As eleições para a presidência dos Estados Unidos, que definirá o substituto de Barack Obama, será realizada em 8 de novembro de 2016. Mas a campanha eleitoral já começou. É que lá, antes da disputa entre os candidatos à presidência, ocorrem as chamadas eleições primárias. Nas primárias, cada partido deve escolher seu candidato entre vários pré-candidatos que se apresentam nos 50 estados do país, e recebem votos dos filiados, dos eleitores ou em convenções chamadas “caucus”, de acordo com as regras estabelecidas por cada estado. As eleições primárias ocorrem durante o primeiro semestre do ano eleitoral, e a eleição a presidente ocorre no segundo semestre.

Por Marcos Margarido

Outra particularidade do sistema partidário norte-americano é que, com raras exceções, apenas dois partidos concorrem às eleições nacionais. O Partido Republicano e o Partido Democrata. Não que haja uma lei eleitoral proibindo a participação de outros. Inclusive, há mais de mil candidatos disputando a presidência. No entanto, as campanhas eleitorais consomem centenas de milhões de dólares e apenas estes dois partidos, que representam as grandes multinacionais, os bancos e o aparato militar do país, têm condições de bancar.

Este ano, a campanha eleitoral apresenta grandes sensações. Do lado do Partido Republicano, o candidato multimilionário Donald Trump venceu 3 primárias das 4 já ocorridas, uma verdadeira zebra! Trump defende um programa populista de direita, com um duro ataque aos imigrantes, como a construção de um muro em toda a fronteira com o México (que já existe em parte). E está atraindo setores da classe média e mesmo trabalhadores desesperados com a crise econômica e a falta de perspectiva.

No Partido Democrata existem apenas dois pré-candidatos: a senadora Hillary Clinton e o senador Bernie Sanders. Dos 3 estados onde foram realizadas primárias, Hillary ganhou 2, com poucos votos de diferença, e Sanders ganhou uma com uma boa folga[i]. É dele que vamos falar nesse artigo, pois é considerado um “socialista” pela imprensa e está sendo apoiado por muitos partidos de esquerda nos Estados Unidos – e fora de lá – por causa disso. Mas, será que Sanders é, realmente, um socialista?

Um candidato socialista?

Sanders faz uma campanha eleitoral diferente dos outros candidatos, junto ao povão.  Em vez de festas luxuosas com a participação de milionários para receber doações, Sanders faz comícios populares, com a presença dos trabalhadores e da classe média. Suas principais doações são de sindicatos e pela internet, enquanto a de Hillary Clinton, assim como as dos pré-candidatos do Partido Republicano, são financiadas pelas grandes multinacionais.

Suas críticas ao sistema econômico e à injusta distribuição de renda também têm atraído muito apoio dos sindicatos e dos trabalhadores, como de algumas seções locais da AFL-CIO – a central sindical do país – e, mais recentemente, do Sindicato Nacional dos Enfermeiros Unidos, o maior sindicato de enfermeiros dos EUA.

Além disso, Sanders defende uma reforma trabalhista importante, a EFCA, que tem apoio de todo movimento sindical, mas foi deixada de lado por Obama, em 2010. Esta reforma facilitaria o reconhecimento de novos sindicatos, imporia penalidades pesadas aos patrões que violassem leis trabalhistas e fortaleceria os trabalhadores nas negociações salariais. É vista pelos sindicatos como uma oportunidade única para aumentar o número de associados.

No entanto, a razão principal para o apoio sem precedentes que Sanders está recebendo deve-se à sua plataforma econômica, que inclui medidas como o aumento do salário mínimo para US$15 por hora (até 2020), duas semanas de férias pagas para todos os trabalhadores (não existe regulamentação federal) e licença médica paga até 12 semanas por ano. Como se vê, a legislação trabalhista dos Estados Unidos é bem atrasada, e estas são propostas que o movimento sindical e os socialistas defenderão no caso de serem aprovadas. Sanders também propõe a expansão da Seguridade Social (Previdência Social, que nos Estados Unidos é privada), planos de Paternidade Planejada e o estabelecimento de um sistema único de saúde.

Essas seriam conquistas concretas para os trabalhadores dos Estados Unidos, mas não transformam um candidato a presidente que defende estas medidas em socialista. Basta ver que até no Brasil – um país bem capitalista e onde os trabalhadores vivem mal – existem férias remuneradas, Previdência Social, licença médica paga pela empresa, sistema único de saúde (SUS) e licença maternidade.

Mas, para os trabalhadores dos Estados Unidos, estas questões econômicas não bastam. É necessária uma mudança de verdade nesse país em relação ao racismo enraizado e para garantir os direitos civis e políticos dos 20 milhões de trabalhadores imigrantes. Também é preciso acabar com as diferenças salariais entre homens e mulheres e lutar contra os ataques aos direitos de aborto e contracepção.

Também é preciso lutar pelo fim da presença norte-americana no Oriente Médio e de seu domínio econômico sobre os países da América Latina. Mas Sanders faz vistas grossas a tudo isso.

O verdadeiro Bernie Sanders

Em primeiro lugar, ele é do Partido Democrata, um partido dos grandes magnatas norte-americanos que existe para defender os interesses e os lucros das empresas multinacionais que exploram os trabalhadores de seu próprio país e em todo o mundo. Nesse caso, não há nenhuma diferença com o Partido Republicano.

