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Um representante da oligarquia herrerista, Lacalle Pou, do Partido Nacional (Branco), conseguiu chegar à presidência no Uruguai com uma aliança de cinco partidos. Esse agrupamento denominado “Coalizão Multicolorida” abrange desde a centro-direita até a extrema direita de Manini Ríos. Lacalle Pou deverá ser um equilibrista para construir e manter alguma coesão no futuro governo e, para isso, começou rapidamente com a distribuição de ministérios a seus parceiros, o que levou ao surgimento das primeiras demandas entre os chamados “multicoloridos”.

Por: IST-Uruguai

O novo governo assumirá em março de 2020 com um parlamento fragmentado, chegando à presidência com uma fraca diferença de 29 mil votos no segundo turno. Considerando a situação, já foi iniciado um diálogo fluido com a direção da Frente Ampla, com quem já está procurando acordos para sustentar a chamada “governabilidade”.

A polarização social que convulsiona a região e que, subterraneamente estava contida no Uruguai, teve sua expressão distorcida nas eleições. Por isso toda a burguesia expressa sua preocupação, pois neste terreno frágil, os ajustes, cortes e reformas contra os trabalhadores anunciados na campanha devem ser realizados de maneira dissimulada. O próprio Julio María Sanguinetti, do partido Colorado, reconheceu no semanário Búsqueda que o novo governo precisa enfrentar “uma situação de fragmentação política maior”.

Uruguai não está isolado do continente

O jornalista Leonardo Haberkorn, em sua coluna de opinião política de 25 de novembro, descreve a situação regional e mundial que está sendo vivida “(…) as ruas de metade do planeta estão ocupadas por pessoas que reivindicam. Existem protestos no Chile, Equador, Colômbia, Venezuela, Nicarágua, França, Espanha, Hong Kong, Haiti ”(…) Em alguns lugares, as razões para essas manifestações parecem nítidas. (…) contra processos autoritários, fraudes e golpes de Estado. Em outros lugares as razões são mais difusas: não há ditadura ou golpe de estado, mas a raiva é a mesma”.

Citando o sociólogo espanhol Manuel Castells, ele disse que o que está acontecendo com os chilenos não é algo exclusivo deles, “mas é uma onda mundial”. (…) E explicou que “o fundamental é o descontentamento, desconfiança, insatisfação com o sistema. Tratar os protestos como um mero problema de segurança pública, faz com que se aprofundem.”

O que Haberkorn descreve é ​​o contexto mundial abalado, onde houve uma ascenso das lutas operárias e populares das quais nosso país não está excluído.

Levando em conta esses elementos, na própria noite das comemorações das eleições, o medo pelos milhares de mobilizados e a polarização instalada no Uruguai levou a que tanto Lacalle Pou como Daniel Martínez encerrassem seus discursos de maneira semelhante: instando seus apoiadores a “ir para casa”, “ir felizes” e tentando vender que os poderosos oligarcas e os trabalhadores “fazem parte de um mesmo Uruguai”.

Javier Miranda, presidente da FA (Frente Ampla), na edição semanal de 28 de novembro do semanário Búsqueda, reconheceria o terror que os dirigentes têm quando as pessoas saem às ruas. Miranda afirma que “a decisão (de não reconhecer o vencedor) se baseia em como eu dialogo com meu pessoal. Como eu dialogo com as pessoas que se mobilizaram, que fizeram uma ação formidável. Como faço para contê-las, segurá-las e enviar uma mensagem.” E lhe perguntamos: “Quando você diz “conter”, o que quer dizer? É considerado que, se a derrota fosse reconhecida, poderia haver problemas nas ruas?” A que o líder da FA responde: “Você avalia muitos cenários. Obviamente não é o único. Mas um dos cenários é em que estado de ânimo as pessoas saem e quais as consequências desse estado de ânimo. Evidente que não é o único fator, mas é um.”

O derrotismo dos dirigentes da FA e as bases

Sem dúvida, essa situação de paridade entre as duas coalizões não ocorre porque a direção da FA se empenhou na campanha após a perda da maioria parlamentar em outubro. Pelo contrário, o derrotismo de sua direção contrastou com uma ampla massa de trabalhadores que, dos bairros, adotando a consigna “contra o retrocesso” e para “que não suba a direita” reverteram a baixa votação de outubro, recuperaram 180 mil votos e deixaram a eleição de domingo em um “empate técnico”.

