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Terminou a visita de Ilan Pappé, professor universitário e professor de História de nacionalidade israelense, a São Paulo (Brasil), convidado pela Editora Sundermann.

Por: Alejandro Iturbe

Por meio de seu principal livro (A limpeza étnica de Palestina, que a Sundermann acaba de publicar em português), Pappé se transformou em uma referência para todos aqueles que defendem ou querem conhecer a verdade histórica sobre a criação do Estado de Israel em 1948 e o significado trágico que este fato teve para o povo palestino.

Em suas apresentações, contou como, em sua tarefa de historiador israelense, foi descobrindo essa verdade: que, ao contrário da lenda do sionismo, Israel não fora criado entregando “uma terra sem povo para um povo sem terra”, mas como resultado de um plano sistemático de perseguição e expulsão da imensa maioria dos habitantes deste território (o povo palestino dessa região), por meio de métodos violentos que incluíam a destruição de povoados, plantações e massacres, como aconteceu em Deir Yassin. Que, por esse plano, uma minoria de colonos estabelecidos se apropriou, em poucos anos, de mais da metade do território palestino e expulsou 800 mil habitantes (a metade da população palestina da época), originando a diáspora e o exílio obrigatório. Tudo isso com o objetivo de criar um Estado cuja essência é ser um enclave colonial a serviço do imperialismo. E que tudo foi sancionado e endossado pela ONU (com o apoio da burocracia estalinista), em suas resoluções de 1947.

A descoberta dessa verdade marcaria sua vida: começou a apoiar as reivindicações e demandas do povo palestino. Sua honestidade intelectual e a firmeza com que defendeu suas convicções lhe custaram duras críticas de todas as correntes do sionismo e causaram o início da perseguição contra ele: a Knesset (Parlamento israelense) votou uma condenação contra suas posições, Pappé foi demitido de seu cargo de professor na Universidade de Haifa e começou a receber ameaças telefônicas permanentemente.

Finalmente, em 2007, exilou-se na Inglaterra, onde atualmente é professor na Universidade de Exeter e diretor do Centro de Estudos Europeus sobre Palestina. Também é um ativo impulsionador da campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra o Estado de Israel e seus crimes.

No Brasil, nos poucos dias que durou sua visita, desenvolveu uma apertada agenda de atividades: palestras na USP (Universidade de São Paulo), na PUC (Pontifícia Universidade Católica) e na Unicamp (Universidade de Campinas). Além disso, apresentou seu livro na tradicional livraria Martins Fontes e participou de um jantar de confraternização com representantes da comunidade palestina em São Paulo. Neste evento, o dirigente desta comunidade saudou sua presença com um discurso em árabe e Pappé respondeu-lhe no mesmo idioma, uma demonstração de seu profundo respeito por este povo e sua cultura.

Nas diversas atividades, Pappé foi acompanhado por Miguel Ibarlucía (representante da Cátedra Livre Eduardo Said da Universidade de Buenos Aires) e Sorayah Misleh (da coordenação do BDS no Brasil e militante do PSTU).

Por outro lado, tivemos oportunidade de conhecê-lo um pouco mais profundamente e descobrir um homem humilde, amável e com muito bom humor (cheio de anedotas e piadas), presentes em todos os momentos de suas intensas atividades.

Com Pappé partilhamos muitas concordâncias: o apoio ao povo palestino, a defesa da verdade sobre a criação de Israel e o significado da existência deste Estado, com a convicção de que não haverá paz na região enquanto ele exista, que a chamada proposta dos “dois Estados” é um caminho falso e inviável e que a única saída possível é a criação de uma Palestina Laica e Democrática em todo seu território histórico, para o qual os palestinos expulsos e suas famílias possam retornar às suas terras, e os árabes e os judeus que aceitem esta solução possam viver em paz.

Agora, acabamos de conhecer ao homem que defende estas ideias. Estamos orgulhosos disto e de ter sido parte de sua visita ao Brasil.

Tradução: Rosangela Botelho