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As organizações que se dizem “de esquerda” fizeram do “fechamento do Congresso” a única bandeira com a qual colocam para os trabalhadores do país, a necessidade de mobilização.

Por: Víctor Montes

Essa demanda, que se baseia em um sentimento legítimo: o ódio contra um Congresso que provou ser um ninho de bandidos, e uma maioria parlamentar (Fuerza Popular) que usa, da forma que quer, seu peso para defender seus interesses de grupo, implica seguramente em um enorme perigo para a classe trabalhadora, que começou a considerara seu inimigo (o governo de Martín Vizcarra) como um aliado. Por que afirmar isso?

A luta contra a corrupção

Ninguém pode duvidar que a luta contra a corrupção deva, por necessidade, enfrentar o Congresso, no qual todos os tipos de criminosos de colarinho branco e gravata se refugiam. A queda do parlamento, que só pode ser conseguida pelas mãos da mobilização operária e popular, seria um passo à frente para a classe e seus aliados: o campesinato e os pobres do país, pois fortaleceria a dinâmica de mobilização.

O problema é que as organizações que se denominam “de esquerda” e que tentam dar forma a um movimento pelo fechamento do congresso, usam essa demanda sentida, para reforçar suas próprias posições, mais ainda diante dos processos eleitorais que estão por vir.

O abandono do classismo

Ao contrário dessa “esquerda”, nós que abraçamos uma política de classe, concordamos que o Estado só pode ser entendido como um corpo único a serviço dos interesses e do domínio dos patrões. Para Marx, artífice, juntamente com Engels, da mais completa compreensão das contradições sociais sob o capitalismo, “… o poder político não é, estritamente falando, mais do que o poder organizado de uma classe para oprimir a outra. (…) ” (Manifesto Comunista).

Na sociedade capitalista, em nossa sociedade atual, portanto, isso toma forma no poder organizado da burguesia para oprimir a classe operária.No caso de nosso país, esse “corpo” chamado Estado foi desmascarado como um ser podre até o núcleo pela corrupção.Mas tem mais. Marx confere ao poder executivo, isto é, ao governo, um papel particular nesse “corpo”: “O governo do Estado moderno nada mais é do que uma junta que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa”.

Portanto, imaginar diferenças entre o parlamento e o governo, “enfrentando” um, mas apoiando o outro, só ajuda na confusão. No entanto, para a “esquerda”, o único inimigo à vista é o fujimorismo e sua maioria parlamentar. Por esta razão, nos fatos, tomou partido pelo governo de Vizcarra.

Isto é evidenciado pelas declarações de seus vários setores. Veronika Mendoza (Nuevo Perú), por exemplo, manifestando seu apoio à “reforma política” apresentada pelo governo, disse: “Acreditamos que o presidente deve permanecer firme até o fim e, se necessário, fechar o Congresso e convocar novas eleições “(A República, 18.09.18).

No dia seguinte, após votar contra a questão de confiança apresentada por Vizcarra perante o Congresso, Humberto Morales, porta-voz da bancada da Frente Ampla (FA), declarou que “… como Frente Ampla pedimos o fechamento do Congresso e a convocação para novas eleições gerais” .Até Patria Roja, que se diz “comunista”, pedia em 11 de setembro “… o fechamento imediato do Congresso, a convocação de eleições legislativas, a reorganização do Poder Judiciário e da Procuradoria da Nação …”.

Uma história repetida

No entanto, esta posição não é nova por parte dessa chamada “esquerda”. Nas eleições de 2011 essa “esquerda” convocou a votar no corrupto PPK contra a possível vitória do fujimorismo. Já sabemos onde Kuszynski terminou.Além disso, em dezembro do ano passado, quando as evidências colocaram na parede o presidente renunciado e a Frente Ampla apresentou uma proposta de vacância contra ele, o resto dessa “esquerda” denunciou uma “conspiração fujimorista”, acusou a Força Popular de sustentar uma “ditadura parlamentar”, e retirou-se da sessão plenária.

Com seus 10 votos, o PPK teria caído em 21 de dezembro, e teria sido impossível anunciar o indulto ao ditador Fujimori na noite do dia 24.No entanto, hoje, até mesmo a FA se encontra do lado de Vizcarra. Provando que a atuação de dezembro não tinha nada a ver com uma posição de classe, mas com um cálculo político imediato: a FA era a única organização de “esquerda” que, no contexto de dezembro, poderia aproveitar eleitoralmente o possível chamado de novas eleições. Mas nada disso aconteceu.

Uma política que só leva água para o moinho do governo

Como as eleições regionais e municipais mostraram, onde a “esquerda” quase não apareceu, o único vencedor com esse confronto entre “executivo” e “legislativo” é o governo. Mais precisamente, Vizcarra, que elevou perigosamente seus níveis de popularidade.Assim, nós trabalhadores/as precisamos apresentar uma posição diferente da colocada por essa “esquerda”.

Exigir o fechamento do Congresso, sem denunciar o governo e sem chamar também a enfrentá-lo até sua derrota e queda, significa confundir as massas trabalhadoras e pobres sobre o problema fundamental que temos em nossas mãos: o poder da burguesia, dos capitalistas, dos patrões, que usam todo o Estado, e particularmente o governo (verdadeira “junta que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa”) para impor sua vontade contra nossas necessidades mais urgentes.

REFERÊNCIAS

Marx, K. & Engels, F. (1848). Manifiesto del Partido Comunista. México-2011: Centro de Estudios Socialistas Carlos Marx. Recuperado el 15 de octubre de 2018 de https://centromarx.org/images/stories/PDF/manifiesto%20comunista.pdf

TRadução: Nea Vieira