Yamandú Orsi, chefe da campanha da FA, reconheceu dessa maneira assim como o resto dos dirigentes, que já estavam rendidos e convencidos de que perderiam por mais de 8% dos votos. Além dessa recuperação de votos, a militância se viu fortalecida por outro fator: a chegada da bancada de extrema direita ao parlamento liderada por Manini Ríos e outros fatos, como a declaração do Centro Militar e o vídeo do próprio Manini.

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A impunidade abala a estabilidade

Apesar de todos os esforços, a fragilidade do acordo multicolorido já trouxe os primeiros abalos.

Não é para menosprezar a chegada ao Uruguai do partido Cabildo Aberto, composto por setores de extrema direita e elementos que reivindicam o golpe de Estado, que agora atuarão sob a proteção do parlamento e servirá de incentivo a alguns de seus seguidores, como vimos em Techera, para realizar uma série de ameaças e ações contra as liberdades democráticas e os direitos humanos.

Como a extrema direita chegou ao parlamento? As ameaças e declarações são fatos novos?

Em outubro de 2017, a organização de Familiares expressou:

“Mais uma vez a busca por detidos desaparecidos é ostensivamente assediada por provocadores”. Primeiro, foi o roubo de discos rígidos do Grupo de Pesquisa em Arqueologia Forense da Faculdade de Ciências Humanas em março de 2016 e, em seguida, o “Comando Barneix”, que colocou “a chantagem de optar entre parar os processos militares ou a vida de notáveis ​​combatentes pelos Direitos Humanos”.

Nos quartéis que foram centro de detenção e tortura “três pessoas entraram no Batalhão 13 – onde são realizadas escavações para procurar restos de desaparecidos -” com um drone que sobrevoou a área por 20 minutos “. E “algo semelhante aconteceu nas instalações do Grupo de Artilharia Antiaérea No. 1 – La Montañesa – na Rota 34, onde também estão sendo realizadas escavações”. Os familiares afirmam que “essas ações que repudiamos, realizadas por aqueles que, com ou sem uniforme, estão indubitavelmente relacionados aos criminosos do passado, aos que aplicaram o Terrorismo de Estado em nosso país, são impulsionados pela impunidade que gozam.”(1)

Nós do IST, denunciamos há muitos anos que essa impunidade tem como responsáveis diretos aqueles que permitiram, a partir dos governos “democráticos”, que golpistas, torturadores e assassinos permanecessem, em sua vasta maioria, em liberdade. Essa situação, que se origina do Pacto do Clube Naval e da Lei de Expiração, é mantida até hoje e é aí que devemos procurar os motivos da chegada de CA ao parlamento. Os líderes da FA, que se reivindicam “de esquerda”, são diretamente responsáveis ​​pela situação atual e não podem se mostrar espantados.

Em 15 anos de governos com maiorias parlamentares, juntamente com Brancos e Colorados, eles cumpriram o pacto de impunidade. E foi sob o governo da FA que ascenderam, dando apoio parlamentar, para que Manini Ríos subisse na posição de Comandante em Chefe das Forças Armadas. Os resultados dessa sinistra política são visíveis hoje.

Governo Multicolorido e o papel dos dirigentes da Frente Ampla

Um dos homens de confiança de Lacalle Pou é Álvaro Delgado, cujo nome aparece como possível secretário da Presidência ou como futuro ministro da Indústria. Delgado declarou à imprensa que o próximo governo de Lacalle Pou “não excluirá ninguém, nem mesmo a Frente Ampla”. «Estou convencido de que a FA irá enriquecer alguns projetos de lei. O Uruguai é um país de diálogo. O próprio Miranda (presidente da FA) disse que conversamos antes e depois das eleições. O diálogo deve sempre existir. É preciso olhar para frente”, Delgado também disse que Lacalle não falou com Daniel Martínez, mas disse que a “instituição” está “acima das pessoas”. “O relacionamento com a FA e os legisladores nós tivemos, temos e teremos. Na segunda-feira, de fato, teremos uma reunião de coordenação com Lucia Topolansky”, afirmou. (2)

O próprio Luis Lacalle Pou, em entrevista em 20 de outubro, disse que “o próximo governo precisa de força e estabilidade”, ao qual acrescentou que, para sustentá-lo, haveria para a FA uma integração dos organismos de entidades autônomas, serviços descentralizados, desconcentrados, como forma de controlador, nas macro políticas dos organismos. E depois um diálogo com as organizações sociais, com sindicatos, com câmaras de negócios.

