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O ataque do exercito colombiano a base das FARC no Equador, e a crise internacional que se abriu posteriormente, encobriram a cobertura jornalistica de dois fatos muito importantes ocorridos no dia 6 de marco na Colombia. O primeiro deles foi a realizacao de manifestacoes em varias cidades do pais e em outras partes do mundo, convocadas como Homenagem Nacional e Internacional as vitimas do para militarismo, da para politica e dos crimes de Estado. Alem disto, foi realizado o IV Encontro Nacional de Vitimas dos Crimes de Estado. Varias outras atividades foram convocadas pelo Movice (Movimento Nacional de Vitimas de Crimes de Estado) e representaram, na pratica, uma resposta a reacionaria manifestacao convocada em 4 de fevereiro em apoio ao governo Uribe e de rejeicao as FARC.


 


Apesar das tentativas de diversos setores politicos e da imprensa em diluir seu conteudo e em dizer que era contra a violencia “em geral”, diluindo assim a questao do para militarismo e da violencia do Estado, a manifestacao de 6 de marco conseguiu manter seu conteudo. Foi claramente uma marcha contra Uribe e os paramilitares e com a clara participacao de organizacoes de vitimas, partidos politicos (Polo Democratico, PC e PST), sindicatos, organizacoes indigenas, de Direitos Humanos, de mulheres e estudantes, etc.


 


Para complementar a informacao de todo este processo, reproduzimos a seguir os artigos publicados em El Socialista 626 (jornal do PST) com o balanco da manifestacao de 4 de fevereiro e a convocacao para a marcha de 6 de marco.


 


4 DE FEVEREIRO X 6 DE MARCO: MANIFESTACOES E LUTA DE CLASSES


 


A massiva participacao na marcha em protesto contra as Farc em 4 de fevereiro, foi um marco na situacao politica do pais. O governo Uribe sofreu desde o ano passado, um serio desgaste na medida em que cresceu o escandalo da para politica, se concretizou a greve do setor educativo em maio, adiou-se a assinatura do TLC com os EE.UU  e foi derrotado seu candidato em Bogota. Em dezembro era evidente sua perda de iniciativa, a proposito da libertacao dos sequestrados, frente a intervencao do governo de Chavez e do imperialismo frances. Nao obstante isso assimilou o golpe e respondeu com uma contra ofensiva politica e diplomatica, na qual contou com o respaldo do governo yanqui e conseguiu a ratificacao do status de terrorista por parte do imperialismo europeu, para a organizacao insurgente. Assim, a convocacao para a marcha de 4 de fevereiro permitiu a burguesia lancar mao de todos seus recursos ideologicos para converter em causa nacional, o repudio ao sequestro e as Farc. Todos os meios de comunicacao, imprensa escrita, radio e televisao se unificaram numa campanha sem precedentes na historia do pais. O governo, por sua vez, pos todo o aparelho do Estado a servico do sucesso da convocacao, e muitos empresarios meteram a mao no bolso para financiar parte da logistica para a mobilizacao. O que a principio parecia ser uma iniciativa espontanea difundida atraves da Internet, se converteu numa campanha mediatica, politica e economica.


 Na pratica aceitou-se uma greve patronal e promoveu-se a suspensao do trabalho nas entidades do Estado para garantir a presenca de muita gente. Tanto e assim que, ao final da  jornada, se fez um calculo do seu custo em relacao ao PIB para o presente ano.


 

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Mas este sucesso irrefutavel se parece a Caixa de Pandora: uma vez aberta, podem escapar todas as calamidades ali encerradas e a esperanca ficar no fundo. A burguesia sabe e trata de manter o controle da situacao. Uns querem radicalizar a contra ofensiva e promover o terceiro mandato de Alvaro Uribe, exacerbam o nacionalismo contra Venezuela e a Nicaragua, clamam pela aprovacao do TLC com os EE.UU. e o endurecimento do Plano Colombia. Outros, mais cautos, preveem uma desaceleracao economica, provocada pela recessao yanqui e acentuada pelo bloqueio comercial de Chavez, e pedem cautela nas relacoes diplomaticas, apoiando a solucao negociada do conflito armado. Os primeiros pedem guerra, os segundos: acordo humanitario. Mas na medida em que os dois setores se beneficiaram dos niveis de super exploracao do trabalho, da privatizacao acelerada dos bens do Estado, da especulacao financeira e da concentracao da propriedade, promovidos por Uribe, tratam de manter o combate na cupula.


Ter apelado a mobilizacao de massas, levando as ruas  milhoes de pessoas, lhes tira o sono. Num pais onde a tradicao do exercicio das liberdades democraticas, da organizacao das massas, o protesto e a mobilizacao foi reduzida ao minimo pelo conflito entre os aparatos militares e a acao desferida pelas   forcas paraestatais contra a vanguarda sindical e popular, e perigoso que as massas se acostumem a ocupar as ruas com liberdade. A marcha de 4 de fevereiro teve um conteudo profundamente reacionario, tanto pelo objetivo proposto, que pretendia concentrar todo o odio num so dos fatores do conflito armado – desconhecendo que e expressao de profundas desigualdades sociais-, como pela qualidade dos organizadores, o setor mais ultra reacionario da burguesia, os proprios paramilitares, o governo e o imperialismo. Mas a participacao social massiva, apesar de todos os fatores de distorcao introduzidos pelos grandes meios de comunicacao e pelo aparelho estatal, e tambem expressao de profundas aspiracoes democratica que podem se voltar contra a mesma burguesia, beneficiada conjunturalmente por este estrondoso sucesso politico.


