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Não parece haver nenhum motivo que faça Álvaro Uribe desistir de seu propósito de se reeleger pela segunda vez. Todas as críticas, objeções e demonstrações de inconveniência dos mais diversos setores burgueses “tropeçam nele”, como se diz entre os jovens. O Presidente nem pisca em seu empenho de se reafirmar aos seus fiéis e de convencer seus opositores da idéia de que ele não deseja se reeleger, mas que é incapaz de resistir ao cumprimento das obrigações que lhe impõe “a Pátria”. Os trabalhadores e a esquerda revolucionária têm o dever de dizer, uma e outra vez, que na obsessão reeleitoreira de Uribe não há uma grama sequer de altruísmo, e que sua encruzilhada nada tem a ver com a alma senão com a “suja forma judaica da política”: é…  financeira.


 


Reeleicionistas e anti-reeleicionistas.


 


O caos institucional que tem provocado Uribe, em seu afã de instituir-se como supremo todo-poderoso e guardião dos interesses dos monopólios imperialistas e financeiros, está generalizando entre amplos setores da burguesia a preocupação sobre a perda da capacidade do Estado e do regime político de manter o controle econômico, político e social. Empresários, políticos, sacerdotes, jornalistas e magistrados vêem com impotência crescente a forma em que o pequeno napoleão nativo concentra em suas mãos todas as rédeas das instituições, colocando-as a seu próprio serviço e de seus ricos amigos, deixando sem válvulas de segurança o exercício do poder burguês.


 


A obstinação messiânica do Presidente, que o obriga a ver a si mesmo como o Salvador Supremo e a seguir em frente com seu projeto bonapartista, está fraturando a sólida frente burguesa de apoio que conseguiu, para os planos reacionários e anti-operários que aplicou com fúria em seus dois primeiros governos.


 


A burguesia colombiana e seus aliados imperialistas estão se dividindo em dois blocos que parecem cada dia mais irreconciliáveis: os reeleicionistas e os anti-reeleicionistas. No primeiro localizam-se alas importantes do imperialismo ianque (ver quadro: As bases.), as multinacionais, os grandes monopólios industriais e financeiros do país, os latifundiários, os bandos paramilitares que os protegem e o exército de servidores públicos dedicados a parasitar o Estado. No segundo, há desde empresários nacionais e europeus que vêem ameaçados seus interesses pela voracidade do círculo no poder, políticos tradicionais, juízes e magistrados, até uribistas confessos que desejam com ardor que seu amado líder dê um merecido descanso às suas almas, nomeie um fantoche que o cubra durante um período e que retorne renovado por outros oito anos após 2014. Tal cenário, que seria o ideal para as multinacionais e os monopólios nacionais, é obstaculizado pelo apetite reeleitoreiro do Presidente e o círculo de amigos incondicionais que o rodeiam. O que é o que explica tão estranho comportamento de parte de quem se espera que seja o representante dos interesses do conjunto da burguesia?


 


O controle bonapartista da economia


 


A explicação é simples: estão enriquecendo acima de qualquer proporção. A concentração do poder político e militar nas mãos do executivo trouxe consigo, inevitavelmente, a concentração do controle econômico, e esta, por sua vez, a irresistível tentação dos altos servidores de meter a mão no dinheiro público. O bonapartismo político desembocou, como tinha que desembocar após oito anos de abusos, no bonapartismo econômico.


 


O favorecimento de Uribe aos grandes capitalistas, e em especial aos capitalistas financeiros, segue gerando grandes lucros. Apesar de que a crise econômica não foi superada, os bancos obtiveram 5.9 bilhões de pesos de lucro nos três primeiros trimestres de 2009; 25% a mais que no mesmo período do ano passado. Os setores burgueses nacionais e imperialistas unidos ao governo seguem enriquecendo a custas dos trabalhadores, e os processos de concentração do capital aumentam por meio de fusões e aquisições.


 


Essa é a explicação material do apoio que no congresso de ANIF, Luis Carlos Sarmiento, cabeça do Banco de Bogotá e do grupo AVAL, deu a um terceiro mandato de Uribe, ao mesmo tempo em que saudava a venda de 10% da Ecopetrol[1] para destinar a obras de infra-estrutura das quais, sem dúvida, ele será um dos maiores beneficiários. Por outro lado os monopólios pagam enormes propinas aos altos servidores públicos do governo, fazem vistas grossas e justificam a corrupção crescente dos servidores públicos e amigos próximos do Presidente.


 


Os escândalos sobre a intenção de entregar a Fazenda Carimagua – que por lei deveria ser entregue aos camponeses sem terra – a grandes latifundiários próximos ao alto governo e sobre o favorecimento aos negócios dos filhos de Uribe, atingiram seu ponto mais alto com a descoberta sobre a entrega dos subsídios do programa de Agro Rendimento Seguro a latifundiários e testas-de-ferro de paramilitares na região da Costa Colombiana, nos Vales e nas Planícies Orientais, por uma cifra que pode ultrapassar duzentos mil milhões de pesos. O controle da economia tinha que corresponder, cedo ou tarde, ao controle bonapartista das instituições e do poder do Estado. E o controle bonapartista da economia não pode ser outro que um controle descaradamente lúmpem.


