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Meu nome é Erek Slater. Sou motorista de ônibus de Chicago há dez anos. Meus companheiros elegeram-me como seu delegado sindical e membro do conselho executivo do Sindicato Unido do Transporte, Local 241. A Correio Internacional pediu-me para dar algumas opiniões sobre a situação dos trabalhadores nos Estados Unidos. Eu não falo em nome de nenhuma organização, mas em meu próprio nome.

Por: Erek Slater

Fui demitido ilegalmente de meu trabalho como motorista em fevereiro de 2016, por minha atividade sindical e política. Quero compartilhar com vocês uma boa notícia: nosso sindicato recentemente obteve uma vitória e conseguiu minha reincorporação ao trabalho.

Além do apoio de centenas de trabalhadores e sindicalistas nos Estados Unidos, quero agradecer a todos que escreveram declarações e enviaram sua solidariedade, da Coreia ao Brasil e à França.

Sobre meus companheiros de trabalho

Cerca de 100 trabalhadores de manutenção e 600 condutores de ônibus trabalham na garagem de Chicago. Os 7000 trabalhadores do transporte da cidade transportam 1,5 milhão de pessoas por dia com segurança. Cada um de nós é responsável por nossa família e nossas comunidades.

Entretanto, estamos sob constantes ataques dos governantes da cidade e de seus administradores. Somos desrespeitados, assediados e forçados a trabalhar sob condições extremamente perigosas. Algumas de nossas principais preocupações são [sem ordem de importância]:

  1. Falta de respeito, principalmente da gerência, para com o duro, complexo e importante trabalho que realizamos.
  2. Aumento da contribuição ao fundo de pensão.
  3. Aumento da contribuição a um plano de saúde pior.
  4. Turnos de trabalho perigosos. Não há tempo suficiente nem locais seguros para usar o banheiro.
  5. Dois sistemas de trabalho. Empregados em tempo parcial e tempo integral fazendo o mesmo trabalho em condições dramaticamente diferentes de trabalho e salário.
  6. Atitudes violentas legítimas dos passageiros, tarifas muito altas e cortes massivos nos serviços para os descapacitados físicos e mentais, os sem-teto e os pobres.
  7. Lesões por esforço repetitivo e criminalização de trabalhadores que tentam obter licenças de saúde ou para ajudar a família.
  8. Vigilância constante de nosso trabalho acompanhada de uma política de disciplina excessiva e punitiva.

Atualmente, estamos trabalhando sob o contrato que expirou em 2015. Nosso último contrato trouxe significativos aumentos aos custos de nosso plano de saúde. Agora os chefes querem nos tirar mais concessões e tentam esmagar nossos sindicatos.

Devemos nos mobilizar para liderar os bairros operários para reverter estes ataques, enquanto lutamos por uma expansão ampla do transporte público (e outras necessidades sociais) que permita a contratação de milhares de desempregados para trabalhar na linha de frente, com salários e benefícios iguais aos dos sindicalizados.

Algumas palavras sobre a atual situação dos Estados Unidos

É importante discutir primeiro, brevemente, a história do movimento operários norte-americano moderno. O movimento operário aumentou sua força como resultado da grande depressão (1929), ao ponto que os patrões tinham medo de que os trabalhadores pudessem tomar o controle do país. Os patrões usaram seu Estado (justiça, polícia, militares e imprensa) para encarcerar os líderes sindicais e os revolucionários. A Segunda Guerra Mundial foi usada como pretexto para estas e outras medidas antidemocráticas contra os trabalhadores. O que sobrou da direção sindical forçou um curso de submissão dos trabalhadores à patronal, atando os trabalhadores aos marcos legais que debilitavam nossa capacidade de usar nosso poder coletivo.

A produção industrial dos principais concorrentes dos Estados Unidos foi amplamente destruída pela guerra e os patrões norte-americanos obtiveram enormes lucros. Foram capazes de corromper uma geração de trabalhadores com salários relativamente altos. Desde então, nossas condições de vida e de trabalho vêm sendo sistematicamente rebaixadas com relativamente pouca resistência efetiva dos trabalhadores organizados. Durante este período, o movimento operário esqueceu muitas das lições aprendidas quando combateu abertamente o poder dos patrões sobre nós (com importantes exceções, como o movimento pelos direitos civis).

O ataque global às condições de vida e trabalho, à proteção ao emprego e aos direitos democráticos também está em curso nos EUA. Nossas necessidades públicas, como moradia, saúde e transporte estão sendo cortadas. Nosso trabalho está cada vez mais duro e perigoso. Há gerações nosso salário real é rebaixado.

A resistência a estes ataques desenvolve-se em lutas nacionais, como o combate à violência policial e aos encarceramentos em massa, a luta contra o racismo e a xenofobia, e a luta por um salário mínimo digno.