Como o PIT CNT se prepara diante do governo de direita?

A maioria da direção da Plenária Intersindical de Trabalhadores – Convenção Nacional de Trabalhadores (PIT CNT) fez campanha pela FA e os trabalhadores foram informados de que o retrocesso e a onda conservadora estavam chegando, que era preciso votar na FA para derrotá-los e enfrentá-los. No entanto, com o passar das horas, torna-se cada vez mais evidente que eles começam a construir pontes, a falar sobre o diálogo na direção da Central. Agora eles nos dizem que somos todos uruguaios e que querem dar estabilidade ao governo de Lacalle Pou.

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Fernando Pereira, dirigente máximo da PIT-CNT, afirmou ao jornal El Observador que “a postura da Central Sindical diante do próximo governo será de diálogo”, e acrescentou que se reunirá com o presidente eleito. Segundo Pereira, este seria “o pontapé inicial de um diálogo que será ampliado nos próximos 5 anos”. Questionado sobre quem poderia ocupar o Ministério do Trabalho, Pereira afirma:

“Eu que sou cristão, gostaria que fosse Pablo Mieres que é um humanista cristão, tem sensibilidade com o trabalho, escutei sua fala na sede da PIT-CNT sobre negociação coletiva e ele tem critérios claros. Conrado Ramos é um cara que sabe muito sobre negociação coletiva no setor público, de reforma do Estado” (3).

Mas Fernando Pereira não para por aí e cobre de elogios os dirigentes Branco e Colorados: “Temos um bom vínculo com Beatriz Argimón, com Álvaro Delgado, temos um vínculo de muita confiança com Jorge Larrañaga, cultivamos isso por 20 anos. Temos construído vínculos com as pessoas mais avançadas do partido Colorado.”

Campanha do diálogo com os dirigentes Brancos e Colorados e campanha de medo e desmobilização com os trabalhadores

Os dirigentes da FA nos disseram que se a direita ganhasse viria o retrocesso, os conservadores ao chegar ao governo roubariam nossos direitos. Mas acontece que, em vez de organizar a luta para enfrentá-los, eles agora nos falam sobre o bom diálogo, sobre as boas relações pessoais que mantêm com quem impulsionou o plebiscito para levar os militares às ruas para derrotar os trabalhadores.

Por outro lado, dirigentes como Javier Miranda, exploram um fato real para disseminar o medo, para não irmos para as ruas e deixar o ajuste passar. Por isso, quando perguntado como a FA estará diante do governo Multicolor, afirmou:

“O que precisa ser feito é fortalecer as forças democráticas. O diálogo democrático, sem dúvida. A Suécia fez isso. Gerou uma defesa. Os conservadores que venceram a eleição fazem uma aliança … Não digo que no Uruguai tenhamos que fazer isso. Não digo que Cabildo Abierto seja Bolsonaro.

O que eu digo é que os dois são manifestações da extrema direita. Claramente. E eu estou muito preocupado.

Jornalista – Como a Frente Ampla deve atuar nesse cenário? Como seria esse diálogo concretamente?

– Discutindo as leis. Procurando acordos, sem dúvida. Como se faz habitualmente. 85% das leis que surgiram nos últimos 15 anos não saíram só com os votos da Frente Ampla. (…) Não quero cair na polarização (… Existe o risco de empurrar Lacalle Pou em direção a seus sócios de ” ultradireita “? Claro, totalmente. Seria um erro. É por isso que temos que dialogar politicamente”, afirmou Miranda.

Essa política desmobilizadora e “dialoguista” recomendada por Pereira e Miranda foi a que se mostrou sinistra para os trabalhadores e as pessoas humildes na história. Infelizmente, é a política que começa a praticar a direção da FA e acompanhada por grande parte da direção do PIT-CNT.

Mas esses esforços por desmobilizar já começam a gerar descontentamento em alguns companheiros de base da FA, os mesmos que se arrebentaram para conseguir reverter os poucos votos nos diziam: “Não nos deixaram bater panela, já que favoreceríamos a Lacalle, nos disseram para não colocar alto e forte a música “A Redoblar”, porque eles veriam como uma provocação e desarticularam a mobilização de 27 de novembro que evoca “o rio da liberdade” no final da ditadura, pois incitaríamos a extrema direita”.

Como se detém o avanço da direita e da ultradireita?

