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Um novo programa de mídia da atriz e cantora Jimena Barón acendeu o pavio de um antigo debate que divide a vanguarda do movimento de mulheres: a questão da prostituição.

Por: PSTU-Argentina

Abolir ou regular a prostituição parecem ser as opções. Diante do debate, nenhum setor vai diretamente às raízes da questão, muito menos como enfrentar as causas que levam milhões de mulheres / trans e travestis a serem obrigadas a vender seus corpos para sobreviver neste mundo.

Não é um trabalho, é escravidão sexual

Em todos os setores, nos vendem a prostituição como o ofício mais antigo do mundo. Mas não é um ofício e nem sempre existiu. A prostituição existe e se consolida ao mesmo tempo em que os homens precisavam garantir a herança de suas propriedades e, para isso, era necessário saber de quem eram os filhos que herdariam.

Este é o momento em que a monogamia triunfa e a linha hereditária passa a ser por parte do pai e não da mãe. É a queda e a destruição do direito materno e, portanto, uma derrota para as mulheres, que foram confinadas a meras reprodutoras e criadoras de filhos. Ou seja, a monogamia anda de mãos dadas com a consolidação da propriedade privada nas mãos dos homens.

Como contrapartida da monogamia obrigatória para as mulheres, esses mesmos homens reservam para si mesmos, o direito e a necessidade de contar com outras mulheres que possam satisfazer seus desejos sexuais não reprodutivos.

É assim que, de uma maneira ou de outra, as mulheres ficaram atadas às necessidades dos homens, que assumiram o controle de nossas vidas, seja nos convertendo em donas de casa prontas para dar à luz, fiéis e escravizadas nas tarefas domésticas, ou como objeto de compra e venda sexual, degradadas e utilizadas como “coisas” usadas e descartadas.

Dessa forma, se apoderaram de nossa força criativa, de nosso desejo e também de nossa capacidade produtiva, nos rebaixando à categoria de objeto.

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Alguns setores postulam que, como tudo neste sistema, a força de trabalho é vendida por dinheiro e, portanto, o que eles chamam de “trabalho sexual” se enquadra nessa categoria. Portanto, este seria um trabalho que pode ser escolhido livremente, cobrando por isso, mas ao mesmo tempo reivindicando todos os direitos que qualquer trabalhador obtém por qualquer trabalho regular.

Muitas feministas famosas, como Senhorita Bimbo[1] ou Malena Pichot[2], que têm acesso à mídia diariamente, defendem essa posição. Ou a própria Jimena Barón, que se define em favor dos direitos das mulheres. E, com certeza, é honestamente. Talvez elas mesmas, que defendem a prostituição para outras pessoas como uma opção, precisassem se perguntar se a “escolheriam” ou se poderiam sugerir às filhas que se submetessem a essa violência ao longo de suas vidas.

A resposta a essa pergunta pode ser encontrada no depoimento de uma sobrevivente dessa escravidão como Sonia Sánchez, que conta detalhadamente como sofreu estupros coletivos de “boas-vindas”, maus-tratos, espancamentos, gravidezes por estupros de “clientes” e toda uma série de condições que todes nós repudiaríamos se essas coisas ocorressem em qualquer trabalho. Aqui não há nada de livre escolha, nem prevalecem o desejo ou o amor. Não se escolhe o que fazer com o corpo, porque o corpo já não pertence a quem sofre essa violência.

Pobreza e redes de tráfico: como o capitalismo se alimenta delas

Não é por acaso que a prostituição é mais profunda nos setores populares, nas mulheres pobres e marginalizadas ou nos setores trans e travestis, expulses do mercado de trabalho e limitades a sobreviver apenas 35 anos. A necessidade de sustentar um lar, filhos, sobreviver neste sistema apesar de tudo, é muito mais duro nesses setores.

Portanto, por trás da prostituição, não existe livre escolha, mas uma rede gigantesca e milionária de tráfico de pessoas, mulheres, meninas que são capturadas, sequestradas e vendidas para consumo. Em nosso país, o maior número de pessoas sequestradas ou capturadas para o tráfico provém dos setores mais pobres, onde lhes é prometido um futuro de trabalho e a possibilidade de sair da miséria que inunda a elas e à suas famílias diariamente. Este negócio administra fortunas impensáveis ​​no mundo. E aí está o poder: o Estado, a polícia, os políticos que apoiam ou fecham os olhos porque também se beneficiam com esse negócio. É o mesmo sistema capitalista que nos usa como mais uma mercadoria, enchendo assim os bolsos de alguns, mas ao custo de nos tornar descartáveis, sem direitos, quase negando nossa humanidade e nossa possibilidade de escolher e sentir.

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Nesse sentido, a AMMAR (Sindicato de Mulheres Meretrizes) defende o projeto para legalizar e regulamentar a prostituição como trabalho. Uma cortina de fumaça se estende sobre os verdadeiros interesses desta organização, com tantas dirigentes denunciadas e até condenadas por favorecer o tráfico ou o proxenitismo. Talvez aconteça que, mesmo para aquelas que sofreram em seus próprios corpos o terrível que é o tráfico e exploração de pessoas, o sistema e os negócios as contamine com toda a sua podridão, e descarreguem sobre outras o mesmo que esse sistema descarregou sobre elas mesmas.

Nós não embelezamos a escravidão. Chega de prostituição!

É por isso que dizemos que a prostituição é uma das faces mais brutais do capitalismo, a exacerbação da exploração do homem pelo homem, que converte as pessoas em bens de uso e consumo. Somos contra a legalização de um negócio que tira a vida de milhões de mulheres / trans e travestis. Não podemos permitir que cafetões que sequestram, estupram e violentam permanentemente das maneiras mais brutais se tornem empresários gozando da impunidade de um Estado que apenas pede que paguem impostos.

Precisamos lutar para que a prostituição seja eliminada e que ninguém mais sofra suas consequências físicas, econômicas ou psicológicas. Mas a luta não é contra aquelas que exercem a prostituição hoje, e sim por elas e por todas nós. É necessário lutar para que cada mulher e cada trabalhador tenha acesso a uma saúde decente, a se aposentar e, no caso das que agora são perseguidas e criminalizadas por terem que se prostituir, defendê-las diante das forças repressivas, que são cúmplices nos negócios e só buscam mais dinheiro ou fazer sentir seu poder nas ruas.

Temos que exigir do Estado capacitação e trabalho digno para as mulheres. E não mascarar ou embelezar um negócio horrendo com promessas românticas de independência, escolha individual e outros discursos semelhantes que apenas favorecem os negócios de tráfico, escravidão e morte de mulheres da classe trabalhadora e os setores mais pobres e oprimidos do mundo. .

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Lutamos por um mundo socialista, onde não exista exploração ou opressão, onde sejamos verdadeiramente livres para nos relacionar, escolher e desfrutar livremente de nossa sexualidade, além de poder liberar toda nossa capacidade produtiva e criativa.

Abolição da prostituição. Abaixo das redes de tráfico!

Trabalho genuíno para mulheres, trans e travestis. Cota de postos de trabalho já!

Mesmo trabalho, mesmo salário. Treinamento e criação de empregos já!

Que os sindicatos e centrais operárias e estudantis assumam essas reivindicações e lutem por elas!

Não ao pagamento da dívida externa. Dinheiro para trabalho, saúde, educação e para a Emergência contra a violência machista!

[1] Comediante argentina

[2] Comediante, atriz e roteirista feminista argentina.

Tradução: Lena Souza