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Falar sobre aborto, infelizmente, não é fácil, ainda mais quando existe tanta violência e falta de informação, quando ainda somos mulheres tratadas como incubadoras ambulantes, quando “caras” irresponsáveis falam e não veem nosso país como o sétimo que mais mata mulheres por feminicídio.

Por: Juranilce Bezerra, do coletivo Rosas que Falam e militante do PSTU em Iguatu

No dia 26 de junho, o youtuber cearense André Fernandes postou em seu canal uma enxurrada de ódio e falta de contextualização sobre o aborto. Esse, no mínimo, não se deu ao trabalho nem de fazer uma rápida pesquisa sobre os temas abordados nos três minutos e pouco que falou.

Ele fala que “estupro é um caso isolado”, isso em um país que estupra cerca de 100 mulheres por dia. E ele vai além, banalizando e naturalizando o estupro a um ponto que faz as seguintes colocações/comparações: “Mas porque é que uma mulher pode opinar sobre estupro? Sem pênis sem opinião“; “estupro legalizado ou não vai continuar acontecendo do mesmo jeito“. São colocações extremamente perversas, onde o mesmo afirma que a mulher que sofre a violência não pode falar sobre ela.

Quem é André Fernandes: apoiador de Bolsonaro, que utiliza dos mesmos argumentos de seu referencial: o preconceito, a violência, falta de informação e ignorância total sobre aquilo que fala. O mesmo que antes tentava ganhar fama e dinheiro fazendo piada com os setores oprimidos agora tenta garantir uma vaga na política cearense com seu discurso de ódio e intolerância.

Pessoas de ciência sabem que quando uma mulher chega a fazer a denúncia de uma violência vivida, ainda mais por questão de gênero, ela é normalmente hostilizada e estará traumatizada pelo resto de sua vida. Imagina ser obrigada a gestar em seu corpo o fruto de uma violência? É doentio obrigar uma mulher a carregar em seu útero todas as sensações de seu trauma, de vivenciar não só a violação de seu corpo, mas também de sua essência, é de uma perversidade desumana obrigar a gestação de uma violação e depois ainda cobrar carinho e dedicação para com essa violência.

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Nenhuma mulher acorda um belo dia e diz, “acho que hoje eu vou fazer um aborto!” Nenhuma mulher passará por essa experiência sem sequelas, ilesa, ainda mais em um país como o nosso, o Brasil onde tantas mulheres morrem em clínicas clandestinas, essas mulheres preferem o risco da morte do que o destino dessa maternidade. E se decidir pela maternidade serão desenvolvidos tantos sentimentos bons como também transtornos de sobrecargas e cobranças; por isso, por ser diretamente a pessoa mais afetada nessa situação o direito de escolha para a mulher tem que ser uma realidade urgente.

O André demonstrou preocupação com as sequelas que nós mulheres podemos adquirir por um aborto, menos às sequelas mentais da imposição da maternidade, é como se o que importasse fosse somente o corpo e não a mente, até porque, pela ideia passada, a mulher é só matéria né?! Esse rapaz não se deu nem ao esforço de ir no Google e pesquisar sobre países aonde o aborto foi legalizado, onde interessantemente os abortos diminuíram.

Um estudo inédito da Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que países com leis que proíbem o aborto não conseguiram frear a prática e que, hoje, contam com taxas acima daqueles locais onde o aborto é legalizado. Já nos países onde a prática é autorizada, ela foi acompanhada por uma ampla estratégia de planejamento familiar e acesso à saúde que levaram a uma queda substancial no número de abortos realizados. Estamos falando de uma questão de saúde pública, não se trata mais de proibir ou permitir, os abortos acontecem é fato, e ceifam as vidas apenas de mulheres pobres, que não podem pagar por uma viagem para fazer o aborto legal e seguro em um país onde se é legal, ou dinheiro para um médico aqui no Brasil para fazer em uma clínica particular com segurança e sigilo total.

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Também é abordado os métodos contraceptivos, onde 98% são usadas por nós mulheres (anticoncepcionais), e que podem causar sequelas irreversíveis em nossos corpos chegando até a amputações de pernas pelos efeitos colaterais ou AVC’s. Ele fala de tudo isso menos do que convém ao lado masculinos, como a retirada do preservativo durante a relação sexual sem consentimento ou às vezes sem mesmo a mulher saber que o preservativo foi retirado; também não fala que “os homens” preferem relação sem uso da camisinha. O aborto, praticado até a 12º semana de gestação está interrompendo um processo biológico, já o abandono dos filhos de fato está abandonando uma vida já formada, deixando toda a responsabilidade para a mãe. O que é ainda mais grave, essas questões que recaem sobre o homem são sutilmente mencionadas, no mínimo oportunista já que defendem a moral.

E para fechar com chave de ouro ele coloca nós todas como abortistas, que “lutamos pelo direito de matar ou não um bebê”, a mulher que não tem condições psicológicas ou financeiras para criar uma criança ser enquadrada dessa maneira é desleal. O mesmo Estado que criminaliza o aborto é também o mesmo Estado que nos negligencia, nega atendimento seguro de saúde, nega educação sexual para prevenção, da mesma forma que negam condições reais para uma mulher poder exercer sua maternidade, se assim desejada, também é o Estado que, quando convém, sem se preocupar com vidas futuras, se utiliza da esterilização das mulheres pobres e negras.

É questionada a luta pelo direito ao aborto e não o pedido para ajudar a criar um bebê, exigimos condições para que as mães que decidirem pela maternidade possam ter dignidade dada pelo Estado para a criação dessas crianças e não pedir favor a uma pessoa para que ajude a criar seu filho, quando muitas vezes nem o próprio pai se coloca na condição de criador e cuidador. Nenhuma mulher merece ser obrigada a ser mãe, em nenhuma circunstância, tampouco se humilhar para conseguir dar uma criação digna aos seus filhos!

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Pela punição e retirada do vídeo de veiculação, punição do youtuber André Fernandes por naturalizar a violência contra a mulher, educação sexual para decidir, contraceptivos para não engravidar, aborto legal e seguro para não morrer, mais investimento na saúde pública, contra a privatização do SUS, por uma sociedade socialista sem opressão e sem exploração.