A única maneira de derrotar as políticas de ajuste, cortes e reformas que vão contra os trabalhadores, aposentados e estudantes que serão aplicados pelo governo de Lacalle é se organizar e mobilizar. Precisamos de uma luta que vá aumentando e que derrote os retrocessos que vem impor e aprofundar o governo dos ricos encabeçado por Lacalle Pou.

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E da mesma maneira que heroicamente o povo uruguaio expulsou os militares na ditadura, saindo às ruas sem medo e organizando enormes manifestações, esse mesmo caminho é por onde poderemos expulsar a ultradireita que agora tem até representação no parlamento.

Aprofundar e fortalecer os 20 de maio, que não seja um único dia por ano, mas que nos mantenha alerta para protestar diante de qualquer fato, como foram as declarações do Centro Militar ou vídeos como o do militar Techera ou o de Manini, que será a única forma de pará-los.

Porque para concretizar o que gritam os jovens e as bases frentistas “milicos nunca mais”, devemos impor com a luta e a mobilização uma tarefa inconclusa, o Julgamento e Punição para assassinos, golpistas, torturadores e violadores dos direitos humanos. Nenhum deles deve ser deixado solto nas ruas, todos devem ser presos em prisões comuns. O caminho proposto pela FA nos leva a um beco sem saída, ao crescimento da ultradireita e onde acabaram levando  Manini Rios.

A Esquerda Socialista dos Trabalhadores faz um chamado à organização

A eleição terminou, mas a unidade não é com os de cima, é a unidade da nossa classe trabalhadora que precisamos. Para além de como votaram os trabalhadores, os jovens, o povo humilde, precisamos nos unir para organizar a luta contra os oligarcas, os ricos e aqueles que querem colaborar para abrir-lhes caminho.

Nós da IST, dissemos antes da eleição às trabalhadoras e aos trabalhadores, aos estudantes e população dos bairros, que quem quer que ganhasse viria um grande ajuste junto com reformas que são um roubo de direitos e conquistas.

Hoje, a maneira pela qual os dirigentes da FA e os dirigentes do PIT CNT, com o futuro governo de direita, começam a se relacionar, é uma política que nos liga ao enorme ajuste que está por vir. Denunciamos o chamado ao diálogo e à “paz social”, que são uma grande armadilha para que não lutemos.

Dizemos aos trabalhadores e às bases da juventude da FA, com respeito, mas com clareza, que quem levou à derrota eleitoral de outubro foram seus dirigentes. Agora vocês, com seu esforço e militância, colocaram os chefes da FA em um lugar melhor, mas, em vez de usar esses lugares para enfrentar os ajustadores e os oligarcas, novamente propõe políticas e diálogos que levarão a grandes derrotas.

É preciso organizar a luta: um chamado às bases trabalhadoras e estudantis da Frente Ampla

Precisamos nos organizar, discutir a nova situação e preparar a luta. Dizemos às bases e companheiros honestos da FA que eles devem se rebelar contra esse chamado de seus dirigentes para desmobilizar.

Precisamos construir uma organização de esquerda revolucionária e socialista, sem patrões, sem burocratas sindicais e sem generais “patriotas”. Essa organização que queremos construir com vocês deve ser dirigida pelas trabalhadoras e os operários, juntamente com os estudantes. E é necessária para lutar por uma nova direção sindical que enfrente de forma séria o ajuste que está por vir. Queremos construir um grande partido com você, capaz de derrotar o capitalismo e colocar em marcha uma revolução que leve a conquistar um Uruguai Socialista e um governo operário com democracia operária.

Nós da IST e da LIT, te fazemos a proposta de lutar por um mundo socialista, um sistema social que acabe de vez com os feminicídios e liquide o machismo. Para isso, colocamos à disposição nossa humilde organização, convidamos você a debater, organizar e avançar nessa nova construção que é uma tarefa imensa. Este é o nosso chamado a todos os lutadores honestos da FA, aos lutadores independentes e àqueles que compartilham a ideia de não se ajoelhar diante dos mais ricos, da extrema direita, dos capitalistas e do imperialismo.

Notas:

1)https://desaparecidos.org.uy/category/prensa/page/4/
2)ttps://www.montevideo.com.uy/Noticias/Delgado–El-gobierno-de-Lacalle-no-excluira-el-posfrentismo-no-es-sin-el-Frente-Amplio–uc736955
3)https://www.radiomontecarlo.com.uy/2019/11/26/entrevista-930/fernando-pereira-yo-que-soy-cristiano-lo-deseo-a-mieres-como-ministro-de-trabajo/

Tradução: Tae Amaru