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Desvalorizações, aumento nos preços da gasolina, de serviços e de produtos para a alimentação só servem para aprofundar o sofrimento de grandes segmentos da população. A crise econômica global entrou com tudo no país.

Por: Víctor Quiroga, da UST – Venezuela

O governo chavista de Nicolás Maduro está em queda livre, sendo sustentado, principalmente, pelo apoio das Forças Armadas e pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Esta derrocada do chavismo é semelhante às que vêm sofrendo os vários governos chamados progressistas e supostamente de esquerda da América Latina. Será que estamos diante de uma direitização da América Latina?

Uma crise sem fim

A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Durante os governos chavistas, entrou no país, por meio das exportações de petróleo, cerca de US$ 1 trilhão de dólares. Durante vários anos, o preço do barril do petróleo foi de US$ 100. O país também possui reservas minerais muito grandes de ouro, diamantes, coltan, ferro, bauxita etc. A Venezuela também tem uma das maiores siderúrgicas da América Latina, a Sidor, e várias indústrias de alumínio e importantes terras aráveis. Porém, os trabalhadores lutam todos os dias para conseguir comida.

Crise de abastecimento: “Talvez hoje você coma, amanhã não sabemos”

Esta frase está longe de ser um exagero. A Venezuela importa 70% dos produtos de estoque de alimentos e medicamentos. Apesar das receitas do petróleo, não houve um desenvolvimento industrial nem investimento na agricultura para garantir a produção de alimentos.

As importações são financiadas pelas exportações de petróleo. Atualmente, a cada US$ 100 dólares que entram no país, US$ 96 são devidos às exportações de petróleo. Como os preços caem, as importações caíram acentuadamente. Assim, a escassez de alimentos saltou. Falta de tudo, de leite em pó, açúcar, café, massas, arroz até pasta de dente e sabonete. Muitos produtos estão disponíveis apenas no mercado clandestino que cobra 2.600% mais caro.

As filas para obter produtos a preços oficiais duram quatro ou seis horas. A principal preocupação dos venezuelanos é se poderão comer. As brigas com a polícia e com a Guarda Nacional são constantes, e os saques se generalizam.

Salários não valem nada

De acordo com o Centro de Documentação e Análise Social da Federação Venezuelana de Professores (Cendas), no ano passado, a cesta básica de alimentos aumentou 718%, um dado que é muito maior do que o estimado pelo FMI para todo o ano de 2016. Em abril, sofreu um aumento de quase 30%, chegando a custar 184.906,35 bolívares. Para se ter uma ideia, o salário base médio é de pouco mais de 33.600 bolívares. O consumo de carne, queijo e leite está sendo abandonado e substituído por proteína vegetal.

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A escassez, muitas vezes, cobra em vidas pela falta de medicamentos para tratamento do HIV e do câncer. Os hospitais estão sobrecarregados: carecem de suprimentos básicos, como sabão e luvas, e os pacientes devem obter esses insumos para serem atendidos.

Além disso, o país sofre com o racionamento de água e de eletricidade. Na maior parte do país, há cortes de energia de três horas diárias. Por essa razão, a Sidor, com seus 15 mil trabalhadores, está paralisada.

Tudo isso explica a opinião generalizada na população de que esse governo tem de sair.

Lutas contra a crise

As lutas ainda estão muito dispersas. Há médicos em greve de fome contra os baixos salários e a situação crítica dos hospitais públicos. Há lutas nas universidades públicas pelo aumento dos salários e do orçamento. O mesmo se aplica aos professores do estado de Bolívar, ao sul do país, que realizam mobilizações e paralisações. Muitos moradores se mobilizam contra cortes de energia e de água e contra a insegurança, trancando as ruas e avenidas. Há muitas reivindicações por acordos coletivos. Mas, até agora, os líderes sindicais, a grande maioria do PSUV, como os da Central Socialista Bolivariana e a Mesa da Unidade Democrática (MUD), que têm influência sobre os sindicatos, não fazem nada para uni-los. Sequer apresentam um plano nacional de luta.

Os trabalhadores não têm confiança na Mesa da Unidade Democrática e em seus dirigentes sindicais que estão muito desprestigiados, assim como o PSUV. Na maioria das vezes, são os sindicatos não controlados por essas organizações que fazem a resistência.

O MUD quer derrubar o governo?

