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A série de fatos com que essa semana finalizou, desatou uma “crise política” destas que a grande burguesia nacional já nos acostumou, cada vez que se vê obrigada a tapar um escândalo com outro para proteger seus altos representantes, ou quando precisa lançar um novo plano político e econômico contra os trabalhadores.

por PST Colômbia

Conhecida a negativa da JEP ( Jurisdição Especial para a Paz)  para a extradição de Jesús Santrich, a ordem de libertação, ordenada por um juiz com o recurso do Habeas Corpus interposto por seus advogados e as teatrais renúncias do Procurador Martínez, da vice-procuradora e da Ministra de Justiça, recebemos uma avalanche de declarações, propostas e medidas, cada uma mais antidemocráticas que a outra, de parte de diferentes setores políticos da direita nacional e imperialista. Todos sem exceção proclamaram uma “crise institucional”. Os uribistas, do Centro Democrático, propuseram a convocatória de uma Constituinte e os santistas, famintos, clamaram por um “acordo nacional”.

Os grandes meios de comunicação, fazendo eco às declarações dos dirigentes burgueses, repetem como papagaios que esta crise foi causada pela decisão da JEP. Na verdade, o escândalo ao redor de Jesús Santrich e a crise do processo de paz, personificada na crise entre o governo, a ultradireita e a JEP, são expressão de uma situação mais estrutural: a necessidade da burguesia de aplicar as medidas que ponham a classe trabalhadora para pagar a crise econômica e ocultar a tragédia dos assassinatos de líderes sociais, ex combatentes e civis, como revelou o The New York Times no fim de semana.

Como aconteceu com a aprovação a toque de caixa do Plano Nacional de Desenvolvimento, em que Uribistas e Santistas se unificaram contra a classe operária e os setores populares, Ivan Duque convoca agora a um “pacto nacional” que permita modificações de acordo e a extradição de Santrich, com a finalidade de cumprir o mandato imposto pelos Estados Unidos. Pois o que fica mais claro de toda essa “crise” é que Iván Duque mais que um garoto de recado de Uribe, é um empregado de Trump, e que seu governo é considerado pelos Yanquis uma agência da DEA. As declarações de Trump sobre o pobre desempenho de Duque na luta contra as drogas, a grosseira intervenção do embaixador Withaker no trâmite das objeções do acordo de paz e a suspensão do visto a altos magistrados das cortes, dão testemunho da forma em que o imperialismo vê a seu “aliado estratégico”.

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Todo o espetáculo da “crise” é uma grande manobra. A burguesia e o procurador se desvencilharam de um importante problema, a deslegitimação da Procuradoria, pois Nestor Humberto Martinez havia perdido credibilidade por suas implicações em diversos casos de corrupção relacionados com a Odebrecht e o chamado Cartel de Toga. Martinez deveria comparecer no próximo 23 de maio na Corte Suprema de Justiça pela propina do Odebrecht a funcionários de Corficolombiana, empresa do Grupo de Aval de Luis Carlos Sarmiento Angulo à que pertencia o agora ex fiscal, e que implicava ele na adjudicação fraudulenta de licitações de grandes obras públicas, com o agravante de que várias testemunhas diretas morreram envenenadas com cianuro.

De igual forma, essa “crise” é aproveitada pelo governo para começar ajustar a sua própria equipe, precipitando a renúncia da Ministra da Justiça, que não só tinha fracassado na parte da agenda legislativa sob seu cargo quanto também guardou silêncio frente às objeções à JEP.

Por sua vez, a estrutura da justiça transicional aproveita pra e desfazer, pela porta de trás, do caso Santrich, tentando recuperar a credibilidade e legitimidade que tanto custou adquirir pelos ataques do Uribismo e do imperialismo. Dessa forma, a farsa da liberação de santrich e sua posterior re-captura unificaram os partidos burgueses e as instituições, que frente à opinião nacional aparecem divididas.

