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O movimento de greves operárias, nesta cidade que faz fronteira com os Estados Unidos e que teve início em janeiro deste ano, está marcando um caminho para o resto da classe operária mexicana e mundial.

Por: CST-México

Surgido a partir das bases das fábricas maquiladoras de vários parques industriais, pressionou e passou por cima dos dirigentes sindicais da CTM (Confederação dos Trabalhadores Mexicanos), conquistando 20% de aumento salarial e um vale de 32 mil pesos, para a maior parte dos 90 mil operários e operárias que trabalham nesta cidade de cerca de 1 milhão de habitantes. O resultado dessa luta ganhou também um nome que já faz história: Movimento 20-32.

A patronal, seus agentes e seus governos, que ainda possuem as fábricas e dominam o município, o estado e o país – e controlam os meios de comunicação -, odeiam esse resultado e os seus protagonistas. Por isso ordenaram uma repressão ainda mais violenta, que causou uma morte e dezenas de feridos. E desde fevereiro iniciaram um ataque que têm um efeito social mais letal: demitiram quase cinco mil operárias e operários, entre os quais muitos estavam na vanguarda da greve, que representam a principal ameaça potencial para o burocratas sindicais e parte fundamental para a construção de um Novo Sindicato Independente em Matamoros, que defenda os operários e não as empresas.

O contra-ataque dos patrões e governos

O presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) simula –com muita dificuldade – não intervir nesse forte confronto de classe. Tenta parecer imparcial e à margem deste grave conflito que já se espalhou e segue contagiando todo o país. Mas o seu sigilo não foi suficiente para evitar que o Secretário Geral da Confederação dos Trabalhadores Mexicanos (CTM) e senador pelo PRI (Partido Revolucionário Institucional), o decrépito burocrata, Carlos Aceves Del Olmo, afirme que “A CTM seguirá adiante com a Quarta transformação”… e que explique dessa maneira sua relação com AMLO: “pelo tamanho da nossa organização, pela importância que têm a CTM, eu já mantive três contatos com ele que foi muito simpático” … e assegurou que:” o presidente López Obrador tem mais interesse em estabelecer um diálogo com a CTM que com outras organizações políticas”. (El Universal 24/02/19)[1].

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E, depois de uma reunião privada com AMLO, declarou publicamente que têm a tarefa de terminar, o quanto antes e de qualquer maneira, com as greves de Matamoros: “Há dois dias, estive conversando com o presidente López Port… López Mat… López Obrador… Desculpa, com o presidente López Obrador… É que quando alguém está acostumado com tantos anos de… Eu sou priísta[2]… dizia ao senhor presidente, amavelmente e estabelecemos vários compromissos que vamos cumprir… No restante desta semana e na próxima se acabou o problema de Matamoros, não pode mais acontecer esse tipo de ações”. (Milênio 14/03/19)

É evidente que com este “pedido presidencial” para a CTM, as patronais das 5 empresas que ainda mantinham a greve e o governador Francisco Javier García Cabeza de Vaca de Tamaulipas e a sua polícia entenderam que poderiam endurecer suas posturas e a repressão.

A primeira empresa que entendeu essa mensagem foi a Coca-Cola, cujos gerentes entraram na empresa com muita violência ferindo gravemente alguns operários grevistas e seus familiares. Ou a violência policial contra os piquetes nas fábricas Mecalux e Avances Científicos[3] teve como resultado operários feridos e alguns companheiros detidos, que mais tarde foram liberados graças a firme ação e tenaz resistência de centenas de operários e operárias, encabeçada pela advogada Susan Prieto.  Também utilizaram a tropa de choque contra o piquete dos operários da Flux Metals, que estão em greve desde 6 de fevereiro.

Nesse momento os operários tomaram a sábia decisão de recuar quando viram que havia 4 policiais para cada operário. A repressão patronal e policial se aproveita de um relativo refluxo das lutas, que não se deve ao fato de que os trabalhadores estejam derrotados nem ao esquecimento de todas as conquistas foram através da mobilização, mas sim pelo desgaste e cansaço depois de três meses! de duros combates de classe. Ninguém tem o direito de criticar ou menosprezar o conquistado.

