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Política de repressão ao tráfico só vale para pobre e negro.

Por PSTU-Brasil

A prisão do sargento da Aeronáutica que integrava a comitiva presidencial de Bolsonaro, com 39 quilos de cocaína, no aeroporto de Sevilha na Espanha, expõe toda a hipocrisia da chamada “guerra às drogas” praticada exclusivamente contra a população jovem e negra das periferias.

O militar foi detido nesta terça-feira quando o avião em que viajava, da FAB (Força Aérea Brasileira) fez escala na Espanha com destino final ao Japão. O avião acompanharia a viagem oficial do presidente Bolsonaro ao Japão para a reunião do G20. Após a prisão, Bolsonaro, que vinha logo em seguida, alterou sua rota e pousou em Lisboa. A droga teria sido encontrada na bagagem de mão do militar detido. Segundo o próprio vice-presidente, Hamilton Mourão, o sargento traficante voltaria da viagem no mesmo avião que Bolsonaro.

A reação de Bolsonaro foi protocolar, através de uma curta mensagem no twitter. Bem diferente, por exemplo, da “moção de congratulações” que, quando deputado, enviou ao presidente da Indonésia quando o governo daquele país confirmou a execução de Marco Archer, brasileiro preso quando tentava entrar no arquipélago com 13 kg de cocaína. Archer foi fuzilado em 2015. “Caso no Brasil este mesmo crime fosse punido com pena de morte muitas vidas de inocentes seriam poupadas“, diz trecho da carta de Bolsonaro, que parabeniza o presidente indonésio.

O que Bolsonaro não diz é que a pena de morte para o tráfico de drogas existe sim no Brasil. Mas não para milicianos que integram seu governo e círculo pessoal, ou os grandes traficantes, e sim para a população pobre, sobretudo jovens e negros que, sem empregos ou perspectiva de futuro, são empurrados para o crime. E, diante da justificativa da “guerra às drogas”, são abatidos aos montes pela polícia.

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No Brasil, a repressão ao tráfico é desculpa para reprimir pobre nos morros e favelas, esculachar a população, matar e o encarceramento em massa. O país tem a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 726 mil presos, segundo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen). Quase metade sem ter sido julgada nem mesmo na primeira instância. Mais da metade desses presos são jovens de 18 a 29 anos, e 64% negros.

Situação que o governo Bolsonaro quer aprofundar com, por exemplo, o pacote “anticrime” de Sérgio Moro, que libera a polícia para matar sem qualquer chance de punição. Ou a própria política armamentista de Bolsonaro, cujo objetivo é o de armar a classe média e os milicianos.

Nunca foi contra as drogas
Não é a primeira vez que a FAB se envolve em tráfico internacional de drogas. Em 1999 um avião da Força Aérea transportava 33 quilos de cocaína à França. Música do raper Sabotage já denunciava, em 2000: “Quem tá no erro sabe/cocaína no avião da FAB“. É público e notório que o tráfico só existe porque há o grande traficante com tentáculos em praticamente todas áreas do Estado: polícia, Justiça… e as Forças Armadas.

A quantidade e a tranquilidade com que o sargento carregava a droga mostra a certeza de impunidade e cumplicidade dos órgãos de Estado. Só foi preso por conta da polícia espanhola. Alguém se lembra do helicóptero apreendido com 450 quilos de pasta de coca em uma fazenda da família Perrella, em Minas, aliada de Aécio Neves? Ninguém foi preso, a Justiça fez vistas grossas e ficou tudo por isso mesmo.

A política de repressão contra o tráfico de drogas nunca foi, de fato, contra as drogas. É uma guerra contra os pobres e a população negra desse país. Fora isso, é discurso hipócrita de quem tem culpa no cartório. Por isso é urgente descriminalizar as drogas, desmilitarizar a Polícia Militar e acabar com o genocídio e o encarceramento da população negra.