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CRITICA












Marxismo e feminismo: afinidades e diferenças

MARIA LYGIA QUARTIM DEMORAES’

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L Dc Karl Marx a Julict Mitcliell

O marxismo c a psicanálise constiluem as tluas maiores revoiuções teóri-cas do mitêtiio. Ambas, à sua maneira, provocaram profundas e irreversíveis mudanças no campo das idéias e no campo das prática.s sociais. A grande obra tcóriea do marxismo pcrsistc sendo O capita!, A análisi: da dinâmica da luta de classes e a especifícidade de funcicmamento do mtidti de produção capita-lista- a contradição entre o crescente dcscnvolvimento das forças prodiuivas c as relações de produção – pennanecem válidas cm todos os seus pressupos-tos e dcsdnbramentos. A tendência ava.s.saladora do capitalismo, o jmpulso ao aperfeiçoamento iccnico, o inexoráve! crcsciinento da magnitude do capitá) c sua ceniralização nas iniÍDs de um niíincro menor ílc bilíonáríos estão cmn: as leis defitiilivamente eslabelecidas por Marx.

No Uicante à “qucstân da mullier”, a pcrspectiva marxista assisme uina di-mensão dc crítica radical ao pensamenti> conscrvador. Em A origem dafamí-liít, da propriedade privada c do Estado1 n condição social da mulhei ganfaa um relevo especial pois a iastauração da propriedade privada c a subonlinação das EOOlheres aos bosoeos são dois fams simiillàncos, marco inicial das Imas de classes. Nesse sentido, o marxismo abriu as portas para o tema da “opres-são espccffica”, quc seria rctomado e reirabalhado pclas fetninistas niarxistas dos ano.s 1960-70. Em A idealogia eãemã, dc 1846, a instituição da família




” ProfessoM Departamento de Sociologia, IFCH, Umcamp.

‘ Engels, F. A origemdj famili,i, dt pmpriedidepriv.uh edo Estado. Sãoftiulo. Civjlizaçôo Brasilei-ra, 1977.




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aparece comu inn dos tnomentos de passagem para ít sociedade dc classes, Esla hii;rarquização se dá no intericir ilo próprii) processo dc trahallio, pois, como assinalam Marx e Engcls;

i) divisão ilo irabalho repousa sobrc a divisão natuial do trabalbo oa 1’íimília e subre a sqiaração da suciedade tni famílias isnladas e nposías umas ;is ou-tras, e esla ilivisão du trabatho implica ao mesmo icmpu a repartição do irahalho e dc scus produios; disirihuíção desjgual. na verdade, tanio cm quan-lidadc corn» cm qualidndc: cla impljca puis a propricdaiie; assim, a primeira limna, o gcrrne reside na íamíliit, onde a mulliur e as críiiiiçus são tjic-ravus dti liHinem. A cscravidão, aiuda ialtnlc c muito mdimciilar na tamília, ú a pri-incira propriudadc.-

No Mcinifesto ComunistQ, de 1848, Marx e Eiigels reafirmam a mesma idenlidadc enlre a opressão da mulher, famflia c propriedadc privada, prcconi-zandn a aboliçãí) da famíliíi como tn&ta dos connmistas.3 Assim, a cnfnse na historicidade das insticuiçõcshumanas pL-rmitii! a compreensão da família comn fenômcno social cm que a divisão socia! do traballio é tainbém uma divisão scxual entre funçães Eemíninas e masculioas, Mais do que isso: abtiu espaço para novos tipos dc projetns e relações eiure os sexos. Com Engels c Marx, as femini.sias da csqucrda eurnpéia, nns anos 1960-70, pudcram construir uma “teoria da oprcssão” e partir para a luta.

