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Os novos parlamentares já tomaram posse e em poucos dias o fará o novo presidente de direita, Luis Lacalle Pou. A mudança de governo ocorre no meio de uma grande polêmica sobre o projeto denominado “Lei de Urgente Consideração”.

Por: Heber, do IST, Uruguai

Esta lei, com seus mais de 450 artigos, visa cortar muitas conquistas das operários e dos trabalhadores, tenta limitar o direito de greve e as ocupações, criminalizando protestos e mobilizações.

Também em seu texto é anunciada a liquidação do monopólio estatal do petróleo da ANCAP, aprofundando as privatizações, bem como várias medidas que são prejudiciais à educação pública e gratuita.

A isso, acrescentam-se as declarações de integrantes da ultradireita do partido Cabildo Aberto, que em entrevistas e declarações chegaram a reivindicar a ditadura e a justificar a violação dos Direitos Humanos.

O Cabildo Aberto, que é integrado por muitos ex- militares de alta hierarquía, soltou as rédeas de seu desejo de reduzir as liberdades democráticas, despreza a reivindicação de Familiares dos desaparecidos no Uruguai, minimiza as torturas, assassinatos, estupros de mulheres e os milhares de presos políticos que foram detidos nas décadas de 70 e 80 sob a ditadura cívico-militar.

É no meio desse ambiente que aprofunda a polarização social, que em 1º de março assumirá o governo Lacalle Pou e colocará em suas funções a todos os seus ministros de direita.

Aliados “multicoloridos”, um governo com muitas debilidades

A corporação financeira imperialista Fitch, com sede em Nova York e Londres, emitiu um comunicado afirmando que a coalizão multicolorida está “composta por partidos que não são todos aliados tradicionais, com um grau de diversidade ideológica entre eles, o que gera alguma incerteza sobre o alcance e a velocidade das reformas que podem ser alcançadas”.

Por isso Fitch estima que a Lei de Urgente Consideração “servirá como um teste inicial para a coalizão”.

Esses abutres financeiros que querem garantir a continuidade dos pagamentos da dívida externa e estão muito interessados ​​na aplicação das medidas de ajuste anunciadas pela direita, têm boas razões para sua preocupação e incerteza sobre o novo governo.

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Lutas por candidaturas, os Direitos Humanos e diferenças com a lei

É que, embora todos os integrantes multicoloridos tenham um acordo em contrariar os direitos e conquistas dos trabalhadores, as formas como levarão isso adiante geraram enormes disputas. Inclusive a luta pelas candidaturas à Intendência chegou a asperezas tão frias que o próprio Lacalle Pou foi obrigado a intervir para colocar “ordem” designando Laura Raffo como candidata por Montevidéu diante da briga que crescia entre seus aliados.

Assim que a intensidade dessa discussão diminuiu, os porta-vozes de Lacalle Pou novamente tiveram que colocar panos frios e esclarecer que eles não apoiam o relato de C.A. sobre a ditadura militar que reacendeu a discussão sobre o assunto das violações dos direitos humanos e da ditadura. Esses fatos não fazem mais que continuar a aprofundar as fissuras no regime e mostram as divergências entre os diferentes setores da burguesia sobre o caminho a recorrer para “virar a página”.

O próprio projeto de lei apresentado por Lacalle é outro motivo para as diferenças entre os multicoloridos. Múltiplas reuniões foram realizadas entre Blancos, Colorados, Cabildo Aberto e seus parceiros menores, onde querem alterar ou adicionar artigos, diferem nos tempos de aplicação da Lei e até na redação de algumas das medidas anunciadas no texto.

A essas disputas internas da coalizão foi acrescentada a detenção de Maya Cikurel, esposa do futuro ministro da Educação e Cultura Pablo da Silveira, acusada de lavagem de dinheiro na enorme trama de corrupção da empresa Odebrecht. Nesse mesmo caso, lembremos  que foi processado o irmão do atual senador Colorado, Julio María Sanguinetti, apelidado de “Betingo”, que está cumprindo prisão domiciliar.

Todas essas questões, as polêmicas e divergências geradas inclusive antes de Lacalle Pou assumir a presidência, deixam marcados muitos dos traços de debilidade do futuro governo, acrescentando um parlamento totalmente fragmentado.

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Sabemos, pelos seus anúncios e declarações, que para aprovar suas medidas antioperárias, esse governo tentará se apoiar ainda mais no aparato repressivo, usando como desculpa a insegurança que existe nos bairros operários e humildes.

Mas a “mão-de-ferro” não será usada de forma alguma contra os verdadeiros e grandes criminosos; no fundamental estará dirigida contra as lutas dos trabalhadores, contra o direito de greve e contra as mobilizações populares e os bairros humildes.

Mas além de sua intenção de endurecer a repressão, Lacalle Pou sabe muito bem que deve tomar cuidado, porque pode incendiar o campo e já o alertaram vários analistas burgueses. Os exemplos dos povos do Chile e da América Latina que despertaram enormes mobilizações e lutas quando práticas violentas de repressão foram impostas a jovens, trabalhadores e pessoas humildes, são um grande exemplo que percorre o continente e que nosso povo, mais cedo ou mais tarde, certamente vão seguir nestes tempos de rebelião.

Tradução: Tae Amaru