“Seriam talvez quatro horas da manhã. E vi
imediatamente na baía, frente a mim, navios de
guerra, todos de aço, que se dirigiam em fila para
a saída do porto. Reconheci o encouraçado Minas Gerais que
abria a marcha. Seguiam-no o São Paulo e mais outro. E todos
ostentavam, numa verga do mastro dianteiro, uma pequenina
bandeira triangular vermelha. Eu estava diante da revolução.
(…) de repente vi acender-se um ponto no costado do Minas e um
estrondo ecoou perto de mim, acordando a cidade. Novo ponto
de fogo, novo estrondo. Um estilhaço de granada bateu perto,
num poste da Light. (…) Naquele minuto-século, esperava me
ver soterrado, pois parecia ser eu a própria mira do bombardeio.
(…) Era contra a chibata e a carne podre que se levantavam os
soldados do mar. (…) Quando mais tarde assisti à exibição do
filme soviético Encouraçado Potemkin, vi como se ligavam às
mesmas reivindicações os marujos russos e brasileiros”

Oswald de Andrade, poeta e escritor

Por: Elisa Guimarães – PSTU Rio de Janeiro/Brasil

Em 1910, os aviões começavam a alçar os primeiros voos. Um ano depois, foram usados pela primeira vez como arma de guerra pela Itália contra a Turquia. Porém, os navios de guerra com seus canhões eram ainda as armas mais poderosas existentes na época. Esses navios, grandes encouraçados, tinham capacidade para destruir cidades inteiras e foram tomados pelos marinheiros, que dirigiram seu ultimato ao recém-empossado presidente da República, Hermes da Fonseca, num comunicado:

“Nós, marinheiros (…), não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira (…) rompemos o negro véu que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo. Achando se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais (…) mandamos esta honrada mensagem para que V. Exa. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo (…). Tem V. Exa. o prazo de doze (12) horas para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada. Bordo do Encouraçado ‘São Paulo’ em 22 de novembro de 1910. (…) Marinheiros.”

Apoio e castigo

O Rio de Janeiro era a maior cidade brasileira em 1910. Contava com cerca de 812 mil habitantes. Perante a ação dos marinheiros que colocaram lenços vermelhos no pescoço e ameaçaram bombardear a capital, parte da população, a que tinha recursos para isso, fugiu do centro da cidade para os subúrbios ou Petrópolis, enquanto outros correram para o cais para acompanhar o movimento, demonstrando simpatia e solidariedade aos marinheiros rebelados.

Eram, na sua maioria, negros e pobres, como os marujos, decepcionados com o governo republicano que não melhorou suas vidas. Ao contrário, os excluiu e criminalizou. O governo republicano, que ia supostamente civilizar a capital, prendeu os pobres por “vadiagem” e derrubou suas casas.

O governo que ia civilizar a Marinha modernizando sua frota, criou, em 12 de abril de 1890, com o Decreto 328 de Deodoro da Fonseca, a Companhia Correcional na Marinha, reintroduzindo o castigo físico que havia sido abolido em 16 de novembro de 1889. Cedeu às exigências da oficialidade branca que considerava a chibata indispensável para a manutenção da disciplina a bordo.

Um abismo de raça e classe

Na hierarquia da Marinha, existia um abismo de raça e classe: de um lado, uma massa de marinheiros e praças negros filhos de escravos libertos, como João Cândido; do outro, uma pequena porção de oficiais brancos filhos de proprietários de terras.

Os marinheiros dos encouraçados constituíam um proletariado embarcado que contava com trabalhadores especializados: artilheiros, eletricistas, foguistas, mecânicos, Timoneiros, telegrafistas etc. Submetidos a um regime de trabalho desumano, se insubordinavam, e as punições se tornavam cada vez mais duras.

A duração dos castigos ficava a critério dos oficiais e, não raro, ultrapassavam muito o limite de 25 chibatadas. O marujo castigado tinha os vencimentos reduzidos à metade, era rebaixado de posto e poderia ficar detido por meses. A situação se tornou insuportável. “Tinha-se tornado impossível a vida a bordo. Só em um dia, por esse tempo, a bordo do ‘Minas Gerais’, foram chibatados nada menos que 42 marinheiros. Foi só então que se resolveu tomar providência para fazer cessar esse estado de coisas, ficou assente tomar-se por meios violentos as providências”, escreveu João Cândido, líder da revolta.

“O verdadeiro navio negreiro”

Embora as reivindicações dos marinheiros incluíssem aumento de salários, redução da jornada com uma nova tabela de serviços e educação dos marinheiros, o fim dos castigos físicos ganhou centralidade durante o movimento. O deputado escolhido como interlocutor junto aos amotinados, tendo testemunhado os efeitos do açoite, anunciou na Câmara que as costas do marujo Marcelino pareciam “as de uma tainha pronta para ser salgada”.

A imagem de marinheiros negros sendo amarrados e açoitados na presença de seus pares repercutiu na imprensa: “(…) é doloroso sim, ver-se a nossa marinha de hoje passar fome e todas as privações (…). Os nossos pobres marinheiros e foguistas vieram como verdadeiros escravos, passando fome e sendo constantemente castigados com os ferros, a chibata e o bolo (…) estes coitados, faziam 6 horas de quarto e não tinham o direito ao descanso que, pela lei, lhes toca, porque eram logo chamados para outros serviços. O verdadeiro navio negreiro”, de nunciou “um marinheiro” em carta publicada no Correio da Manhã (25/11/1910).