A tncgávci influência marxisia nas forniLilaçõcK feministas não significa, por ouiro lado, que o marxinmo possa dar conta por complcto da ‘”qiiestão da mulhcr”. No seu livro Womcn ‘s Estate, cuja primeira edição daía dc 1966. Juliet Mitchell, jovem intclcctiial inglesa do grupo da New Lcft Review, partc da dialélica untrc tis ditamcs da produção ecoiiômica e as contingências do procasso de reprotlução da uspécie para cxplicar a siruação da mullier na socie-dadc. A dialétiea “produçãd-reprodução social”, nos termos da autora, cicfine o lugar da mulher nas socicdades de classe. A mulher c exi^lorada no trabalbo c contlnada à casa. Sua submissão c scu lugar subalternn na vída cconômica seriam compciisados pelo seu poder na família:

A situaçãi) das mu!litrt;s c difuruntc da àti uutros grupos sociais oprimidos: elas são a metade da Jiamatiídadu (…) à mulher é ofcrecido um murido pró-prin: a família. ExplDradas no trabalho, relegadas à casa: estas duas jiosiçõcs CDtnptkm sua oprcssão/

O pctisamcnlo conservador toma a fatnília como uma cntidade supra-his-tórica, uma instilLiição sempre idéntica, na qual as funções c papéis são “natu-




: Marx, K. c Engels, F. Liríóologit? jltcmjndí.: P.iris, Editiuns Soci^les, l’J70, p. 47.

]Mnrx, K, Oeuvrcs. ftris, Pléinde, 1965, p. 17íi.

4 Mitchell, Juliet.U'(jnun’s EstHe. fnj;bnd: Rsnguin Books, 1971, p, 99.




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ralmente” como masculinos e femininos. A ideologia do “natural”, ressalta Juliet Mitchell, visa justamente obscurecer a historicidade da famflia e das funções nela dcsempenhadas pelas mulhercs:

Fala-se da tnulher, da família como se fossem sempre as mesmas (…) Assim, a análise da feminilidade e da família devem scr um todo monolítico: mãe e filho, lugar de mulher (…) seu deslino natural.9

A idéia de destino natural tem de ser “desconstruída” e, nesse sentido, a teoria socialista do passado não chegou a isolar os diferentes elementos da condição feminina que formam uma estrutura complexa e não uma unidade simples. Não é possível reduzir a opressão da mulher a uma única dimensão, como formula Engels, nem mesmo equacioná-la como símbolo da opressão geral, como afírma Marx em seus primeiros escrítos. “É preciso pensá-la como uma estrutura específica, isto é, como unidade de elementos diferenciados”, preconiza Mitchell6.

De fato, as vicissitudes da condição feminina decorrem da complexa dialética entre os papéis e lugares socialmente atríbuídos às mulheres e que dizem respei-to, especialmente, ao lugar na produção dos bens (a esfera da produção), à sexualidade e ao cuidar das crianças. Juliet Mitchell constata os limites do marxismo para o entendimento das diferenças sexuais e seus componentes psíquicos concluindo que só a psicanálise, como ciência do inconsciente, forne-ce a chave teóríca para a questão das diferenças sexuais. Freud, com a descoberta do inconsciente, revelou a importância da dimensão psíquica, criando um novo continente teóríco7. A psicanálise, na sua dupla dimensão de teoria e de prática ctínica, nos ajuda a entender como “a mulher torna-se mulher”. E o “ser mulher” passa pela subjetividade, por processos psfquicos através dos quais construímos um “eu”, mais ou menos estruturado.8 Desta maneira, o feminismo radical dos anos 70 apropriou-se não somente do marxismo como teoria revolucionáría -falava-se da “libertação feminina” – como da psicanálise e do amplo caminho aberto pela descoberta dos processos do inconsciente humano.




5ldem,p. 100. «Idemp. 167




7 Althussef, Louis, Fretid e Lacan e Marx e Freud, 3â ed. São ftiulo, Graal, 1991.

O íeminismo lambém colaborou em novas orienlaçõcs para o estudo da psicanálise, especialmcnte referidas ao esclarecimenlo do “conlinenle negro” da feminilidade. Hoje existe uma exlraordinária pletora de bcns esludos sobre o lema, como é o caso de Emilce Bleichmar e seu livro O fcminismo espontâneo da hisleria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.

8 Foge do escopo desta exposiçâo a questão da psicanálise, ccmo teoria e como prática cllnica. No entanto, constilui, a meu ver, uma conlribuição indispensável para pensarmos a questão da “opres-são específica da mulher”.




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