Iván Duque está convocando um “pacto nacional” para modificar os acordos, pacto ao que inclusive setores chamados “alternativos” consideraram acudir. Sergio Fajardo, candidato do Polo Democrático e o Partido Verde nas eleições passadas, manifestou nas redes sociais que (posto que) “em todos os setores tem pessoas razoáveis e responsáveis, o presidente deve convocar elas para construir alternativas que nos permitam avançar no único caminho que leva a nos unir: a reconciliação”. O ex fiscal manifestou, em entrevista com El Tiempo – jornal que chama, no seu editorial, a um pacto naciona urgente – que há uns meses está trabalhando em um acordo nacional e que “quem aceitou avançar nesses diálogos foi Julián Gallo, conhecido como Carlos Antonio Lozada, das FARC, e que ele manifestou que apoia essa iniciativa aos fins de poder avançar na paz e fechar tanta fratura que hoje temos na Colômbia sobre esse tema”.

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Além da renúncia fiscal, não podemos perder de vista que o acordo de paz com as FARC e a JEP viraram um ponto de tensão entre os partidos do regime. O Centro Democrático  o Partido Conservador estão alinhados contra o acordo e a justiça transicional, apesar que a mesma garante a impunidade dos militares e financiadores do para-militarismo, porque implica contar um mínimo da verdade sobre a desapropriação de terras, o nexo com o narcotráfico e a perpetração de massacres contra os líderes da [luta pela] recuperação de terras expropriadas pela burguesia e os terratenentes. Desde seu cantinho, o Partido Liberal, o Partido de la U, e o Cambio Radical defendem, por conveniência, os acordos e a justiça transicional que garantem a possibilidade de se inserir nos negócios transnacionais.

Para a burguesia a conjuntura não está fácil. O crescimento econômico desacelerou, o déficit comercial cresceu, o preço do petróleo estancou, o desemprego está acima dos 10% e os níveis de pobreza e desigualdade aumentaram. Além disso as reservas de gás e petróleo estão a 5 anos de esgotar-se, com o agravante de que um fracasso na intervenção política e militar na Venezuela para tirar Maduro fará com que perca a possibilidade de participar na divisão imediata dos recursos do país vizinho.

Não obstante, no meio dessa situação, conseguiram aprovar de comum acordo o Plano nacionald e Desenvolvimento, com o que pretendem descarregar a crise sobre a classe trabalhadora, em troca de uma nova repartição da chamada “ marmelada” : Burocracias e contratos para os partidos. Os 60% de desaprovação com que a população castiga o governo Duque, o obrigou a se apoiar no conjunto da burguesia para poder mostrar resultados à base Uribistas, que o elegeu e que estão dispostas a sacrificar direitos sociais em troca de “vencer” os desmobilizados das Farc.

Nesse marco que se explica a importância que o conjunto da burguesia e o reformismo dão ao caso Santrich, pressionados pelo governo de Trump, que classificou o governo colombiano como inepto, e o acusa de não fazer nada para diminuir os hectares de cultivo de coca, a pesar de que Martha Lucía Ramírez e o próprio Duque fizeram mais de dez visitas aos Estados Unidos em nove meses de governo.

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Os trabalhadores não podem negar que esta situação é em boa medida responsabilidade das próprias Farc. Os imcumprimentos  por parte do governo do central dos acordos e da centena de ex combatentes assassinados desde sua assinatura, são produto da forma burocrática com que sua direção negociou o acordo de paz: às escondidas de suas bases e dos trabalhadores, e cedendo a todas as pressões do imperialismo, do governo e dos reformistas. E hoje em vez de corrigir essa política de confiança no regime burguês antidemocrático, chamando a mobilização operária e popular, a resposta que dão frente ao vexame que fizeram com Santrich, é deixar tudo nas mãos da JEP e dos países garantidores, o que continuará expondo aos ex combatentes às inseguranças de um processo que está sujeito aos interesses de Trump e do Uribismo.

Nós trabalhadores temos que fazer nosso próprio pacto operário e popular para enfrentar a arremetida política e econômica de corte das liberdades e de superexploração. O Partido Socialista dos Trabalhadores faz um chamado à unidade da classe trabalhadora e dos setores populares contra a unidade dos burgueses, para exigir melhores condições de trabalho e salariais, para repudiar a extradição de cidadãos nacionais a países imperialistas, começando por Jesús Santrich, para frear os assassinatos dos líderes políticos e sociais e para repudiar qualquer corte nos poucos direitos e garantias alcançados pelos ex combatentes das FARC nos acordos de paz. A única maneira de deter os planos de Duque e do imperialismo é incrementando a mobilização e a luta operária e popular nas ruas.