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No dia 26 de setembro, na cidade de Cartagena de Indias, será realizada a cerimônia de assinatura final dos acordos de paz entre a guerrilha das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o governo comandado pelo presidente Juan Manuel Santos.

O encontro contará com a presença de mandatários de países de todo o mundo, começando por Barack Obama, representante do imperialismo norte-americano; o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy; o presidente de Cuba, Raúl Castro – convidado especial -; o secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon; e certamente um alto representante da União Europeia.

O imperialismo e a burguesia marcam mais um ponto

É necessário questionar por que o imperialismo e a burguesia deram tanta importância e fizeram tantos esforços por esses acordos de paz na Colômbia, e por que a imprensa mundial se encarregou de mostrá-los em sintonia com uma grande satisfação das pessoas comuns. As pesquisas indicam que o SIM no plebiscito sobre os acordos, programado para 2 de outubro, vence por ampla maioria. Com isso, os jornalistas “vendidos” afirmam que o governo de Santos, assim como Obama e os Castro, todos juntos estão interpretando o clamor do povo colombiano. O próprio presidente Juan Manuel Santos disse: “Talvez seja o anúncio mais importante que eu tenha feito na minha vida“.

Não podemos nos enganar. Para o povo, os trabalhadores, a classe operária e os camponeses pobres, os acordos são apenas a possibilidade de parar um conflito entre aparatos, no qual são eles que foram mortos, desaparecidos e expulsos de suas terras. Para o imperialismo e para um grande setor da burguesia colombiana e, obviamente, dos países vizinhos, significa uma grande satisfação colocar um fim, pela via da incorporação das FARC ao regime político burguês, à guerrilha mais antiga do continente, que protagonizou uma guerra contra o regime político colombiano durante 52 anos. Uma guerra pequena, como dizia Leon Trotsky sobre a guerra de guerrilhas, porque a grande, a guerra civil, nunca foi o objetivo das FARC. E porque também não conseguiram se conectar com a luta de classes nem ter o apoio popular, camponês e operário. As FARC foram perdendo esse apoio na medida em que adotavam cada vez mais os métodos típicos do terrorismo individual e se afastavam dos interesses populares.

O imperialismo comemora porque finalmente sua política de “garrote e cenoura” rendeu frutos. Tentou derrotar a guerrilha várias vezes pela via militar, desferiu-lhe fortes golpes neste terreno, eliminou a União Patriótica, sua expressão legal durante uma tentativa de negociações de paz no governo de Belisario Betancur, em meados da década de 1980, tudo com o objetivo de levá-la à mesa de negociação para selar sua rendição, como conseguiu, no final da década de 1980, com as guerrilhas centro-americanas mediante os acordos de Esquipulas e Contadora. Também conseguiu com outras guerrilhas menores, como o EPL (Exército Popular de Libertação) e o M-19 (Movimento 19 de Abril) no início da década de 1990 na Colômbia. Hoje, o M-19 é mostrado como exemplo de sua decisão de se incorporar ao regime, porque não desistiu de fazê-lo apesar do assassinato do seu candidato presidencial, Carlos Pizarro Leongómez, e vários outros dirigentes, pouco tempo depois de assinar a paz em 1991, em sua primeira participação eleitoral, já desmobilizados. É o mesmo que pedem hoje às FARC diante do risco de que alguns grupos paramilitares assassinem um ou vários de seus dirigentes uma vez que os acordos estejam firmados. As FARC estão dispostas a isso.

Para o imperialismo, significa eliminar uma fonte de instabilidade, um obstáculo que impedia a entrada livre de suas multinacionais nos territórios controlados pela guerrilha para instalar suas empresas de agronegócios, que impedia seu total controle sobre a produção e exportação de coca e que também era fonte de instabilidade regional, devido à sua localização estratégica como parte do “quintal” do imperialismo norte-americano. Para o imperialismo, para a burguesia, os latifundiários e pecuaristas, é um grande avanço, porque sempre tiveram o temor de que a guerra pequena se transformasse na guerra grande, que se espalhasse como pólvora por uma região que sempre submeteram aos seus planos de miséria, fome e repressão.

