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Novos rostos para o mesmo plano: atacar a classe trabalhadora e o povo pobre de nosso país.

Por: Víctor Montes

O juramento do gabinete [do primeiro ministro] Villanueva, primeiro da era [do novo presidente] Vizcarra, sem novidades que possam criar sequer a ilusão de estar transitando por novos rumos, colocou novamente a “bola para rolar” na política nacional.

Não podia ser de outra forma: a patronal não tem outro roteiro que a superexploração da classe operária e o leilão de nossos recursos naturais para obter seus lucros. E o governo, assim como sua democracia corrupta, são os guardiões de tal roteiro.

Por isso, com o desembaraço de um inocente, a patronal tomou a iniciativa, e além de fazer campanha pela “unidade do país” após o novo governo, definiu a agenda que Vizcarra tem pela frente, sempre em função de seus interesses:

Que a “trégua” entre o Congresso (na realidade Fuerza Popular) e o Executivo (Vizcarra) se prolongue e converta-se em “paz duradoura” (“La tregua”, editorial de El Comercio, 01 de abril de 2018).

Que conquistado o apoio político do parlamento ao governo, inicie a ofensiva no terreno econômico contra as e os trabalhadores e povos do país (“La tregua”, editorial de El Comercio, 01 de abril de 2018).

Nesse contexto, afirmam, Vizcarra não tem tempo para “ensaiar”. Deve adotar com a maior brevidade possível medidas que tendam a “reativar” o investimento público e privado (“Sin espacio para ensayo”, editorial de El Comercio, 02 de abril de 2018).

Em particular, deve se concentrar em agilizar o negócio da “reconstrução” do norte, o que implica impulsionar o negócio da reconstrução com dinheiro estatal (gasto público). E por outro, deve “destravar” projetos mineiros importantes, como Tía María, para que o “investimento privado” ganhe confiança e impulso (“Sin espacio para ensayo”, editorial de El Comercio, 02 de abril de 2018).

Uma vitória relativa

Mas como é possível que a patronal, essa que hoje sabemos que faz “chanchitas” [propinas] para prejudicar candidatos/as e que compra vontades no Estado para assegurar seus lucros, seja a que aparece, sem máscaras, colocando a agenda do governo? A resposta está na forma como PPK saiu.

Em primeiro lugar, é preciso reafirmar que a saída do governo de Kuzcynski é uma derrota do plano patronal de passar à ofensiva após as eleições de 2016. O empresariado esperava de PPK um “governo de luxo”, não porque fosse capaz de dar solução aos grandes problemas que acometem a classe operária e o povo pobre do país, e sim porque deveria implementar os recortes sobre os direitos trabalhistas necessários para assegurar os lucros patronais durante o próximo período.

Do mesmo modo, esperava que o governo fosse capaz de continuar com a entrega de nossos recursos naturais, começando por “destravar” projetos mineiros “emblemáticos” como Tía María.

Esse anseio, entretanto, despencou em 20 meses sem ter conseguido nenhum dos objetivos que o empresariado apresentou. E não pode fazê-lo porque o governo nunca teve força suficiente para arriscar-se a enfrentar nas ruas a oposição das e dos trabalhadores e povos do interior. Nesse sentido, obteve-se uma vitória.

Entretanto, a saída de PPK não foi consequência direta da mobilização operária e popular – pela responsabilidade única das organizações da “esquerda” reformista – mas, centralmente, produto da negociação dos próprios partidos políticos (burgueses) presentes no Congresso, que encaminharam uma situação que se fazia insustentável.

Daí que essa vitória, que poderia ser redonda se a classe trabalhadora e o povo pobre saíssem massivamente para enfrentar PPK até derrubá-lo e, com ele, todos os partidos do Congresso, fica relativizada, pois conduz a uma “transição ordenada” e no terreno mais conveniente para os interesses da patronal, que agora tenta reabsorver a crise e passar à ofensiva.

A patronal quer avançar

Assim, o novo governo, ainda que a princípio mais fraco que PPK, ao mesmo tempo nasce com o respaldo do conjunto da patronal e suas organizações políticas: Vizcarra é uma aposta para conseguir uma saída imediata para a crise política e abrir uma perspectiva favorável aos interesses dos capitalistas. Esta aposta se evidencia no apoio geral que lhe brindam os meios de comunicação e no ambiente de “unidade nacional” que pretendem impor.

Mas o plano patronal não para por aí. As e os capitalistas sabem que, para iniciar um novo ciclo de rendimentos, precisam avançar com novos cortes aos direitos da classe trabalhadora e os povos do interior.

Por outro lado, conseguir o ambiente necessário para passar à ofensiva implica executar, na medida do possível, o pacto de impunidade que os partidos e organismos patronais vieram negociando nos bastidores durante as horas mais difíceis da crise terminal de PPK.

