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Nesta semana, Miguel Díaz-Canel foi eleito pela Assembleia Nacional de Cuba como presidente do país para substituir Raúl Castro, com votação unânime dos 604 deputados. Foi uma votação quase protocolar: ele era o único postulante ao cargo, apoiado pelo Partido Comunista Cubano, no qual o se baseia o poder real no país.

Alejandro Iturbe

Uma vez que o movimento guerrilheiro liderado por Fidel Castro tomou o poder em 1º de Janeiro de 1959, Manuel Urrutia ocupou esse cargo durante 6 meses e, em seguida, Osvaldo Dorticos até 1976. Desde então, o presidente de Cuba sempre foi um Castro: primeiro Fidel e depois, seu irmão Raúl.

Quem é Miguel Díaz-Canel, figura internacionalmente desconhecida e até mesmo pouco conhecida em Cuba? Os dados concretos são: ele tem 57 anos, é engenheiro eletrônico e pais de dois filhos de seu primeiro casamento. Desenvolveu toda a sua carreira política como um quadro do Partido Comunista cubano. Foi o principal dirigente da juventude em sua província natal (Villa Clara) e, em 1994, ascendeu a primeiro secretário do PC provincial. Em 2003, foi nomeado para o mesmo cargo na província de Holguin, ao mesmo tempo em que era promovido a integrar o birô político nacional do partido, seu máximo organismo de direção. Em 2009, mudou-se para Havana para ocupar o cargo de Ministro da Educação Superior e, em 2013, foi eleito Vice-presidente do país pela Assembleia Nacional.

Díaz-Canel pertence a uma geração de quadros nascidos depois da revolução, alguns dos quais vem sendo preparados, durante muitos anos (até mesmo décadas), para realizar a indispensável e inevitável mudança geracional que o envelhecimento (e a morte) exige daqueles que intervieram diretamente nela.

Outros possíveis candidatos ficaram para trás, como o ex-ministro das Relações Exteriores, Roberto Robaina, Felipe Perez Roque e Carlos Lage, relegados pelo próprio Fidel com acusações como “deslealdade” ou “terem sido seduzidos pela doçura do poder”. Analistas acreditam que Díaz-Canel acabou sendo escolhido por causa da combinação entre sua fidelidade absoluta à família Castro e o perfil baixo e austero com o qual ele se manejou até agora.

Considera-se que o poder real que Díaz-Canel terá, embora não seja totalmente formal, será bastante restrito. Raúl Castro mantém a direção do PC cubano (pelo menos até 2021) e também uma influência hegemônica no Exército, outra das instituições centrais do regime de Castro. Além disso, seu filho, o coronel Alejandro Castro Espin, de 52 anos, é o presidente da Comissão de Defesa e Segurança Nacional, a agência que centraliza todos os serviços de inteligência.

De que transição estamos falando?

A maior parte da mídia ocidental define o contexto da situação cubana na qual Díaz-Canel assume como uma “transição” entre uma economia “socialista” e uma economia capitalista. Um processo de transformação que, até agora, estaria sendo realizada de forma lenta e cuidadosa (uma visão que, com nuances e diferenciações, é compartilhada pela maioria da esquerda mundial). Nesta abordagem da mídia e dos analistas do capitalismo, Diaz-Canel deverá ver como  resolve a contradição entre a “modernização” (capitalista) e “as conquistas da revolução”.

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Outra contradição importante seria a que existe entre o “livre desenvolvimento” (capitalista) da economia e o regime fechado construído pelos irmãos Castro.

Nós não concordamos com essa visão. Como destacamos em numerosos artigos publicados nesta página e em outras publicações da LIT-QI, consideramos que o capitalismo foi restaurado em Cuba pelo próprio regime de Castro, desde os anos 90 (1). Um processo que foi aproveitado por vários países imperialistas europeus (especialmente Espanha) e Canadá, que foram ganhando um peso crescente na economia da ilha.

Nesse contexto, a família Castro e os membros do aparato mais ligados a eles foram se transformando em uma burguesia menor, associada a esses negócios e desenvolvendo outros próprios. Por exemplo, a venda da maioria das ações da histórica fábrica e da marca de rum Havana Club para a grande empresa francesa Pernod Ricard, por 50 milhões de dólares. A família Castro tem inúmeras mansões no país, incluindo a ilha particular de Cayo Piedra, que têm acesso por meio de um iate de luxo. Estes são dados de domínio público, mas estima-se que a fortuna global de Castro seja muito maior, distribuída e “escondida” por toda a ilha (possivelmente também no exterior).

Esses benefícios da participação nos negócios se ampliam aos altos quadros do aparato do regime e em outros escalões menores. Sobretudo, através do controle que o Exército tem do importante conglomerado de empresas estatais e que beneficia os quadros militares. Por exemplo, a empresa Cimex, que administra construções, imóveis e cadeias de lojas, ou Medicuba, que vende medicamentos e serviços médicos.

O estado operário cubano já não existe mais. Como resultado da restauração capitalista, as grandes conquistas obtidas com a revolução (como avanços na saúde, educação e alimentação) foram perdidas ou estão sendo perdidas. Velhos flagelos que tinham diminuído muito, como a prostituição, estão aumentando novamente. A desigualdade social e salarial e a pobreza estão se expandindo cada vez mais. Vários romances do conhecido escritor cubano Leonardo Padura refletem essa realidade. Mas quem viajou para Cuba e saiu da área privilegiada e protegida dos hotéis da rede espanhola Meliá pôde verificar diretamente essa degradação.

