COMPARTILHAR

Já são três semanas seguidas em que os manifestantes no México fazem bloqueios periódicos de um dos principais pontos para cruzar a fronteira entre este país e os Estados Unidos. O movimento contra o “Gasolinaço”, que começou com a ocupação popular de uma distribuidora de Rosarito, tomou dimensões nacionais com uma enorme força popular e ocupação de edifícios federais – incluindo a alfândega da fronteira. Este movimento está levando as pessoas para as ruas para lutar contra o governo de Peña Nieto.

Por: La Voz de los Trabajadores

O Gasolinaço, que se refere ao aumento de 20% no preço da gasolina implementado no início deste ano é o impacto direto da infame reforma energética implementada pelo governo de Peña Nieto, que garantiu a privatização da empresa estatal de petróleo e a posterior liberalização dos preços da gasolina.

Entrevistamos a companheira Rosa, da organização Raízes Sem Fronteiras, com sede em San Diego, que participou das manifestações:

O que tem acontecido na fronteira entre o México e os EUA desde que eclodiram as manifestações contra o Gasolinaço?

Rosa: Os estados fronteiriços se uniram às ações que começaram no centro do México, como passeatas, ocupações de repartições públicas, cabines de pedágio e postos de controle.

Rebelaram-se como um gigante adormecido que acorda diante dos repetidos golpes sofridos com aumentos que ultrapassam as possibilidades econômicas dos mexicanos. O número de pessoas que estão participando e as ações que estão ocorrendo não têm precedentes. Apenas em uma manifestação em Mexicali, capital da Baja California, havia mais de 40.000 pessoas e, no mesmo dia, em Tijuana, cerca de 20.000 tomaram as ruas. Dessas manifestações estão participando cidadãos de diferentes idades e classes sociais e têm sido totalmente apartidárias.

Leia também:  A Revolta da Purpurina Rosa: protestos feministas contra a violência institucional no México

Essas passeatas já foram realizadas pelo menos três vezes em janeiro deste ano. Na última, que aconteceu domingo, dia 22, o número de participantes não diminuiu.

Mas os fronteiriços não se limitam somente às passeatas. Em algumas cidades, como Mexicali e Tecate, eles ocuparam as repartições de cobrança de impostos. Em Rosarito, ocuparam a planta da PEMEX (Petróleos Mexicanos) por três dias. A desocupação teve que ser realizada à força pela polícia federal que veio da Cidade do México na noite de 07 de janeiro. Em Tijuana, desde 22 de janeiro o palácio do governo está ocupado. Nesta cidade, unificou-se com os protestos contra o Gasolinaço a exigência de revogar a lei sobre a privatização da água, que, diante do poder do povo, o prefeito Francisco Vega teve que recuar.

O golpe mais forte foi a ocupação e liberação dos postos de entrada dos Estados Unidos para o México, às vezes com 100 ou, como no dia 15 de janeiro em Tijuana, com milhares de pessoas. As portas de entrada são abertas para deixar os carros passarem sem submetê-los a nenhuma fiscalização, tudo isso diante das autoridades e do exército, que observam sem poder fazer nada. Diante disso, as autoridades norte-americanas interditaram a saída das estradas que vão para esse posto fronteiriço. As pessoas, graças aos meios de comunicação de massa, confundem esta ação culpando os manifestantes por serem impedidas de passar.

Quais são as principais reivindicações das pessoas que estão mobilizadas?

Rosa: O povo exige que seja revogado o aumento do preço da gasolina e exige a renúncia de Peña Nieto, já que é óbvio que tudo o que foi prometido com a reforma energética foram mentiras que não estão sendo cumpridas.

Leia também:  A Revolta da Purpurina Rosa: protestos feministas contra a violência institucional no México

A essas exigências se somam também, como já mencionei, reivindicações locais, como a da lei da água em Tijuana.

Quais setores impulsionam e organizam essas manifestações?

Rosa: A organização das manifestações está sendo feita por grupos de cidadãos e estudantes apartidários. Os caminhoneiros e taxistas tiveram forte presença nas manifestações em Tijuana. Nas passeatas, é possível ver desde donas de casa, às vezes fazendo barulho com panelas, estudantes, famílias com crianças, operários, professores, trabalhadores de colarinho branco e, certamente, membros de partidos políticos, mas que não levantam sua bandeira.

Quais são os próximos passos para desenvolver a mobilização em ambos os lados da fronteira?

Rosa: Por ser um movimento recente nos estados do norte do México, ainda carece de uma forma de organização propriamente dita. Seguindo os passos de movimentos do sul e do centro do país, estão sendo chamadas assembleias populares que são realizadas espontaneamente nas manifestações.

Eu posso falar sobre a fronteira Tijuana-San Diego porque é aqui que eu vivo, sou testemunha e estou participando das lutas fronteiriças. Em San Diego, após a eleição de Trump, estão se organizando coalizões de organizações de várias ideologias e orientações políticas, ainda que todas com tendências de esquerda.

Muitas pessoas que participam estão conscientes de que, ao estar nesta região, a fronteira se torna invisível. Todos sabem que a economia de ambas as cidades dependem muito uma da outra. Milhares de moradores de Tijuana trabalham e /ou fazem suas compras em San Diego. Participantes das coalizões que surgiram em San Diego falam de se unirem à luta do lado mexicano. Nós, mexicanos ou de ascendência mexicana, atravessamos a fronteira para participar das manifestações em Tijuana e, ao mesmo tempo, difundimos informações do que está acontecendo no México. É de nossa responsabilidade organizar uma aliança com nossos irmãos mexicanos.

Leia também:  A Revolta da Purpurina Rosa: protestos feministas contra a violência institucional no México

Tradução: Lena Souza