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O próximo 24 de março não será um dia a mais. Não só porque serão cumpridos 40 anos do início da Ditadura Militar, mas porque este aniversario nos encontra em uma situação na qual o governo Macri, os governos estaduais e as patronais querem descarregar a crise sobre nossas costas, com demissões e salários cada vez mais reduzidos, e para fazer isso não duvidam em reprimir as mobilizações. Essa questão não se dá somente na Argentina, já que a crise econômica é mundial e por isso, não por acaso, o presidente ianque Barack Obama estará visitando o nosso país para dar apoio aos planos de Macri, que tanto o beneficia.

Por: Cristian Napia

O ajuste do governo…

Desde que o governo anunciou o fim do cepo[1] e liberou o dólar, a desvalorização chega a 60%. Isso tem um impacto direto no bolso dos trabalhadores, já que a desvalorização, como a inflação, é uma das vias que os empresários têm para rebaixar os salários. Como tudo aumentou, com o mesmo salário podemos comprar menos que antes.

Além disso, com mais repressão e o protocolo Antiprotesto nas mãos, o Governo busca impor tetos salariais 30% menores para fechar as campanhas salariais niveladas por baixo, enquanto avança com as demissões no Estado e no setor privado. Segundo dados de consultorias, entre janeiro e fevereiro, 100 mil postos de trabalhos foram perdidos. A UOCRA[2], por sua vez, anunciou que desde novembro já foram fechados mais de 50 mil postos de trabalho na construção.

A principal razão é a paralisação das obras públicas. Isso significa que, enquanto favorece as grandes construtoras que realizam fabulosos negócios imobiliários, o investimento do Estado em obras públicas e infraestrutura para construir casas e melhorar a qualidade de vida da população não existe. Enquanto aplicam “tarifaços”[3] nos serviços públicos, cortam a luz e fortes chuvas inundam tudo.

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… com a cumplicidade da burocracia sindical.

É claro que, para tudo isso, o Governo conta com a cumplicidade da burocracia das centrais sindicais, que tremem de medo e deixam os trabalhadores lutando e defendendo seus postos de trabalhos sozinhos. Assim o fez a CTERA[4], que fechou o piso nacional docente como queria o governo, abandonando as províncias que ainda estão lutando isoladamente para romper o teto que querem lhes impor. Por outro lado, a burocracia do Comércio, SMATA[5] e outras associações fecharam aumentos que não superam nem os 20%, uma soma que, além de não levar em conta a inflação do verão, não cobre nem a inflação projetada para os próximos meses. Moyano, Caló, Barrionuevo, Micheli e Yasky, no melhor dos casos, limitam-se a dar alguma declaração ou a tirar fotos mostrando-se unidos, mas não pensam em convocar uma mobilização ou paralisação para enfrentar as demissões e lutar por salário.  Por isso, não deram continuação à grande mobilização dos estaduais feita no dia 24 de fevereiro.

Todos estes ataques que sofrem os trabalhadores em nosso país são os mesmos ataques que sofrem os trabalhadores no nosso continente. São os planos que têm governos latino-americanos, submetidos aos ditames imperialistas para saciar sua sede de lucro.

O triunfo de Macri em nosso país encorajou as multinacionais que começaram a despedir e extorquir os trabalhadores, fazendo com que se conformem com seu salário. Também encorajou o imperialismo, que na figura de Obama visita nosso país, no dia 24 de março, para apoiar o governo anti-trabalhadores de Macri e os empresários.

Há 40 anos do Golpe: unidade para enfrentar o ajuste e a repressão

Diante dessa situação, que representa um verdadeiro salto no ajuste, roubo e repressão, os trabalhadores necessitam da mais ampla unidade.

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Por isso, neste 24 de março, temos de marchar todos à Praça de Maio e a todas as praças do país em uma marcha unitária de todos os que estão dispostos a lutar contra os planos de Obama e Macri. Há 40 anos do Golpe de Estado, temos que nos mobilizar para exigir o julgamento e punição dos militares e cúmplices do Golpe e para enfrentar os planos de ajuste que querem impor hoje, como na época da ditadura militar, para beneficiar os empresários, as multinacionais e o imperialismo.

Essa necessidade do conjunto dos trabalhadores e setores populares, de lutar de maneira unificada, não pode estar submetida às diferenças políticas e estratégicas das distintas organizações que marcharão.

Nossos leitores podem ver claramente em nossos artigos as profundas diferenças que temos com todos os setores kichneristas e as polêmicas que temos com outros partidos de esquerda. No entanto, nada disso nos impede de convergir em uma convocatória unitária que repudie e exija o julgamento e punição para os responsáveis do Golpe, pelos 30 mil demitidos, o repudio à visita de Obama e o chamado a enfrentar as demissões e romper o teto salarial do governo de Macri. Essa é a melhor forma de homenagear os 30.000 desaparecidos, aproveitando a oportunidade para enfrentar os planos de ajuste, roubo e repressão na mais ampla unidade.

Notas:

[1] O “cepo” surgiu na Argentina em 2011 e consistia em uma série de medidas restritivas adotadas pelo governo para evitar a compra do dólar. [nota da tradução]

[2] Sigla de Unión Obrera de la Construcción de la República Argentina (União de operários da Construção da República Argentina) [nota da tradução]

[3] Fortes aumentos tarifários e de impostos [nota da tradução]

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[4] Sigla de Confederación de Trabajadores de la Educación de la República Argentina (Confederação dos Trabalhadores da Educação da República Argentina) [nota da tradução]

[5] Sigla de Sindicato de Mecánicos y Afines del Transporte Automotor de la República Argentina (Sindicato de Mecânicos e Afins do Transporte Automotor da República Argentina) [nota da tradução]

Tradução: Rielda Alves