Tabaré Vázquez afirmou que o governo de Mauricio Macri não é neoliberal nem de direita, e afirma que tem “propostas interessantes” e uma concepção “progressista”.

Por: Juan Ranchos

O governo argentino de Mauricio Macri, repudiado pelos militantes e eleitores da Frente Ampla (FA) uruguaia, é apresentado pelo presidente Vázquez como um governo de “propostas interessantes” e “progressista”. Essas declarações de Tabaré Vázquez à revista Voces percorreram todos os meios de comunicação e principalmente os da velha direita uruguaia. “Parece-me que [o governo de Macri] chega com muito boa intenção de levar adiante políticas sociais” (…) “Não o classificaria já de entrada como um governo neoliberal ou de direita (…)”. Essas foram algumas das afirmações do dirigente da Frente Ampla e atual presidente da República.

É verdade que Macri não é de direita?

Segundo o jornal Página12, quando ainda faltavam alguns dias para que o novo governo argentino assumisse, já anunciava seu perfil: “O Plano Econômico de Mauricio Macri [significará] desvalorização e inflação (…) Macri não assumiu, mas as expectativas de desvalorização induzidas por suas promessas já se refletem nos preços e em novembro a inflação duplicou (…)”.

Após poucos dias das eleições, as definições de Macri mostram que a partir de 10 de dezembro o que vem para o país, para os trabalhadores e o povo é mais saque, ajuste e repressão.” O ajuste fiscal que o novo governo argentino prepara significa uma forte perda salarial, que são uma continuação e aprofundamento dos cortes sociais iniciados pelo governo de Cristina Kirchner.

Macri [propôs] tomar o território“, isto é, “militarizar as ruas e os bairros, saturando-os com a presença das forças de segurança, o que resultará em mais violência policial, mais uso abusivo de armas de fogo, mais repressão àqueles que se organizam para lutar por seus direitos, mais tráfico de pessoas”.

Macri anunciou que eliminará os subsídios” às empresas que foram privatizadas. Com isso, subirá as tarifas para que haja “um sistema de tarifas justo e equilibrado. É óbvio que para Macri o ‘justo’ é que os trabalhadores [argentinos] paguemos mais caro a fatura, como fez com o metrô da Capital Federal. (…) Estas medidas tornarão mais caros a luz e o gás, para manter os lucros das empresas privadas”.

Por que Tabaré Vázquez quer esconder que Macri é de direita?

O líder da Frente Ampla, Tabaré Vázquez, tenta enganar seus militantes e eleitores, apresentando o governo Macri como “progressista” e afirmando que não é “neoliberal” nem de “direita”. Mas isso não significa que Tabaré ignore que o governo do empresário Macri vai aplicar um duro ajuste contra os trabalhadores.

É que essas medidas que o governo argentino aplicará são parecidas às que Vázquez aplica no Uruguai. Dizer que as medidas do país vizinho são de caráter neoliberal é reconhecer que a Frente Ampla aplica medidas de direita e neoliberais.

Alguns exemplos

A Frente Ampla já liberou o tipo de câmbio, que superou os 30 pesos uruguaios, levando os trabalhadores a perderem o poder de compra uma vez que recebem em pesos. Liberalizar o mercado de câmbio é uma das medidas anunciadas pelo governo de Macri. O governo da FA quer a abertura dos mercados como exigem os Estados Unidos, convênios com a União Europeia e avançar na Aliança do Pacífico (bloco regional composto por Colômbia, México e Peru ). Isso é o mesmo que o governo Macri anuncia com a abertura dos mercados.

O governo da Frente Ampla, para conseguir aprovar o rebaixamento salarial nos conselhos de salários, contou com o apoio da cúpula da central sindical PIT-CNT e de toda a burocracia sindical. Um exemplo é o cargo de Juan Castillo, Diretor de Trabalho e membro do Partido Comunista. Durante a greve docente, Castillo assinou os acordos de rebaixamento salarial e permaneceu em seu cargo depois do decreto da essencialidade da educação. O governo de Macri designou Jorge Triaca para a pasta do trabalho, filho de um dirigente corrupto do setor da indústria do plástico, que enriqueceu na época de Menem com o dinheiro dos trabalhadores. Com essa designação, Macri busca satisfazer e conter a luta social na Argentina jogando migalhas para alguns setores da direção sindical corrupta, como a Frente Ampla fez no Uruguai.

Com certeza, existem algumas diferenças de forma entre os governos e seus planos. Conosco, no Uruguai, mesmo sob os governos da direita tradicional, os ajustes são graduais, pouco a pouco, enquanto que na Argentina se caracterizam por serem medidas de choque, como o ajuste aplicado pelo governo peronista de Menem nos anos 1990, chamado de “cirurgia sem anestesia”. Ao que parece, Macri seguirá o mesmo caminho.

O rebaixamento salarial aplicado pelo governo uruguaio, o corte de investimento nas empresas estatais, o corte nas políticas sociais e inclusive o fechamento da internação de hospitais da Previdência Social (BPS), como o Canzani, fazem com que Vázquez, por medo de se ver em um espelho, tenha que mentir e afirmar que o governo do Grupo Macri* não é de “direita”.

Nota:

*O Grupo Macri é um dos grupos econômicos mais importantes da Argentina, propriedade do magnata Francisco Macri, seu fundador e dirigente. O grupo possui empresas na Argentina, no Brasil e no Uruguai, nos ramos de construção, indústria automobilística, correio, coleta de resíduos e alimentação. Está estreitamente relacionado com o Grupo SOCMA (Sociedade Macri). Mauricio Macri é filho do líder do grupo e ocupou diversos cargos diretivos nas empresas que o integram.

Tradução: Arthur Gibson