O governo afirma que um golpe está em curso e que há, inclusive, risco de uma possível invasão ao país. Até agora, porém, nada disso aconteceu. Por outro lado, a Mesa da Unidade Democrática (que reúne partidos da oposição burguesa ao chavismo) e os seus representantes na Assembleia Nacional, o Congresso venezuelano, dizem que é preciso retirar Nicolás Maduro da Presidência. Por isso, apresentam como saída um referendo revogatório e correram atrás das assinaturas necessárias para convocá-lo. Contudo, não há disposição para, efetivamente, realizarem tal plebiscito. Tentam utilizar essa proposta para forçar o governo a encontrar uma saída negociada para a crise.

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Por outro lado, Maduro radicalizou seu discurso e questionou a continuidade da Assembleia Nacional. O governo vem administrando o país com base em decretos como o de Emergência Econômica e o decreto sobre Estado de Emergência. Enquanto isso, os deputados da MUD defendem na Organização dos Estados Americanos (OEA) a aplicação da Carta Democrática, que significaria a suspensão e a aplicação de sanções à Venezuela.

Em meio à instabilidade política, os jornais noticiaram, no dia 28 de maio, que uma delegação viajará ao país para tentar um acordo entre oposição e governo. A delegação conta com os ex-presidentes José Rodriguez Zapatero (Espanha), Leonel Fernandez (República Dominicana) e Manuel Torrijos (Panamá), entre outros participantes. Este diálogo é abençoado pelo imperialismo ianque. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, discutiu com Zapatero uma proposta para facilitar o diálogo entre o governo e a oposição da Venezuela.

Não sabemos se haverá algum acordo. Não está excluído que Maduro possa cair ou até ceder seu mandato para seu vice-presidente para, assim, manter o chavismo no poder.

Mas, para além dos discursos e negociações, é claro que a MUD não se joga para qualquer mobilização que possa derrubar o governo. Isso porque eles têm medo da mobilização popular que não podem controlar. Tampouco está em curso algum plano de golpe ou invasão do país fomentado pelos EUA. A luta entre os diferentes setores da burguesia do chavismo e da MUD não vai resolver os problemas trabalhadores.

Por isso, os trabalhadores perderam suas expectativas na Assembleia Nacional. O fortalecimento eleitoral da MUD não é parte de uma direitização da sociedade, mas é resultado de uma capitalização da crise e da paralisia do governo, além do fato de não existir uma alternativa à esquerda.

O referendo revogatório é um direito constitucional do povo. Nas mãos da MUD, entretanto, é uma ferramenta de chantagem e de negociação.

Por uma saída independente, dos trabalhadores

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Confiamos que só a luta e a mobilização da classe trabalhadora pode derrubar o governo Maduro. Para nós, são os próprios trabalhadores, com suas organizações de luta, que devem governar o país.

Dessa forma, precisamos construir a unidade na luta contra o ajuste e os ataques. É necessário convocar uma grande plenária ou um Congresso Nacional da classe operária e dos setores populares para derrotar o ajuste e construir a luta por aumento salarial, pela reintegração dos demitidos, em defesa dos direitos democráticos dos trabalhadores e de organizações populares, pelo fim do pagamento da dívida externa, pela nacionalização dos bancos e do comércio exterior, por uma indústria petrolífera 100% estatal, pela prisão dos corruptos e pela reforma agrária.

O papel da esquerda

A esquerda não conseguiu construir uma alternativa independente para romper com a polarização dos setores burgueses. Infelizmente, a grande maioria da esquerda apoiou o chavismo. Pouquíssimos se afastaram de sua influência política, como foi o caso do Partido Socialismo y

Libertad (PSL-UIT). Contudo, estes companheiros chamam, agora, uma confusa frente de resistência para lutar contra a crise. Uma frente que vai desde o chavismo crítico (que inclui ex-funcionários chavistas) até a líder sindical Marcela Maspero da Unión Nacional de los Trabajadores (Unete). Sua proposta é a convocação de uma Assembleia Constituinte. Já o Partido Comunista está aliado ao governo. Seus deputados dão apoio crítico a Maduro. Por outro lado, a organização Marea Socialista, que estava dentro do PSUV até recentemente, agora defende resgatar o legado de Chávez e pede mais democracia.

A Unidade Socialista dos Trabalhadores (ligada à LIT) afirma que é necessária a construção de uma política independente alternativa à burguesia. De outra forma, os trabalhadores acabarão, novamente, servindo de fantoches dos chavistas supostamente democráticos e críticos ao governo. Essa não é a saída para a crise. Muito menos o caminho para o socialismo.

Publicado em Opinião Socialista no 518, 2 a 15 de junho de 2016.