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O reformismo que se diz “de esquerda” ou “progressista” (Nuevo Perú, Frente Amplio, Partido Comunista, Patria Roja etc.) iniciou uma cruzada contra o “pior Congresso da história”. A evidente podridão do parlamento (corrupção, malversação de fundos etc.) é razão mais que suficiente para querer botá-lo abaixo. Mas o que está por trás dessa repentina radicalidade?

Por: Víctor Montes

Para o reformismo, todo o problema do parlamento é – que novidade! – o fujimorismo. Ou, para sermos mais precisos, o “fuji-aprismo” (referência a Fujimori e ao Partido Aprista, ndt.).

Com essa visão, as organizações reformistas renunciam, mais uma vez, a focar no inimigo de turno: o governo em seu conjunto, ou seja, no presidente Vizcarra e companhia. Justamente quando ele vem impulsionando, junto ao seu Conselho de Ministros e de mãos dadas com o Congresso, as medidas mais prejudiciais para os trabalhadores e o povo:

  1. O gasolinaço, aumento do preço dos combustíveis que afetou o bolso do povo pobre, com a única finalidade de “fazer caixa” para o pagamento da dívida externa.
  2. A extensão do “Regime de promoção agrária” – criado por Fujimori –, que condena centenas de milhares de operários e operárias agrícolas à superexploração, e que Vizcarra não quis revogar.

Nesse contexto, o “enfrentamento” legal entre o governo e a chamada “Lei Mulder”, que proíbe que o Estado contrate espaços publicitários nos meios de comunicação privados, não passa de um conflito entre os de cima. O centro é o enorme acordo que existe entre o parlamento e o governo, razão pela qual o primeiro concedeu, por ampla maioria, as faculdades para legislar em matéria econômica solicitadas pelo primeiro-ministro Villanueva.

A “esquerda” se lamenta

Nada disso está no centro do discurso da esquerda reformista, que considera “lamentável” que Vizcarra esteja “perdendo a oportunidade” de “democratizar” o país. Isso é manifestado, por exemplo, por Verónika Mendoza, do Nuevo Perú, quando afirma, em uma coluna publicada pelo Diario de la República (18.06.18):

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quando Vizcarra assumiu o cargo (…) tinha a tarefa histórica de iniciar uma transição a uma democracia (…) Mas, ao invés de significar uma ruptura, optou pela continuidade (…) Com um governo débil e continuista e uma maioria parlamentar mais preocupada em ocupar o poder a qualquer custo, nossas instituições se debilitam e perdem legitimidade perante a cidadania”.

Não querem lutas, querem votos

O que acontece é que, mais uma vez, o reformismo de esquerda aposta em uma estratégia eleitoral, de costas para as necessidades urgentes da luta de classes no país. E fazem isso utilizando como saco de pancadas o alvo de sempre: o fujimorismo. Ou, mais precisamente hoje, a Fuerza Popular e Keiko Fujimori.

Chegaram até mesmo a defender Kenji Fujimori – o mesmo que negociou o indulto do ditador e comprou os votos necessários em troca de salvar o PPK (Pedro Pablo Kuczynski) da vacância presidencial em dezembro passado – das “garras” da Fuerza Popular, apenas com o objetivo de “enfrentar” Keiko e companhia.

Inclusive a CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru), que convocou uma Jornada Nacional de Lutas – anulando, isso sim, uma Greve Geral – contra o pacote de ataques do governo, insere-se na mesma política.

Como exemplo, em 23 de maio, 10 dias depois do aumento do ISC (Imposto Seletivo ao Consumo) pelo governo, e enquanto Cusco preparava a poderosa greve regional que abriu fogo contra o pacotaço do governo, os dirigentes da CGTP se reuniram com Vizcarra para “apresentar-lhe as reivindicações dos trabalhadores” e manifestar seu desacordo com o aumento do ISC… no mais cômodo ambiente de “diálogo”.

Completamente o oposto do que os trabalhadores e o povo pobre querem hoje para solucionar os seus problemas mais urgentes!

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Tradução: Mandi Coelho