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Politicamente, preencheram páginas e páginas mostrando a “grandeza” da restrita democracia burguesa, de sua ditadura de classe, elogiando a possibilidade de que os ódios dessem lugar aos votos, e que eles levarão seus antigos inimigos aos palácios e aos parlamentos e, por que não, até o posto presidencial, mostrando os exemplos de Nicarágua, El Salvador, África do Sul, Brasil e da própria Colômbia com os ex-guerrilheiros do M-19 e do EPL. Com isso, continuarão enganando o povo trabalhador, enquanto fortalecem seus exércitos e aplicam os planos para jogar sobre os ombros da classe operária e dos trabalhadores sua profunda crise econômica mundial. Santos já anunciou, ao mesmo tempo em que se vangloria de seu triunfo, que aplicará uma “reforma” tributária e fortalecerá o odiado Esquadrão Móvel Antidistúrbios, ESMAD (tropa de choque conhecida popularmente como os “robocops”), porque os trabalhadores não pagam somente pela guerra, mas também pela paz.

O grande ganhador dos acordos de Havana é o imperialismo, que idealizou o Plano Colômbia, que investiu recursos, assessores e armamento, e hoje se prepara para cobrar a fatura com os famosos planos de investimento para o pós-conflito, com os quais as suas multinacionais se beneficiarão com a diminuição de impostos, a liberdade absoluta para investir seus capitais, saquear as riquezas e multiplicar a obtenção de lucros.

A batalha mais importante das FARC?

Não é estranho que a direção das FARC apresente a assinatura dos acordos como “a mais importante de suas batalhas“, assim como Raúl Castro apresentou o reestabelecimento das relações com o governo norte-americano como um “grande triunfo da revolução“. No fim das contas, os dois vêm do mesmo tronco: o stalinismo. Também não é gratuito que o cenário das negociações fosse Havana. A escola stalinista treinou-os muito bem. Todas as suas capitulações e traições são sempre apresentadas como grandes vitórias. A verdade é que os Castro, apoiados no prestígio ganho pela revolução cubana, restauraram o capitalismo no seu país de maneira silenciosa. E reestabeleceram relações, não apenas diplomáticas como também comerciais e de todo tipo, com sua velha inimiga, a burguesia imperialista ianque, porque têm o interesse comum de impulsionar o desenvolvimento capitalista, agora como bons sócios. E essa é uma das razões, a fundamental, para que as FARC finalmente assinassem um acordo que é simplesmente sua incorporação ao regime burguês.

Na segunda metade da década de 1980, as FARC chegaram a uma encruzilhada devido a uma série de fatores. As declarações de Fidel Castro diante da revolução nicaraguense, de que a “Nicarágua não será uma nova Cuba“, eram uma mensagem para a burguesia e o imperialismo no sentido de que nem a burocracia cubana nem a da URSS apoiariam um processo de expropriação dos capitalistas nicaraguenses. Ou seja, não iriam a um programa de expropriação como o que tiveram que aplicar em Cuba, pressionados pela mobilização das massas e pela política imperialista. As FARC também entenderam a mensagem. Daí em diante, o aparato stalinista apoiaria todos os processos de paz negociados e a reincorporação das organizações guerrilheiras à “vida civil”. A partir daí, seu programa democrático revolucionário, em especial a luta pela terra, mudou radicalmente. As negociações de paz durante o governo de Belisario não prosperaram porque um setor da burguesia colombiana e de pecuaristas, apoiando-se nos grupos paramilitares, utilizados também por várias multinacionais, desataram um violento massacre seletivo e sistemático. O massacre não foi apenas contra a União Patriótica, mas também contra a vanguarda operária e sindical que se radicalizava nas lutas e nas greves, obrigando as FARC e o ELN (Exército de Libertação Nacional) a se entrincheirarem e responderem militarmente aos ataques. A restauração do capitalismo nos chamados países do “socialismo real” terminaria por consolidar sua contradição.