 

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A marcha tambem pos em evidencia ou grave dano que os metodos errados da insurgencia causaram a consciencia democratica dos trabalhadores e da juventude. Mas essa contradicao entre os objetivos reacionarios da burguesia e as necessidades democraticas das massas, e o que explica o comportamento de importantes setores frente a realizacao da marcha de 6 de marco. Convocada pelo Movimento Nacional de Vitimas de Crimes de Estado com um objetivo nitidamente democratico, ao reivindicar as centenas de milhares de vitimas do para militarismo, da para politica e dos agentes do Estado, comete um  desvio e faz prevalecer o repudio ao sequestro, em geral.


 


O argumento nao pode ser mais distorcido: “Todos somos vitimas”, proclama o pequeno circulo de privilegiados do pais, desde seus clubes exclusivos e por cima do ombro de seus guarda-costas. Esse argumento comove seus colaboradores no interior do movimento sindical e popular, e nos governos de colaboracao com a esquerda reformista, como o de Bogota, que fazem ate o impossivel por ceder a suas pretensoes.


 


Um caso patetico foi a declaracao do presidente da CUT, Carlos Rodriguez, que respaldado pela imperialista nova Central Sindical Internacional, convoca o protesto contra o sequestro. A ultra direita tenta a confrontacao: “Nao respaldamos uma marcha convocada pelas Farc ou contra os paramilitares”, diz sem eufemismos Jose Obdulio Gaviria, conselheiro intimo de Uribe. Sao conscientes de que ha uma profunda diferenca entre o 4 de fevereiro e o dia 6 de marco e e melhor nao soprar a brasa do descontentamento, porque pode se converter em labareda.


Enquanto, a nova geracao de paramilitares continua sua atuacao, as ameacas de morte contra a direcao da oposicao multiplicam-se, e os planos economicos, politicos e militares do governo e do imperialismo continuam seu curso. A unica possibilidade de frea-los e derrota-los e unificar esforcos para que a crise que corroi os alicerces do governo  Uribe e se manifesta na exacerbada disputa na cupula se converta em aberta luta de classes, ate derruba-lo.


 


Este deve ser o conteudo da convocacao a marcha de 6 de marco “Pelos desaparecidos, pelos expulsos da sua terra, pelos massacrados e pelos executados”. Nossa participacao nela tem o objetivo de exigir um verdadeiro castigo aos responsaveis materiais e intelectuais da barbarie paramilitar, plena reparacao as vitimas e potencializacao da autonomia politica das organizacoes operarias e populares. O 6 de Marco e o IV Encontro Nacional de Vitimas de Crimes de Estado que se inicia com a marcha e aspira congregar mais de 2.000 delegados, devem ser parte de um plano de acao que em 2008 nos permita rearticular a resistencia aos planos de Uribe e ou imperialismo, para concretizar uma greve nacional que volte a levantar como palavra de ordem das massas, aquela que foi agitada nas mobilizacoes de maio de 2007: As ruas, derrubar o governo paramilitar!


 


Bogota, 24 de fevereiro 2007


 


Mobilizacao de  6 de marco


HOMENAGEM NACIONAL E INTERNACIONAL AS  VITIMAS DO PARAMILITARISMO, DA PARA POLITICA E DOS CRIMES DE ESTADO


Pelos desaparecidos, pelos expulsos da sua terra, pelos massacrados, pelos executados.


 

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Na Colombia foram deslocadas desplazadas cerca de quatro milhoes de pessoas, em sua maioria pelos grupos paramilitares. Estes grupos, sozinhos ou em conjunto com membros das forcas militares, fizeram desaparecer ao menos 15.000 compatriotas e enterraram-nos em mais de 3.000 valas comuns ou jogaram seus cadaveres nos rios; assassinaram mais de 1.700 indigenas, 2.550 sindicalistas, e cerca de 5.000 membros da Uniao Patriotica. Torturam regularmente suas vitimas antes de mata-las. Entre 1982 e 2005 os paramilitares perpetraram mais de 3.500 massacres, e roubaram mais de seis milhoes de hectares de terra. Desde 2002, apos seu “desmobilizacao”, assassinaram 600 pessoas a cada ano. Chegaram a controlar 35% do Parlamento. Desde 2002 ate hoje, membros do Exercito Nacional cometeram mais de 950 execucoes, a maioria apresentadas como “positivas”. Somente em janeiro de 2008, os paramilitares cometeram 2 massacres, 9 desaparecimentos forcados, 8 homicidios e, o Exercito cometeu 16 execucoes extrajudiciais. Na Colombia, agentes do Estado e paramilitares violam os direitos humanos e o direito humanitario. Muitos grupos paramilitares nao estao desmobilizados e agora se  chamam Aguias Negras. Muitos para politicos estao em cargos publicos e  sao diplomatas.


 


NUNCA MAIS VALAS COMUNS.


NUNCA MAIS DESLOCAMENTOS FORCADOS.


NUNCA MAIS PARAMILITARES.


NUNCA MAIS PARA POLITICOS.


NUNCA MAIS CRIMES DE ESTADO.


 


MOVIMENTO NACIONAL DE VITIMAS DE CRIMES DE ESTADO