COMPARTILHAR

Prisões, desaparições forçadas, torturas, assassinatos, exílio e expulsões das universidades é o castigo de Ortega contra estudantes de diversas universidades públicas.

Por: María Teresa

Um mês depois do dia 13 de julho, quando a Polícia Nacional e paramilitares atacaram a UNAN-Managua para desalojar os jovens entrincheirados nesta universidade e posteriormente a igreja Divina Misericórdia onde os estudantes se refugiaram para proteger suas vidas resistindo aproximadamente 15 horas sob o disparo de balas, as autoridades decidiram restabelecer as aulas. Isso gerou um descontentamento de estudantes não somente na UNAN-Managua, UNAN-Leon e demais universitários de todo o país, que impulsionavam marchas massivas contra o início das aulas em distintos campus de ensino superior público ou aquelas que se beneficiaram com o 6% dos investimentos geral da República.

Os universitários argumentam que não é possível assistir aulas em salas banhadas de sangue e afirmavam que o reinício das aulas se converterá em uma caça às bruxas; os jovens exigem respeito à autonomia universitária que até o momento continua sendo desrespeitada.

Durante os meses de outubro e novembro, as universidades UNI (Universidade Nacional de Engenharia) UNA (Universidade Nacional Agrária) e UPOLI (Universidade Politécnica da Nicarágua) reestabeleceram suas aulas tanto na modalidade a distância como presenciais. Durante os primeiros dias de aula, alguns jovens decidiram arriscar-se e comparecer às universidades com a esperança de continuar a luta pelo respeito à autonomia universitária, por mudanças de dirigentes da UNEN (União Nacional de Estudantes da Nicarágua) e contra os massacres que deixaram a comunidade universitária em luto.

Dentro dessas universidades a realidade é diferente e muitos universitários que se encontram hoje na clandestinidade tinham razão: a retomada das aulas resultou ser uma caça às bruxas conforme previsto. Somente na UNAN-Managua foram realizadas 82 expulsões de estudantes; existe um controle maior na entrada e saída dos universitários, contratação de cerca de 25 pessoas que controlam os banheiros masculinos e femininos, informam quem entra nos banheiros e carregam alguma coisa que, no seu entender, seja suspeito ou um indício de algum protesto.

Leia também:  Caravana migrante: a poderosa mobilização dos povos centro-americanos contra a barbárie capitalista

Nestas universidades foram realizados sequestros com a conivência da Polícia Nacional, com a cumplicidade das autoridades universitárias e dirigentes da UNEN, que apoiam o governo Ortega. Muitos dos e das estudantes que foram sequestrados, hoje em dia enfrentam julgamentos ilegais que não se respeitam o processo e são acusados de terroristas.

Parte da política absurda das autoridades universitárias é a demissão de docentes com uma larga trajetória e prestígio que são substituídos por dirigentes da UNEN: No caso da UPOLI, o primeiro dia de aula foi cercado pela presença por simpatizantes do governo, que foram nos arredores da universidade com bandeiras vermelhas e pretas para insultar e bater nos estudantes. Segundo moradores próximos da universidade, dentro haviam policiais uniformizados e alguns vestidos de civis. Nessa mesma universidade foram proibidas as reuniões com mais de três alunos.

Nas universidades onde estão os dirigentes da UNEN, os estudantes que se arriscam a assistir às aulas e que por algum motivo querem fazer mudanças de horário ou utilizar laboratórios necessitam pedir permissão para esses dirigentes.

Para Luís (que chamamos assim por motivos de segurança), estudante de biologia e que cursava o quinto ano, as universidades se converteram em centros ou sedes partidárias: “por todas as partes é possível encontrar imagens de Daniel e Chayo, e se um professor ou estudante se atreve a dizer alguma coisa contra o governo, é mandado ao conselho por estar afetado psicologicamente ou por qualquer outro motivo e são expulsos automaticamente”.

Todas essas ações do governo, das autoridades universitárias e dos membros da UNEN, afetaram a presença dos estudantes nas aulas, que em alguns casos é mínima, pois muitas passaram de 30 alunos a somente 5 e, no melhor dos casos, a 15. Atualmente, não existe segurança nem garantia de integridade física ou mesmo da vida dos universitários nicaraguenses.

Leia também:  Mulheres trans, prisioneiras políticas, denunciam violação de direitos na prisão da Nicarágua

Muitos jovens estudantes que se atreveram a levantar sua voz no dia 18 de abril e nos meses posteriores na Nicarágua, hoje estão nos cemitérios, presos, torturados, desaparecidos ou exilados. “Sem autonomia, ruas cheias, aulas vazias”, gritavam os universitários em diversas manifestações que hoje são criminalizadas na Nicarágua.

Tradução: Luana Bonfante