Deste modo, Lourdes Flores Nano, outrora candidata predileta do empresariado e líder do PPC, chame a “não iniciar uma caça às bruxas” (El Comercio, 31 de março de 2018). Ou, o que é igual, não ir até o final nas investigações do caso Lava Jato, e muito menos punir exemplarmente as e os responsáveis, entre os quais se encontram importantes empresários, não somente políticos/as.

Nesse meio tempo, Vizcarra e Villanueva falam de um novo “pacto social”, que não pode ser mais que um novo pacto de impunidade sobre o qual iniciar a ofensiva a que a patronal tanto reclama.

A responsabilidade da “esquerda”

Neste contexto, “a esquerda” – na realidade, os partidos reformistas – realiza um trágico trabalho diante de Vizcarra e o “novo” governo, priorizando uma vez mais seus planos eleitorais, ao invés do que os tempos exigem.

Por um lado, Marco Arana, da Frente Amplio, anunciou que “a princípio” não se opõe ao novo gabinete. Que pensa em “escutar suas propostas” (!) e depois definir seu voto (La República, 29 de março de 2018). Como se fosse possível que Vizcarra e companhia tivessem um rumo diferente do que PPK representava!

Por outro, Verónika Mendoza (Nuevo Perú) iniciou uma campanha centrada em exigir que o governo se comprometa a investigar a corrupção, realizar uma reforma do sistema eleitoral – fundamentalmente proibir o financiamento privado dos partidos políticos – e só então chamar novas eleições (La Jornada de México, 31 de março de 2018)… gastar vela com mau defunto!

Patria Roja faz isso ao “demandar” de Vizcarra que seus anúncios sobre “refundar a institucionalidade” do país se transformem em “medidas políticas e legais” (?) contra a corrupção (CC do PC do Patria Roja, 27 de março de 2018).

Mais atrás ainda, o Partido Comunista de Mario Huamán e companhia, preocupado principalmente em receber Maduro, pronunciou-se mediante a direção da CGTP pedindo “diálogo imediato” com o “novo” governo para conversar sobre o “novo pacto social” anunciado por Vizcarra…

Uma alternativa operária e socialista

O que ninguém na “esquerda” quer dizer é que o “novo” governo nem é “novo” nem pode fazer algo diferente do que tinha previsto PPK: vai continuar com a entrega do país às transnacionais e, na medida do possível, vai cortar os direitos da classe trabalhadora.

Também na medida de suas possibilidades, procurará cobrir sob um manto de impunidade a corrupção que hoje brota por todos os poros do Estado patronal.

E por isso não há nada que conversar ou pedir!

Seu primeiro gabinete, cheio de “tecnocratas”, muitos deles até ontem vice-ministros e vice-ministras do gabinete Araoz (o último gabinete de PPK), é testemunha viva da vocação patronal de Vizcarra e companhia e da continuidade que este governo representa.

Por isso não podemos depositar um pingo de confiança nele e nem em seu gabinete. A classe trabalhadora tem à frente o mesmo desafio que não conseguiu tomar durante a crise terminal de PPK: organizar sua mobilização independente, em torno a uma plataforma unitária que combine suas necessidades mais imediatas – a luta contra as demissões, por um salário mínimo e pensões iguais à cesta básica de consumo, pelo respeito a seu direito de organizar-se sindicalmente e a exercer o direito à greve, etc. – com as demandas políticas do momento – investigação e prisão para todos/as os/as corruptos/as, confisco dos bens e contas bancárias doa/as condenados/as por corrupção, nacionalização das empresas corruptoras, dar um basta à entrega de nossos recursos às transnacionais e grandes empresas, e um longo etc.

Isto é, uma plataforma que aponte para impor uma agenda operária e popular para o país e, portanto, que jogue por terra não somente a agenda patronal, como seu primeiro fiador: Vizcarra, o gabinete Villanueva e o Congresso da corrupção.

Uma agenda que somente pode ser levada à prática por um governo das organizações operárias e populares. Um governo de tipo diferente. Onde as e os trabalhadores, irmanados pelos setores pobres e oprimidos do interior e do campo, sejamos os que definem o destino do país contra a máfia empresarial que hoje domina o Estado e se enche de riquezas às nossas custas.

Não há “refundação” possível. Não há “novo Peru”, nem “nova República”, se não for das mãos do poder da classe trabalhadora. E somente haverá poder da classe trabalhadora se sairmos a lutar pelo nosso até derrubar o “novo” governo.

Fonte: https://huelgageneralblog.wordpress.com/2018/04/03/el-nuevo-gobierno/

Tradução: Lilian Enck