Portanto, quando Raúl Castro fala em “defender as conquistas da revolução” (e a imprensa ocidental faz eco dessas palavras), ele não se refere às que acabamos de descrever e que, há décadas, os governos cubanos atacam e deterioram. . O que ele diz, na realidade, é que ele quer defender seus privilégios e os do aparato castrista. Miguel Díaz-Canel é o homem escolhido para ajudá-lo nessa tarefa e para mantê-la após sua morte.

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A política do imperialismo ianque

Vimos que, até agora, os grandes beneficiários da restauração capitalista em Cuba foram vários países imperialistas europeus e o Canadá. Por seu lado, a burguesia imperialista dos EUA está perdendo grandes “oportunidades de negócios” por causa das leis votadas contra Cuba, na década de 1960, após a revolução.

Obama procurou mudar esta situação: ele se reuniu várias vezes com Raul Castro (uma delas foi em sua visita à ilha), retomou as relações diplomáticas entre os dois países e se comprometeu a impulsionar a anulação de leis que restringiam o comércio bilateral e impediam os investimentos dos EUA em Cuba. Em seu discurso, estabelecia as diretrizes do relacionamento: deixem-nos fazer bons negócios aqui e não questionaremos o regime castrista nem pediremos uma “abertura”.

Era uma ruptura com as reivindicações históricas da burguesia cubana “gusana” radicada em Miami: a restituição dos bens expropriados pela revolução (como questão central) e a derrubada do regime dos Castro. Com essa política, Obama chegou a dividir essa burguesia: em sua viagem a Cuba, ele foi acompanhado por Mark Rubio, um senador republicano de Miami (de origem cubana).

Donald Trump está mudando essa política de Obama e anunciou que recuará dos acordos que seu antecessor, como presidente, estabeleceu com Raúl Castro. É muito possível que reflita a pressão e suas conexões com a ala mais recalcitrante dos “gusanos”, junto com sua necessidade de mostrar um perfil “duro”. Mas, como em muitas outras questões, suas intenções de “endurecer” sua política se chocam com os processos profundos da realidade. Então, sua política é oscilante e / ou permanece no “meio do caminho”. Neste caso, é possível que não impulsione a revogação das leis dos anos 60, mas, ao mesmo tempo, faça vista grossa aos investimentos norte-americanos dirigidos a Cuba (talvez camuflados como “canadenses” ou “europeus”). Sabe-se também que o FMI e o Banco Mundial concederão créditos a Cuba para “subsidiar a modernização” e que o governo Trump não se oporá a isso.

Finalmente, sobre o regime de Castro

Em um dos materiais anteriores, aos quais já nos referimos, analisamos o regime construído por Castro ao longo dessas quase cinco décadas:

“Como já dissemos, mesmo no período de existência do Estado operário cubano, os Castro e o PC cubano construíram um regime burocrático e repressivo que impedia qualquer tipo de liberdades democráticas para os trabalhadores e as massas. Mas, durante todos esses anos, esse regime defendia as bases sociais do Estado operário. Mais tarde, foi esse mesmo regime que restaurou o capitalismo no país e que está garantindo o processo de penetração imperialista. Como já dissemos uma nova burguesia associada aos investimentos imperialistas tem se formado em torno da cúpula castrista. A conclusão, então, é que agora o regime dos irmãos Castro é uma ditadura ou um governo totalitário num país capitalista, ao serviço da colonização econômica do país”.

Haverá alguma “abertura” (mesmo que “controlada”) deste regime após a ascensão de Díaz-Canel? Tudo indica que não, que a política de Raul Castro e do aparato castrista é aprofundar a penetração imperialista, mantendo o controle absoluto da vida e a superestrutura política do país.

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Além disso, em diversos meios de comunicação, foram difundidos dois vídeos de Diaz-Canel. Em um deles, em uma reunião com ativistas cubanos de direitos humanos, se dirige a eles exigindo que cessem as suas atividades, especialmente a propagação de suas reivindicações pelas redes. No outro, em uma reunião de quadros do partido, ele coloca suas reservas sobre se o objetivo de Obama nas negociações com Raul Castro não era “destruir a revolução”.

Há um aspecto, que sim, poderia dar uma concessão moderada: a ampliação do acesso à Internet no país (atualmente disponível para cerca de 5% dos cubanos, de acordo com um relatório da ONU de 2016). Segundo Diaz-Canel: “Proibir seria um engano impossível que não faz sentido”. Na realidade, suas palavras parecem mais uma aceitação resignada de uma tendência objetiva do que uma concessão.

Os trabalhadores e o povo cubano devem lutar por liberdades democráticas e por se livrar do regime dos Castro. Mas essas liberdades não virão das mãos do imperialismo, que em última análise prefere operar através do regime dos Castro e negociar com ele. Menos ainda virá dos “contrarrevolucionários” de Miami, expulsos com a revolução de 1959. A luta deve estar intimamente ligada à construção de um novo Estado operário cubano e, com isso, a recuperação das conquistas que foram perdidas ou estão se perdendo. Nesta tarefa, o regime castrista (incluindo Diaz-Canel) é o inimigo imediato a combater.

Nota Os dados neste artigo são tomadas a partir de: https://www.nytimes.com/es/2018/04/17/opinion-sabatini-cuba-castro-canel/?em_pos=small&emc=edit_bn_20180418&nl=boletin&nl_art=0&nlid=75245102emc % 3Dedit_bn_20180418 & ref = headline & te = 1

http://subscriber.telegraph.co.uk/news/2018/04/15/will-cubas-next-president-whenraul-castro-steps/

www.diariodobrasil.org

https://www.lanacion.com.ar/2126694-la-dinastia-castro-con-futuro-asegurado-dentro-del-regimen

(1) Ver, por exemplo: https://litci.org/es/menu/mundo/latinoamerica/cuba/sobre-la-visita-de-obama-a-cuba/

Tradução: Lena Souza