 


São essas minúcias que provocam as “encruzilhadas na alma” dos setores burgueses no poder e dos buscam se perpetuar nele. Não ter acesso a essas fontes de mel, ou o medo de perder pelo abuso, é o que estimula, no outro extremo, os capitalistas que se opõem à segunda reeleição de Uribe. Essa é a explicação que está no fundo da agudização das contradições interburguesas.


 


A oposição burguesa e oportunista não quer derrubar Uribe


 


Apesar de tudo, nenhum dos opositores burgueses do governo, não importa a virulência de suas críticas, chama abertamente a derrubar Uribe. Nem os colunistas dos jornais, nem os magistrados das altas cortes, nem os políticos e parlamentares opostos à reeleição do Presidente se atrevem a apoiar-se na mobilização política e social de massas para derrotá-lo. Limitam-se a forjar alianças eleitorais e a revelar os escândalos de corrupção para debilitá-lo, com a ilusão de ganhar nas urnas.


 


Entretanto, os que realmente estão sentindo os rigores da crise são os trabalhadores, pelo aumento do desemprego, o fechamento de fábricas e de postos de trabalho e o aumento nos ritmos da super exploração. Infelizmente, como conseqüência da política traidora das burocracias sindicais e das políticas estalinistas e pró-burguesas, e pelos efeitos negativos que as ações isoladas das organizações guerrilheiras exercem sobre a mobilização, as lutas de resistência não são centralizadas nem atingem a dimensão necessária para frear os planos do regime. A recente desmobilização da greve do magistério por parte da direção da Fecode[2] constituiu-se em uma verdadeira traição, na medida em que tirou do confronto com o governo, o sindicato ao redor do qual poderia se ter centralizado a totalidade dos conflitos setoriais e regionais, desarticulando assim a possibilidade de uma luta nacional que vinha sendo gestada, deixando isolados os movimentos dos indígenas, dos camponeses e dos estudantes universitários que fizeram tentativas importantes de se levantar contra os planos e as políticas do governo e do imperialismo.


 


A verdadeira encruzilhada


 


A crise superestrutural que se iniciou com o escândalo da parapolítica chegou a níveis inimagináveis até para os próprios setores burgueses que a desencadearam e levou a choques institucionais entre o judiciário e o executivo, entre o judiciário e o legislativo, chegando a ameaças e a espionagem mútua. A burguesia começou a violar sistematicamente suas próprias regras de controle do aparelho de Estado, aproximando-se do que os apologistas da democracia burguesa chamam de “desinstitucionalização”.


 


Ainda que soe estranho, a burguesia vem estreitando os mecanismos institucionais de controle a uma situação que parece não ter saída. Estão queimando os cartuchos burgueses normais e estão limitando as alternativas a uma explosão revolucionária, a uma saída de cunho fascista ou bonapartista ou a imersão do país em uma crise social sem precedentes.


 


À classe operária, ao conjunto dos explorados e oprimidos do país e à esquerda revolucionária corresponde a tarefa de garantir que tudo se resolva a favor dos trabalhadores e do socialismo.


 


As bases militares e o apoio imperialista à reeleição


 


Em política as coincidências são de interesses. Só os fiéis da congregação do uribismo podem alegar que foi  uma feliz coincidência  o anúncio da autorização do uso das bases militares pelas tropas ianques, e a mudança de atitude de importantes políticos e jornalistas ianques sobre a segunda reeleição de Uribe. Os irados editoriais e as críticas dos políticos norte-americanos que atacavam a possibilidade de uma segunda reeleição de Uribe desapareceram após a decisão do governo colombiano de abrir as instalações militares às tropas imperialistas. Os discursos filosóficos sobre a defesa das instituições democráticas deram passagem a declarações pragmáticas sobre a vontade popular. Desde o presidente Obama até o ex-presidente Carter deixaram de assinalar semelhanças com as pretensões ditatoriais de Hugo Chávez, para deixar aberta a possibilidade de uma segunda reeleição, “se assim desejam os colombianos”.


 


A utilização das bases por suas tropas é uma imposição do imperialismo ianque ao governo colombiano que dificilmente pode conseguir outro país para isso, incluindo os demais países imperialistas. A presença militar norte-americana é aceita como um direito natural da potência imperialista responsável por manter, a correlação de forças com a classe operária e os trabalhadores a favor da burguesia mundial. Claro está que se trata de uma “colaboração” à qual o governo de Uribe obtém enquanto partido, a contrapartida do apoio à reeleição ou pelo menos sua cúmplice aceitação e a manutenção dos milhões de dólares do Plano Colômbia. É um negócio de conveniência mútua que evidencia a tendência geral ao bonapartismo na época imperialista.


 


É nessa direção que se colocam as tropas ianques na Colômbia. Sua presença faz parte do plano imperialista de recuperação do controle econômico, político e militar sobre o conjunto do Continente, debilitado nas últimas décadas pelo ascenso revolucionário e o surgimento de governos nacionalistas e frente populistas.


 


A luta contra a presença militar ianque no país e a luta contra o governo de Uribe e seus planos econômicos e políticos para reeleger-se são uma mesma luta, que a classe operária e os trabalhadores devem fazer avançar com a mobilização direta.


 


Partido Socialista dos Trabalhadores da Colômbia.


28 de outubro de 2009








[1] NT: Empresa Colombiana de Petróleo



[2] NT: Federação Colombiana de Educadores