Nos cinco dias em que os navios de guerra estiveram sob o total controle dos marinheiros, a denúncia da situação dos marujos ganhou todo o mundo, revelando que o racismo no convés os tornava verdadeiros escravos dos oficiais brancos. Não por acaso, o fim dos castigos físicos ocuparia papel de destaque nas reivindicações dos marinheiros rebelados.

Preparação da revolta

A revolta não foi espontânea. Há registros de várias reuniões ocorridas em segredo para preparar a tomada dos navios pelos marinheiros. Foi uma ação organizada por um setor explorado e oprimido, como relata João Cândido: “Pensamos no dia 15 de novembro. Acontece que caiu forte temporal sobre a parada militar e o desfile naval. A marujada ficou cansada e muitos rapazes tiveram permissão para ir à terra. Ficou combinado, então, que a revolta seria entre 24 e 25. Mas o castigo de 250 chibatadas no Marcelino Rodrigues precipitou tudo. O Comitê Geral resolveu, por unanimidade, deflagrar o movimento no dia 22. O sinal seria a chamada da corneta das 22 horas. (…) Não houve afobação. Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante. Às 22h50, quando cessou a luta no convés, mandei disparar um tiro de canhão, sinal combinado para chamar à fala os navios comprometidos. Quem primeiro respondeu foi o ‘São Paulo’, seguido do ‘Bahia’. (…) Expedi um rádio para o Catete informando que a Esquadra estava levantada para acabar com os castigos corporais.”

Prisões

Sem ter como enfrentar os marinheiros e seus canhões, o governo republicano foi obrigado a negociar e anunciou o fim dos castigos físicos e a anistia para os rebeldes. Entretanto, com a retomada do controle sobre os navios de guerra, a anistia foi desrespeitada. Dois dias após o término da revolta, foi assinado um decreto que permitiu a exclusão dos marinheiros da marinha. Iniciaram-se as prisões.

Um dos capítulos mais importantes da história do Brasil

Em dezembro, o início de uma revolta no Batalhão Naval da Ilha das Cobras foi duramente reprimido. Foi decretado estado de sítio. Mais de cem marinheiros foram enviados para o Acre num navio junto a outros detentos. Dezenas foram fuzilados. Não foi esse o destino de João Cândido, líder da revolta.

Cândido foi preso com outros 17 marinheiros numa cela na Ilha das Cobras, onde jogaram cal para envenená-los. Morreram sufocados 16 marinheiros. “Depois da retirada dos cadáveres, comecei a ouvir gemidos dos meus companheiros mortos, quando não via os infelizes, em agonia, gritando desesperadamente, rolando pelo chão de barro úmido e envoltos em verdadeiras nuvens da cal. A cena dantesca jamais saiu dos meus olhos”, disse Cândido ao jornalista Edgar Morel.

Símbolo

O líder da rebelião sobreviveu e sofreu intensa perseguição por toda vida, sendo internado num hospital psiquiátrico e demitido de todos os empregos pelos quais passou, sem jamais ter qualquer reparação do Estado.

Apesar da violenta repressão ocorrida após a anistia, com centenas de presos, dezenas de mortos e 1.200 expulsos da corporação, os castigos físicos foram extirpados da Marinha como resultado da rebelião dos marinheiros negros.

João Cândido se tornou um símbolo da resistência negra, e a Revolta da Chibata, a revolta dos marinheiros negros, um dos capítulos mais importantes da história do Brasil. Os revoltosos são heróis que nos ensinaram que, para conquistar justiça e liberdade, é preciso voltar nossos canhões contra os membros da elite e os poderes constituídos.

Anistia sem indenização

Em 2008, depois de muita pressão dos movimentos negros, João Cândido e seus companheiros receberam uma anistia post mortem. Ainda assim, sua reintegração à Marinha e a reparação financeira à qual seus herdeiros tinham direito foram vetadas de forma vergonhosa pelo governo Lula, que se curvou diante das pressões feitas pelos ministérios da Defesa, da Fazenda e do Planejamento.

Apesar da recusa do governo e do fato de que eles tenham sido praticamente apagados dos livros das salas de aula, a Revolta da Chibata não só está gravada “nas pedras pisadas dos cais”, como diz a bela música de Aldir Blanc e João Bosco, como revive nas lutas de todos os explorados e oprimidos, em especial dos negros e negras.

PARA LER

Modernização do material e do pessoal da Marinha nas vésperas da revolta dos marujos de 1910: modelos e contradições
Silvia Capanema P. Almeida

1910: a revolta dos Marinheiros. Uma saga negra
Mário Maestri

A revolta da chibata
Edmar Morel

PARA ASSISTIR

O Encouraçado Potemkin
Sergei Einsenstein. Rússia, 1925
Em 1909, um ano antes da Revolta da Chibata, tomou-se conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros russos em 1905, no encouraçado Potemkin. Eles reivindicavam melhores condições de trabalho e alimentação.