nas lutas futuras, e fazer todo o possível para conquistar as reivindicações. Não é uma tarefa fácil, mas necessária.

A responsabilidade recai sobre os ombros da direção da próxima greve, não apenas para pressionar suficientemente o governo para conquistar as reivindicações, mas também aproveitar esta oportunidade para educar os trabalhadores sobre os seus direitos e nas táticas de luta contra o inimigo.

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Quando estão no chão, chute-os!

Apesar das debilidades, devemos reconhecer que esta greve é muito importante, não só pelo fato de manter a unidade de ação da classe operária organizada, mas também por causa do momento. A Índia de hoje tem um governo da direita reacionária viciado, que é resolutamente contra os interesses das massas. O êxito da greve geral seria um choque doloroso para o governo, apesar do fato de que será apenas de um dia.

A greve levantou muitas reivindicações importantes, a mais importante é estabelecer um salário mínimo. Neste momento, o governo já fez uma concessão no aumento do salário mínimo, e a greve nem sequer aconteceu! É claro que hoje eles estão em uma posição mais frágil do que as massas. Em uma situação como essa, a classe deve ter cuidado para não baixar a guarda. Quando o inimigo está no chão, é preciso chutá-lo! Por isso, consideramos que é um passo positivo que os sindicatos rejeitem as concessões do governo sobre o aumento do salário mínimo. Devemos concentrar-nos nas reivindicações existentes e encontrar formas de conquistar mais.

Devemos lutar mais e mais intensamente agora.

Publicado em thestruggle1946.wordpress.com

Tradução: Lena Souza