 O movimento 20-32 segue construindo história

Apesar de que a conjuntura de luta é defensiva, o movimento está vivo e mantém com orgulho a sua independência política dos patrões, seus governos e seus partidos. O 20-32 é a vanguarda da luta operária de todo o país. Por isso frente às eleições para deputados de Tamaulipas, convocadas para o próximo 2 de junho, os milhares de operários de Matamoros repudiam energicamente todos os partidos do regime, incluindo o do presidente AMLO.

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E assim surgiu a iniciativa de não ficar somente no rechaço aos partidos dos patrões e seus candidatos, mas sim apresentar candidatos operários independentes para enfrentar a patronal também no terreno político. Ou seja, disputar a representação dos trabalhadores de do povo pobre, ainda que no terreno do inimigo, hostil aos operários, o terreno das instituições do estado da patronal.

Ainda que os prazos para registrar as candidaturas independentes já venceram, em assembleia realizada no domingo 7 de abril, essa iniciativa foi aprovada com entusiasmo. As palavras de ordem cantadas nesse momento e na manifestação posterior, em direção a Secretaria do Trabalho, falavam por si mesmas: Lutar, lutar até vencer! Lutar até levar operários ao poder!”

Enquanto, em alguns parques industriais ainda seguem mobilizados centenas de operários junto com moradores para enfrentar a repressão, nas fábricas já começaram a postular alguns candidatos. Ficou definido garantir a participação por igual tanto de operárias como de operários.

Os trabalhadores de Matamoros aprenderam muito através dessa dura experiência com as “instituições” podres do estado patronal. Por isso mesmo ninguém se surpreendeu que no dia seguinte a assembleia fosse colocado de manifesto o pânico do regime da 4T frente a este desafio da classe operária aos partidos burgueses e a sua “democracia” para ricos, com as suas regras eleitorais enganosas.

Urgido (?) pelo espanto o INE (Instituto Nacional Eleitoral) disse: “que descarta a opção de candidatos sem registro” e que “os candidatos do movimento 20-32 poderão registrar-se nas próximas eleições e somente por essa via”… O INE chegou a reconhecer que “os não registrados podem chegar a conseguir mais votos que todos os outros partidos, mas não valerá a representação que tenham”.

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E os jornalistas dos grandes meios de comunicação saíram “explicando” que essa tentativa dos operários “não tem validade”, porque já se acabaram os prazos e que se querem apresentar candidatos independentes, terão oportunidade nas próximas eleições.

Mas o que esses burocratas e charlatões não podem esconder nem alterar nessas eleições é que as atuais cédulas eleitorais já tem impresso – além dos candidatos de todos os partidos com registro – um espaço especial para escrever o nome dos candidatos não registrados.  Que dizer, por mais que tentem confundir os operários , dissuadi-los ou desmoralizá-los, não podem evitar que os candidatos operários “não registrados” do Movimentos 20-32 apareçam escritos nas cédulas dos votantes.

E não poderão evitar que esses votos sejam contados. Porque esses votos não são considerados nulos. E isso demonstrará que os trabalhadores repudiam os partidos do regime patronal e não votarão nos seus verdugos. E que a classe operária, os explorados e oprimidos repudiam essa falsa “democracia dos patrões”. E que podem ter sua própria e genuína representação política, diferente e oposta a dos seus exploradores e opressores.

O tempo dirá se essa experiência política independente da nossa classe ajuda a amadurecer, não somente a organização sindical, mas também a construção de um verdadeiro partido da classe operária que se desenvolva a nível nacional, de “Norte a Sul e de Leste a Oeste” que com o método da mobilização e da democracia operária concretize a verdadeira Transformação Social que o povo trabalhador do México necessita.

[1] https://www.eluniversal.com.mx/nacion/ctm-saldra-adelante-en-este-gobierno

[2] As palavras priismo y priista, se referem às ideias e aos seguidores do partido mexicano PRI (Partido Revolucionário Institucional)

[3] http://lafronteradice.com/sitio/violento-desalojo-en-mecalux/

Tradução: Luana Bonfante