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Há várias décadas, o movimento negro constrói uma forte batalha pelo significado do dia 13 de maio como um dia de denúncia e não de comemoração dessa falsa abolição. Fomos o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, fruto da combinação das importantes lutas do povo negro e dos abolicionistas com as contradições do próprio sistema escravista, vinculado à pressão externa pela abolição. Não temos nada pelo que agradecer à princesa Isabel. Portanto, comemorar essa data seria postular que o Estado brasileiro redimiu a população negra do crime que foi a escravidão e o racismo. O que nem de longe ocorreu.

Por: Rebeldia Rio de Janeiro e Mineração

Ainda hoje, há descendente da família real portuguesa tentando nos fazer acreditar que a escravidão acabou por conta de uma bondade orquestrada pela princesa Isabel. Por incrível que pareça, os deputados Eduardo Bolsonaro, Luiz Philippe de Orleans e Bragança e Delegado Waldir (todos do PSL) estão organizando uma sessão solene na Câmara dos Deputados em homenagem à princesa Isabel. Nem mesmo eles têm saldo suficiente em conta para debitar essa vergonha!

No início da colonização, propagava-se a tese de que os africanos eram “amaldiçoados” e isso foi fundamental para desenvolver a base de sustentação de qualquer sistema escravocrata: a violência sem limites. Seguimos sofrendo com a violência de um Estado racista, que reserva a nós, negros e negras, os piores salários, as moradias mais precárias, com pouca ou nenhuma qualidade de vida. Somos o endereço certo das balas nada perdidas da polícia.

Sabemos que a abolição veio sem qualquer reparação histórica. Pelo contrário, as massas negras foram jogadas nos piores postos de trabalhos, à marginalização nas periferias, enquanto que eram sujeitas ao racismo estrutural inclusive com o extermínio fantasiado de mentira com a falsa guerra às drogas. A importância dos métodos de luta dos negros foram apagadas pela falsa ideologia do Brasil como um paraíso racial, que hoje é utilizada inclusive pelo racista do Bolsonaro como justificativa de atacar e deslegitimar como balbúrdia as lutas do povo negro.

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Existem dados de variadas pesquisas que apontam os impactos do racismo e do capitalismo na vida das negras e negros do nosso país. O Atlas da Violência 2018 nos mostra que a desigualdade das mortes violentas por raça/cor vêm se acentuando nos últimos dez anos. Enquanto a taxa de homicídios de indivíduos não negros diminuiu 6,8%, a da população negra aumentou 23,1%. O relatório concluiu que 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

Família de Evaldo, assassinado pelo Exército no Rio

O Atlas demonstra ainda que o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 2,7 vezes maior que o de um jovem branco, pontuando que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública identificou que 76,2% das vítimas de atuação da polícia são negras.

Com relação às mulheres, a publicação mostrou ainda que a taxa de homicídios é maior entre as mulheres negras (5,3) que entre as não negras (3,1), sendo a diferença de 71%. Nos últimos 10 anos, a taxa de homicídios para cada 100 mil mulheres negras aumentou 15,4%, enquanto que, entre as não negras, houve uma diminuição de 8%.

Em Roraima, entre 2006 e 2016, o número de mulheres indígenas mortas foi 98. A ONG Human Rights Watch (2017) apontou Roraima como o estado mais letal para mulheres e meninas no Brasil. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi, 2017) completa, afirmando que é a UF que teve o maior número de vítimas indígenas assassinadas.

Os dados acima contradizem firmemente a frase “O racismo é uma coisa rara no Brasil”, dita por Bolsonaro durante uma entrevista realizada na semana passada. As milhões de Cláudias, DGs, Amarildos, Evaldos e Lucianos não nos deixam esquecer o quanto o racismo, aliado à exploração capitalista, nos custa todos os dias.

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Por tudo isso, precisamos aquilombar a Greve Nacional da Educação no dia 15 de maio, e a Greve Geral de 14 de junho. Unificar a juventude e a classe trabalhadora na luta contra a reforma da Previdência, pela necessidade de barrar os ataques ao ensino público superior e básico. Mais do que nunca, é imprescindível a defesa das cotas e das ações afirmativas. Jamais permitiremos que essa vitória do movimento negro seja apagada!

Por último, porém não menos importante, devemos lutar pelo fim do genocídio do povo negro e pela desmilitarização da polícia – que ela seja unificada sob controle popular das comunidades a quem ela deveria servir.