Por exemplo, Obama, do Partido Democrata, tinha acabado de assumir a presidência quando a crise econômica mundial explodiu em 2008. Ele aprovou um plano de ajuda econômica de 800 bilhões de dólares aos banqueiros, mas deixou de lado milhões de mutuários que perderam suas casas da noite para o dia. O Partido Democrata apoia Israel e seu massacre diário de palestinos e as inúmeras intervenções militares imperialistas (da guerra do Vietnã à invasão do Iraque).

Bernie Sanders não faz uma única crítica ao atual governo. Ele também votou no senado pelas sanções econômicas ao Iraque em 1991e pelo bombardeio daquele país em 1992, quando o Partido Republicano estava no governo. Além disso, apoiou todas as intervenções militares dos Estados Unidos, como no Iraque, Somália, Haiti, Bósnia, Libéria, Zaire, Congo, Sudão, Afeganistão e Sérvia.

Em relação ao racismo e à defesa dos imigrantes, suas posições não são melhores. Ele votou por uma lei que levou a um encarceramento em massa de negros e latinos por pequenas infrações, inclusive com prisão perpétua, a Lei dos Três Delitos. Sanders defende o projeto de lei de Obama sobre imigração, que limita a legalização de imigrantes e aumenta a repressão interna e nas fronteiras.

Para nós, socialismo significa o fim da propriedade privada dos meios de produção, o fim da exploração do homem pelo homem, o fim de um sistema capitalista que se apoia na obtenção do lucro e na exploração da classe operária. Nós lutamos por um sistema socialista, sem a existência de uma classe capitalista exploradora dos trabalhadores e responsável pela miséria reinante em todo o mundo. Bernie Sanders é o contrário de um socialista, defende o sistema capitalista e o imperialismo mais forte e violento do mundo: o dos Estados Unidos.

A radicalização das lutas

A crise econômica trouxe, junto com ela, um aumento das lutas nos Estados Unidos. Esta radicalização foi mostrada em vários momentos, como o movimento Occupy Wall Street (Ocupe Wall Street), de protesto contra o 1% da população que domina toda a economia; a greve dos professores de Chicago em 2012, que teve repercussão nacional; a greve dos petroleiros em 2015, a maior em 35 anos; a luta dos metalúrgicos das montadoras contra a precarização do emprego; as rebeliões dos negros em Ferguson e Baltimore contra o assassinato de jovens inocentes e muitas outras.

O Partido Democrata, auxiliado pela burocracia sindical da AFL-CIO, é mestre em desviar estas lutas para o terreno eleitoral. Assim, consegue matar dois coelhos com uma só paulada: consegue milhares de ativistas para fazerem campanha para seus candidatos e acabam com as lutas. Mas, nestas eleições, os candidatos tradicionais, principalmente Hilary Clinton, não estão conseguindo cumprir este papel, pois são vistos como mais do mesmo.

Bernie Sanders aparece como um “cara diferente”, que se preocupa com o bem-estar das pessoas e não com dinheiro e poder. Mas seu objetivo é o mesmo dos outros: acabar com as lutas e trazer votos para o Partido Democrata. E está tendo sucesso. Como vimos, tem o apoio de muitos sindicatos e de movimentos sociais, como o “Black Lives Matter”, o movimento nacional dos negros contra a violência policial.

A posição de Trotsky: A nessidade de um partido operário independente

O apoio que a campanha de Sanders conseguiu dos trabalhadores mostra que existe um espaço político para uma alternativa da classe trabalhadora, contra os dois partidos tradicionais das grandes empresas.

O período eleitoral pode ser aproveitado para educar, organizar e mobilizar os trabalhadores, os oprimidos e a juventude sobre a necessidade de dar os primeiros passos para construir um partido da classe trabalhadora e dos oprimidos. Aliás, essa tarefa nunca foi cumprida nos Estados Unidos.

Mas esta alternativa deve ser construída fora do Partido Democrata e contra ele, sem ter medo de que isso possa abrir caminho para o Partido Republicano. A campanha de Sanders não é uma oportunidade para se construir esta alternativa, como pensam várias organizações de esquerda. Ela existe exatamente para matar esta possibilidade no ninho.

Em 1938, exilado no México, Trotski travou um frutífero debate com os militantes do SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores, na sigla em inglês), filiado à Quarta Internacional, sobre como construir um partido operário independente nos EUA. O revolucionário russo defendia que, para que esta tarefa avançasse, os trabalhadores tinham de romper com o Partido Democrata e seus líderes, incluindo aqueles com prestígio entre os trabalhadores ou que tinham um perfil de esquerda.

“Precisamos mostrar aos trabalhadores o que este partido deve ser: um partido independente, não sujeito a Roosevelt ou a La Folette (dirigentes democratas), mas um partido a serviço dos próprios trabalhadores. E no campo eleitoral deve lançar seus próprios candidatos”, defendia.

Nota:

[i]     Este artigo foi escrito antes da chamada superterça-feira, quando foram realizadas eleições primárias que definiram 25% dos delegados às convenções nacionais dos dois partidos. Nestas, Donald Trump ratificou seu favoritismo e Hillary Clinton aumentou a distância que tinha em relação a Sanders.