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O anúncio do rearmamento de um grupo de comandantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), encabeçados por Iván Márquez e Jesús Santrich, gerou diversas opiniões ante ao futuro do acordo de paz. Enquanto que a esquerda e os setores alternativos expressam uma crise do processo de paz e o regresso aos tempos de guerra, o uribismo aproveita para anunciar sua reforma nos acordos. Porém nem um nem outro, o certo é que – com ou sem acordo – o Estado não parou sua guerra contra os lutadores sociais. E por enquanto terá que esperar para ver o que acontece com as Novas FARC, pois o anúncio de uma guerra com uma possível aliança com as dissidências de Gentil Duarte e o Exército de Libertação Nacional (ELN), parece até agora mais uma proposta que uma realidade.

Por: Comitê Executivo PST – Colômbia

Iván Márquez, Jesús Santrich, El Paisa, Romaña e uma vintena de guerrilheiros anunciaram dia 29 de agosto passado, seu retorno às armas como resultado da traição dos acordos por parte do Estado. Posteriormente aparece um segundo vídeo no qual Santrich pede uma assembleia nacional constituinte como requisito de uma nova negociação.

Em ambas declarações anunciam o mesmo programa de conciliação de classes que as FARC defendeu desde sua fundação. E apresentam uma nova forma de fazer a guerra sem confrontação ofensiva contra policiais e militares, sem sequestros, sem extorsões, com contribuições de latifundiários e industriais através do diálogo e com cobranças extorsivas somente para a “economia ilegal”.

Por sua vez, Timochenko responde que este é um anúncio delirante e que, embora o Estado não tenha cumprido os acordos, devem persistir na implementação, apesar dos quase 200 ex-combatentes assassinados, além de pedir que os dissidentes sejam reprimidos. Timochenko sustenta que “estes senhores escolheram seu caminho, que lhes tira os benefícios que nós temos”.

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O Partido Socialista dos Trabalhadores já manifestou que o problema das FARC não está na posse ou não de armas, e sim em seu programa político de conciliação de classes, de alianças com setores burgueses democráticos para conseguir reformas no regime. Com este programa levantaram-se em armas há meio século e com este programa Iván Márquez anuncia seu retorno às armas, persistindo no erro.

Também manifestamos que os acordos de Havana não significam um avanço nos direitos políticos, econômicos e sociais da população, portanto, o programa de luta não deveria ser a defesa dos acordos e sim um programa de luta, em particular a reforma agrária e a exigência de maiores liberdades democráticas para os trabalhadores e os pobres do campo e da cidade.

Ao contrario, para as bases guerrilheiras, os simpatizantes e militantes das FARC não há saída em nenhum dos setores: nem no rearmamento de Iván Márquez nem na entrega de Timochenko. Sua definição não pode ser entre um partido que se incorpora ao regime entregando qualquer aspiração de luta para além da implementação dos acordos ou uma guerrilha que quer reunir sob um comando unificado dissidências e o ELN com o objetivo de lutar pelo mesmo programa, desta vez com um improvável financiamento de setores burgueses a partir do diálogo.

O Governo de Duque encurralou a militância das FARC, continuou não cumprindo e ameaça fazer reformas que restrinjam ainda mais os direitos dos ex-combatentes. Manifestamos que, apesar de não termos consonância com o acordo feito em La Habana, somos contra que se tente cortar o pouco espaço político e jurídico que obtiveram. Mas a esquerda e os movimentos sociais a favor da paz erraram o caminho para enfrentar as iniciativas do uribismo, chamando a se envolver com as instituições, a respaldar a Jurisdição Especial de Paz (JEP) e a sustentar que a guerra volte quando a guerra contra a classe trabalhadora e os pobres nunca parou.

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Um programa de luta contra os planos do governo de Duque, contra as anunciadas reformas da previdência e trabalhista, contra as medidas que pretendem que seja a classe trabalhadora que pague a crise econômica que se avizinha, contra o desemprego, é a melhor forma de enfrentar este governo para que pare o massacre de lutadores sociais e ex-combatentes das FARC. Nisso deveria estar a militância desta guerrilha e não se juntar aos tambores de guerra que Márquez anuncia nem colocarem-se de joelhos ante o regime, como Timochenko.

Tradução: Lilian Enck