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Desde o dia 19 de abril pela manhã, as notícias não pararam de informar a morte do ex-presidente Patricio Aylwin. Todos os meios de comunicação da burguesia chilena não deixaram de exaltar a figura de Aylwin como um Grande Estadista, como aquele que permitiu a volta da democracia e também se comprometeu em desenvolver uma transição pacífica desde a ditadura de Pinochet até a democracia que conhecemos hoje.

Por: Carlos Rozas (Pipo)

O que poucos têm dito é que Aylwin também foi quem fortaleceu a base para perpetuar o modelo neoliberal em todos os seus aspectos, uma vez que a Constituição de 80 foi mantida, o modelo econômico aprofundou-se, com mais privatizações, e manteve-se a impunidade para aqueles que cometeram abusos aos Direitos Humanos, pois, em suas palavras, a democracia deveria contar com “Cívis e Militares” e deveria fazer “justiça na medida do possível”.

Até agora, como tem sido a tendência, houve apenas retoques estéticos. Cada um dos administradores do Estado Chileno, Frei Ruiz Tagle, Lagos, Bachelet y Piñera, têm mantido a mesma rota. A Concertación (hoje nova maioria), junto à direita representada por Alianza por Chile (hoje Chile Vamos), empenhou-se em governar no âmbito de acordos que favoreceram somente os poderosos, ou seja, os empresários nacionais e/ou multinacionais que exploram este país.

Para nós e para a história do povo trabalhador, sua figura será lembrada como a de um golpista, que se uniu à direita representada por Sergio Onofre Jarpa[1], do Partido Nacional e, em unidade com imperialismo ianque, dirigido por Nixon e Kissinger, tramou para lançar o governo de Salvador Allende. Não foi por coincidência que o Ministro da Defesa de Aylwin foi Patricio Rojas, responsável pela união com os militares golpistas durante o Governo de Allende.

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Hoje, para a maioria dos políticos da direita e para o governo, a morte de Patricio Aylwin foi favorável, já que morreu o Presidente da Reconciliação Nacional e o Presidente dos acordos; e, para nos iludir, dizem que o mais importante é o trabalho positivo dos políticos e que devemos esquecer os ressentimentos da corrupção e dos escândalos. Para isso, foram organizados funerais de Estado pelo Governo.

Felizmente, o Chile de hoje não permite aos corruptos limpar a sua imagem tão rapidamente. As pesquisas indicam que os políticos tradicionais e seus partidos caíram por terra, assim como a confiança no Congresso e no Governo de Bachelet. Isso foi demonstrado por meio da recusa do movimento estudantil (CONFEh) em alterar o dia da mobilização do dia 21 de abril, devido ao Funeral de Estado. Os estudantes disseram que a luta por seus direitos e contra a Falsa Reforma Educacional de Bachelet não se altera, alegando que a marcha não interfere na cerimonia.

Nós alertamos aos velhos políticos, a aqueles que hipotecaram, por meio de um Acordo Nacional, as lutas que os trabalhadores travaram contra a ditadura, a aqueles que um dia nos prometeram “a alegria” que nunca chegou, que há uma nova geração de lutadoras e lutadores em todos os setores da sociedade, entre os trabalhadores, os setores populares e os estudantes. Uma geração que não tem os traumas vividos por aqueles que foram derrotados e que ainda estão em pé, aqueles que seguem lutando por um Chile melhor, um Chile Socialista. Nenhuma negociação nos colocará de joelhos perante os poderosos.

Morreu um democrata? Não! Morreu um golpista! E se há um céu, não resta dúvida de que Aylwin deve estar bebendo chá junto a Pinochet e Contreras, discutindo o bom resultado do pacto acordado, cujo modelo se mantém o mesmo, com as Forças Armadas intactas, sem julgamentos e sem culpados.

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Nota:

[1] Sério Jarpa dirigiu, junto com Patricio Aylwin, a CODE, uma coalizão que, durante o governo de Allende e da Unidade Popular, insistia para que os militares atuassem em nome da institucionalidade. Então, Jarpa foi o novo Ministro de Interior de Pinochet, responsável por decretar Estado de Sítio na capital e posicionar os militares para reprimir os protestos, provocando centenas de mortes. Jarpa e Aylwin, posteriormente, lideraram o diálogo nacional para evitar protestos contra o Ditador e iniciar uma saída acordada da ditadura.

Tradução: Kélvia Trentin