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“Vencer no Pinheirinho é dar um exemplo de que a luta por moradia é possível”


(Marrom, dirigente da ocupação)


 


As cerca de 1.200 famílias da ocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), enfrentam a ameaça de ver suas casas demolidas. Algo que, mais uma vez, só pode ser impedido com muita solidariedade e mobilização. O Opinião Socialista entrevistou Valdir Martins, o “Marrom”, dirigente do Must, que nos falou sobre a importância da luta no Pinheirinho e os próximos passos em defesa da ocupação.


 


Opinião Socialista – Antes de mais nada, nos fale um pouco sobre o que está em jogo nesta luta, ou seja, sobre como é a vida no Pinheirinho, quase três anos depois do início da ocupação?
Marrom –
Hoje, o Pinheirinho abriga cerca de seis mil pessoas. Gente que transformou uma área completamente abandonada em um exemplo de comunidade. Para se ter uma idéia, vale lembrar que a própria Polícia Militar afirma que, aqui, há o menor índice de violência na região. Ao invés de “tolerância zero”, vivemos no clima de “violência zero”. Em quase três anos, que serão completados, temos certeza, em fevereiro de 2007, não foi registrado um único acidente fatal ou caso de roubo. E, em todos aspectos possíveis, o que temos visto é um exemplo de como os trabalhadores e o povo pobre pode se organizar para conquistar melhores condições de vida. Apesar das condições ainda serem bastante difíceis, os moradores estão construindo uma nova vida, com tudo que têm direito: bailes e festas para a juventude, que acontecem sempre, o surgimento de locais de comércio, que oferecem empregos para os moradores, espaços tranqüilo para a criançada brincar e apreender.


 


Como vocês chegaram a esta situação?


Marrom – Através da organização e da luta. Dentro do Pinheirinho, temos uma coordenação formada por catorze pessoas. Não por acaso, dez delas são mulheres, que tem desempenhado um papel fundamental na comunidade. É graças a essa coordenação que, hoje, os moradores comemoram o fato de poder viver num local tranqüilo e, acima de tudo, estarem usando o dinheiro que antes teria que ser gasto com o aluguel para alimentar a si próprios e seus filhos. É bonito ver como as coisas funcionam. Há comissões para tudo: para a segurança, a educação, informações etc. Além disso, estamos procurando parcerias com movimentos sociais e outras entidades para melhorar ainda mais a situação.


 


Que tipo de parceria?


Marrom – Por exemplo, estudantes de universidades federais de Lavras (MG) e do Rio de Janeiro estão desenvolvendo um projeto de preservação ecológica junto aos moradores; um pessoal da USP, do Projeto Polis, está trabalhando num projeto arquitetônico para a ocupação e, recentemente, procuramos tivemos uma reunião com o escritório do Oscar Niemeyer, para discutir a construção de um centro comunitário. Aliás, acho que tudo isto é o que tem acirrado o ódio das autoridades locais contra nós. Numa cidade em que a falta de moradias atinge quase 25 mil pessoas e onde o atual prefeito prometeu construir 4 mil casas, mas não chegou a erguer nem 300, o Pinheirinho tem se transformado numa referência. Não só para região, mas até para gente do exterior. Tanto é assim, que já fomos visitados por entidades de quase toda América Latina e de vários países europeus.


 


Como os moradores estão vendo a nova ameaça?
Marrom –
Acima de tudo com disposição para resistir. Da forma que for necessário. Andando pelas ruas do Pinheirinho é fácil ver isto. Às vezes de uma forma desesperada: crianças nos procuram para dizer que não querem passar o Natal na rua e mães já disseram que preferem atear fogo em seus barracos do que vê-los ser derrubados pela polícia. Mas, acima de qualquer desespero, o que se vê é a vontade de lutar e a certeza da vitória. Toda ocupação está coalhada de bandeiras vermelhas, faixas e cartazes; as reuniões acontecem diariamente e não faltam voluntários para trabalhar na campanha. Até as tradicionais árvores de Natal, aqui no Pinheirinho, ganharam decoração especial, com nossas bandeiras de luta.


 


Quanto à campanha, o que está sendo feito?


Marrom – Nas reuniões que tivemos nas últimas semanas, decididos fazer uma ofensiva maior. Estamos programando novas marchas, vamos procurar as autoridades locais e, além disso, estamos encaminhando várias iniciativas de solidariedade, com todos que estejam dispostos a defender o direito dos moradores. Neste fim de semana, por exemplo, panfletamos as igrejas da região e conseguimos agendar uma visita de Dom Moacir Silva, o bispo da região, à ocupação. Também percorremos as escolas e estamos trabalhando com uma “Carta Aberta”, que está sendo distribuída para a população. Para vocês terem uma idéia, até supermercados ao redor do Pinheirinho estão colocando cartazes em apóio à nossa luta.


 


Qual tem sido a importância da solidariedade de outras entidades nesta luta?


Marrom – Total. O Sindicato dos Metalúrgicos, que tem sido um aliado de primeira-linha. Essa semana, depois da nova ameaça, os sindicalistas, além de participarem ativamente de todas atividades e reuniões, vão colocar, em todas as rádios e jornais da região, mensagens em apoio à nossa luta. Também todos os boletins que estão sendo distribuídos na base, trazem a discussão sobre a necessidade dos metalúrgicos se juntarem nesta luta. Algo que também está acontecendo não só nas demais entidades sindicais da região, como também em movimentos como o MST e a Central dos Movimentos Populares.


 


O que mais tem sido feito?


Marrom – Estamos lutando com todas as armas disponíveis. Vamos procurar, novamente, o Ministério das Cidades do governo federal, para exigir que eles intervenham no processo,


 


O Pinheirinho já resistiu a umas tantas outras ameaças. Qual é o real perigo, agora?
Marrom –
É enorme. O prefeito está fazendo muita pressão para que o comandante da polícia local coloque os barracos abaixo, como já foi aprovado. Algo que, segundo o próprio comandante, porque o espaço ocupado é muito grande e a organização maior ainda.


 


Na sua opinião, qual é a importância desta luta?


Marrom – O Pinheirinho abriu um espaço muito grande na luta pela moradia na região e no país. Numa região onde já vários condomínios de luxo, sendo que somente dois deles são regularizados, e há mais de 140 loteamentos “clandestinos”, nossa ocupação se transformou numa referência. Não só pela forma que nos organizamos, mas principalmente pelo significado de nossa luta no combate a um sistema que joga milhões de trabalhadores para as ruas e para debaixo das pontes. Em São José, o Pinheirinho é um desafio aberto contra o projeto de “higienização” social que foi projetado pelos tucanos. Essa idéia neoliberal e nojenta de “limpar” as favelas, expulsando seus moradores para as áreas mais distantes possíveis. Vencer aqui é dar ao Brasil um exemplo de que a luta por moradia e condições dignas de vida não só é necessária e justa, mas também é possível.


 


Entre em contato para apoiar a ocupação


Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos


(12) 3946.5333 – sindmetalsjc@sindmetalsjc.org.br