Com a perda do apoio político e econômico da URSS e de Cuba, tornava-se insustentável manter um exército de milhares de combatentes. A direção das FARC começou um processo irreversível de busca de recursos, utilizando cada vez mais os métodos do sequestro e da extorsão, não só com latifundiários e pecuaristas, mas também com camponeses médios e outros setores pobres da população. Ao mesmo tempo, avançavam primeiro como protetores dos plantadores de coca e, depois, como membros do negócio de sua produção e comercialização, fazendo parte da economia subterrânea que se transformava em outra fonte de distorção das lutas operárias e populares e que, junto com sua estratégia de aparato armado, justificavam a repressão violenta de um regime antidemocrático e assassino. Esses métodos de financiamento foram degradando-os e isolando-os politicamente da população. A burguesia e o imperialismo souberam explorar politicamente essa degradação da guerrilha e aproveitaram para aprofundar sua perda crescente de apoio camponês e popular, montaram os grupos de exércitos mercenários, paramilitares, para se desfazer não apenas de guerrilheiros, mas também de lutadores operários incômodos, de dirigentes camponeses, de ativistas, organizando uma das maiores espoliações de terras, provocando um deslocamento interno que chega a mais de seis milhões de pessoas, o segundo país em refugiados internos depois da Síria, que está em guerra aberta e declarada. O Centro Nacional de Memória Histórica informa que houve 220 mil mortos durante os anos de confronto – esclarecendo que o dado é ainda conservador – e 162 mil desaparecidos, além das mais de 300 mil ameaças, devido às quais muitos tiveram que deixar o país.

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Está claro que a estratégia da guerrilha demonstrou seu total fracasso, um fracasso que a classe operária, os trabalhadores e os camponeses pobres tiveram que pagar com sangue e fogo. Os socialistas sempre combateram politicamente a estratégia guerrilheira. Nosso dirigente trotskista Nahuel Moreno dizia: “Se são as massas que fazem as revoluções, todo discurso, propagandístico ou prático (por meio de ações), de que uma ínfima minoria de guerrilheiros é a encarregada de fazer a revolução é um fator de profunda desmobilização do movimento de massas, vai contra a revolução. Pior ainda se utilizam a classe operária, se intervêm nela, como fornecedora de combatentes, tirando da classe (e enviando para a morte) valiosíssimos ativistas e lutadores e debilitando, assim, a organização da classe operária“. Hoje, as FARC e seu movimento político legal abandonam definitivamente a luta pela terra e contra o regime antidemocrático, e adotam um novo programa: o dos acordos de paz de Havana. Isso é o que se comprometeram a defender e pelo qual estão dispostos a sacrificar mais vidas ainda. Porque, enquanto eles se desmobilizam, os grupos de assassinos pagos não fazem isso, e já na reta final do processo continuaram ameaçando, cometendo atentados e assassinatos. Desde 2012 até março de 2016, assassinaram mais de 112 ativistas da Marcha Patriótica, movimento influenciado politicamente pelas FARC.

