Aparentemente o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) está fazendo escola. Assim como o candidato a prefeito pelo Rio de Janeiro Marcelo Freixo, Luciana Genro decidiu seguir a linha do “diálogo” proposta pelo companheiro de partido. Candidata à prefeita de Porto Alegre, ela esteve no dia 1o de setembro na Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs)[1] – uma entidade sionista que, portanto, se posiciona contra o Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel, principal campanha internacional de solidariedade ao povo palestino[2].

Por: Soraya Misleh

Infelizmente, a presença desses candidatos em entidades sionistas é divulgada como encontros com a comunidade judaica – e qualquer crítica é taxada de antissemita, na velha e desgastada fórmula adotada pelo Estado racista de Israel para silenciar vozes contrárias ao sionismo e, portanto, às organizações que o representam. Nenhum problema com encontros com qualquer comunidade. Não é disso que se trata. A questão é que, ao se postularem como locais para esse diálogo e representantes da comunidade judaica, essas organizações mantêm atrelada a ideia do sionismo com o judaísmo. Uma criação do projeto que desembocou na formação unilateral do Estado de Israel em 1948 – a nakba (catástrofe) palestina, mediante a limpeza étnica do povo palestino[3]. Nas palavras do historiador israelense Ilan Pappé, o sionismo nacionalizou o judaísmo para a constituição desse Estado homogêneo.

Claramente a Firs é parte desse conjunto, como afirmou seu presidente, Zalmir Chwartzmann, durante o encontro: “No Rio Grande do Sul, a Firs é uma extensão de Israel (…)”. Assim como a Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj), em que Freixo se posicionou por parcerias e acordos com Israel. Ambas integram a Confederação Israelita do Brasil (Conib), que se reuniu em 2015 com o deputado federal agora cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e com o então ministro da Defesa sionista Jacques Wagner em defesa da lei antiterrorismo – sancionada em 17 de março último pela presidente afastada Dilma Rousseff e mais um instrumento à repressão e criminalização de movimentos e ativistas[4] – e desenvolve forte campanha contra o BDS a Israel.

Luciana Genro esteve na Firs, assim como outros candidatos nestas eleições – como ocorreu também na Fierj. Não surpreende quando partidos da direita tradicional se posicionam a favor de Israel. Mas quando o campo da esquerda cede ao canto da sereia é no mínimo preocupante. Ao confundirem a própria militância e apoiadores, prestam um enorme desserviço à causa palestina. Luciana, por exemplo, foi cobrada sobre as posições do PSOL em relação a Israel. Ao se justificar, embora tenha afirmado que há “entendimentos contrários”, manifestou-se aberta ao diálogo. Frisou ainda, segundo divulgado no site da Firs, que o radicalismo do passado está superado. “Quem está se propondo a governar Porto Alegre não pode ter postura intransigente. Temos olhares diferentes, mas não creio que sejam obstáculos para construir políticas comuns. Talvez tivesse lá atrás, mas com a experiência e amadurecimento, saí uma pessoa do diálogo, da política”, teria afirmado, ainda conforme divulgado pela federação. “O único aspecto de que não abre mão do ‘radicalismo’, disse ela, é sobre corrupção e coalizões sustentadas por loteamentos de cargos públicos. Ela se propôs ainda a promover um debate aberto sobre Israel e a Palestina”.[5]

Seria importante Luciana esclarecer o que quis dizer com ter superado suas posições radicais sobre a questão palestina. E o que significa não haver problemas para construir políticas comuns. Estaria também a favor de parcerias e acordos com Israel, a exemplo de Freixo? A abertura ao diálogo é nos moldes do que defende o candidato do Rio e Jean Wyllys – ou seja, na linha do estreitamento de relações com a “esquerda” sionista e contra o boicote a Israel?[6] Em nome do apoio eleitoral, estaria Luciana negando tudo o que defendeu ao longo da vida em relação ao tema, que conhece bem? Ou seja, ignorando que, no caso, o Estado de Israel é o opressor e o povo palestino o oprimido?

Nestas eleições, o movimento BDS propõe cidades livres de apartheid, portanto, sem qualquer convênio com Israel. Uma Porto Alegre com Júlio Flores, candidato a prefeito pelo PSTU, terá adesão incondicional a esse movimento de solidariedade ao povo palestino. E com Luciana Genro? Estamos abertos ao diálogo.

Notas:

[1] Confira em http://www.firs.org.br/luciana-genro-se-diz-aberta-ao-dialogo-com-comunidade-judaica/

[2] Conheça mais sobre a campanha. Leia o artigo BDS contra o apartheid na Palestina em http://www.revistadiaspora.org/2016/05/17/bds-contra-o-apartheid-na-palestina/

[3] Leia o artigo Sionismo e limpeza étnica do povo palestino em http://blog.esquerdaonline.com/?p=1980

[4] Confira em http://www.conib.org.br/noticias/2827/lideranca_judaica_debate_com_cunha_e_wagner_projeto_de_lei_antiterror_relacoes_bilaterais_e_conjuntura

[5] Em http://www.firs.org.br/luciana-genro-se-diz-aberta-ao-dialogo-com-comunidade-judaica/

[6] Confira mais sobre a esquerda sionista e a crítica às declarações de Jean Wyllys em http://www.pstu.org.br/node/21888.