Veremos mais um movimento igual aos que vimos em vários países do mundo. Movimentos eleitorais que trocaram as balas pelos votos e que defendem a democracia burguesa na medida em que possam desfrutar de seus benefícios, dos privilégios para poucos à custa da fome, da opressão e da miséria para a imensa maioria, incluídas aí suas próprias bases. Não podem dizer que este novo programa é revolucionário, porque isso significa continuar mentindo para a classe operária e para os trabalhadores do campo e da cidade. Isso seria como dizer que Santos e Obama também são revolucionários. As FARC assinaram acordos com alguns atrativos para enganar, mas, em essência, é o programa de um setor majoritário da burguesia colombiana e do imperialismo. É o programa de defesa da propriedade privada e não o da expropriação da revolução cubana de 1959, já enterrada pelos Castro. A grande maioria das organizações de esquerda que apoiam esse programa da reconciliação está deixando claro que abandonou a revolução, que em um passado muito distante já defendeu. Ao apoiar os acordos de paz e chamar o voto em Santos primeiro e, agora, pelo SIM no plebiscito, estão adotando esse mesmo programa. Continuaremos combatendo politicamente, como fizemos antes com sua estratégia guerrilheira, o programa que hoje apresentam às massas de “radicalizar a democracia”… burguesa. Continuaremos levantando, ainda com mais força, o programa da revolução socialista mundial, como uma necessidade imprescindível da classe operária e seus aliados: as massas empobrecidas e humilhadas, segregadas e exploradas.

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A classe operária e os trabalhadores não terão paz

O ciclo da exploração capitalista continuará, ainda maior devido à crise econômica mundial. É uma lei de ferro: para que os empresários superem a crise, têm que aumentar a superexploração da classe operária da cidade e do campo, descarregando sobre seus ombros os planos que o FMI exige em todo o mundo. Mais planos de ajuste, corte de gastos do Estado, reformas tributárias, desemprego. A embriaguez da paz vai se enfrentar com esta realidade. Agora, abre-se a possibilidade de que a Colômbia entre na dinâmica da luta de classes de toda a América do Sul, que levou a greves gerais, revoluções e mudanças de governos e regimes, livre da camisa de força da guerra de aparatos, porque o certo é que já não será igual.

Nós, socialistas, apostamos nessa perspectiva. Esperamos que a luta operária se coloque no centro, que os trabalhadores retomem seus métodos de luta massiva, que tomem em suas mãos a direção de suas lutas e de sua organização, que os setores populares se levantem contra suas execráveis condições políticas e sociais, que o movimento indígena se levante por seus direitos, que as mulheres vítimas de tantos abusos e humilhações continuem exigindo justiça e reparação, junto com os milhares de vítimas do conflito e os camponeses expulsos de suas terras. Confiamos na luta dos explorados e dos oprimidos, na luta de classes, e não no programa que os novos movimentos políticos estão apostando: unidade com os de cima, reformismo sem reformas. Porque a luta de massas organizada, sem messias que a substitua, abrirá a possibilidade para que o partido revolucionário, o que aposta na classe operária, o internacionalista, transforme-se, no tempo devido, em uma alternativa de direção para conseguir a verdadeira paz, a que os trabalhadores merecem, uma sociedade sem exploração e sem opressão de nenhum tipo. A essa construção, a essa luta e por essa alternativa chamamos todos os ativistas que honesta, mas equivocadamente acreditaram na guerrilha, que agora capitula à democracia burguesa e ao regime autoritário, negociando com a burguesia corrupta pró-imperialista que saqueou a riqueza do país e reprimiu com fúria a luta dos explorados e oprimidos.

Por isso, no dia 2 de outubro, chamamos junto com o Partido Socialista dos Trabalhadores da Colômbia (PST), nossa seção nacional, a não votar nem no SIM de Santos nem no NÃO de Uribe no plebiscito para referendar os acordos de paz. A disjuntiva não é entre o apoio a uma ou outra das facções burguesas, a “belicista” de Uribe ou a “democrática” de Santos. As FARC declaram que, mesmo que vença o NÃO, eles não voltarão às armas e honrarão os acordos. A disjuntiva é, então, entre o apoio aos planos burgueses e imperialistas pós-conflito ou declarar guerra à guerra social para a qual Santos se prepara contra a classe operária, os camponeses pobres, os indígenas e todos os explorados. Por isso, chamamos todos a escrever na cédula: por uma Constituinte ampla, livre, democrática e soberana, que discuta o programa pós-conflito dos de baixo, dos excluídos de sempre.

Secretariado Internacional da LIT-QI

Tradução: Raquel Polla