A luta pelo salário mínimo de 15 dólares por hora e por um sindicato

Cerca de 9 em cada 10 trabalhadores norte-americanos não são sindicalizados. Milhões de trabalhadores são forçados a empregos temporários, de tempo parcial ou “irregulares”. Os trabalhadores de fast-food e outros de baixo salário são apoiados pelo Sindicato Internacional de Empregados de Serviços em sua luta por um salário mínimo de 15 dólares por hora, pelo trabalho de tempo integral e pelo reconhecimento do sindicato. Algumas cidades e estados elevaram o salário mínimo para 15 dólares, embora em muitos casos isto demore vários anos e muitas categorias de trabalhadores sejam excluídas. O reconhecimento sindical é mais difícil de conseguir.

Desde as grandes greves com ocupações das décadas de 1940 e 1950, os sindicatos reduziram seu tamanho e seu poder porque os dirigentes sindicais pelegos recusam-se a mobilizar as bases e dizem aos trabalhadores que não podemos fazer nada exceto votar nos políticos patronais. A luta pelo aumento do salário mínimo, assim como por condições de trabalho similares para toda a classe operária ajudam a unir a classe. Entretanto, os atuais dirigentes sindicais não querem organizar e impulsionar a atividade autônoma e a militância da classe operária. Esta tensão entre a estratégia ineficaz dos dirigentes e as necessidades urgentes dos trabalhadores criou uma crise no movimento, que explodiu parcialmente na luta pelos 15 dólares.

Algumas palavras sobre a política dos EUA

Donald Trump é o novo presidente dos EUA. Como havia duas opções ruins, muitos trabalhadores votaram em Trump. A grande maioria não o fez por causa de seus ataques machistas, racistas, xenofóbicos ou islamofóbicos. A maioria votou em Trump apesar de sua retórica. A campanha de Hilary Clinton, do Partido Democrata e das direções sindicais que a apoiaram oferecia-nos muito pouco além dos mesmos ataques à nossas condições de trabalho e de vida. Muitos dos setores dominantes preferiam um candidato tipo Obama para projetar uma falsa imagem de compreensão para cobrir sua hipocrisia e suas agressões imperialistas internacionais. Hoje a máscara caiu.

As recentes manifestações de milhares em muitas cidades dos EUA protestando contra a eleição de Trump são uma advertência à classe dominante: se tentar nos atacar, haverá resistência.

Agora, todos os ramos do governo (Câmara de Deputados, Senado, Presidência e logo a Suprema Corte) são controlados pela ala republicana da burguesia. O Partido Republicano representa praticamente os mesmos interesses de classe que o Partido Democrata. Entretanto, geralmente impulsiona uma confrontação mais aberta e direta contra a classe trabalhadora.

A classe dominante milionária dos EUA não quer fazer o que a crise do capitalismo a força a fazer: atacar a classe operária e provocar nossa resistência, organização e a reabertura do potencial de construir uma alternativa a seu injusto domínio.

Atualmente, nos Estados Unidos não existe hoje um terceiro partido de massas. Ambos os partidos patronais estão em crise. Não há um partido trabalhista ou “socialista” pró-capitalista que libere o vapor da luta de classes. Bernie Sanders era um reflexo disso. Tanto a retórica “antiestablishment” de Sanders quanto a de Trump mostram que há um imenso espaço para uma ação política de massas da classe operária, destinada a construir um governo do, por e para o povo trabalhador dos Estados Unidos. Se não o fizermos, há um perigo real de que a classe dominante volte ao fascismo ou à guerra mundial para salvar seu sistema e seu injusto domínio.

Sobre a conexão entre os trabalhadores do mundo e dos Estados Unidos

Recentemente, em Seul, pude assistir a uma grande manifestação organizada pela Confederação Sindical Coreana. Foi impressionante. Com sua luta disciplinada, a classe operária mostrou que é capaz de governar a Coreia do Sul!

Entretanto, os governos dos Estados Unidos não respeitam os direitos do povo coreano nem de muitos outros no mundo. Eles suportam ditaduras, invadem países e mantêm bases militares por todo o mundo. Mesmo quando há governos eleitos, a maioria deles serve para manter o domínio das empresas multinacionais e das famílias ricas de seus países.

A classe operária dos Estados Unidos, junto com os trabalhadores de todo o mundo, pode forçar a retirada destas bases militares e impedir novas invasões. A classe trabalhadora norte-americana pode tornar o preço político tão alto que pode evitar o derramamento de sangue em seus países com governos legítimos. Fizemos isso antes: em 1945, quando as tropas que voltavam da guerra para casa e suas famílias disseram Não à invasão da China. E na década de 1970 junto com a vitória militar do povo do Vietnã: os soldados norte-americanos se rebelaram, como muitos outros nos Estados Unidos.

É vital que o povo trabalhador norte-americano compreenda a luta dos povos do mundo e que tenhamos um papel ativo em nossa mútua emancipação. Organizações operárias internacionais e dos Estados Unidos necessitam urgentemente desenvolver laços diretos de comunicação, educação e compartilhar as lutas.

Por muitas gerações, os Estados Unidos têm sido o centro da dominação imperialista. A classe dominante norte-americana fez recentemente um giro para renovar sua dominação econômica, diplomática e militar dos povos do leste da Ásia e do Pacífico. Estas provocações ameaçam todo o mundo. A classe operária norte-americana não tem interesses objetivos na dominação de outros povos trabalhadores. Em última instância, nosso futuro é o mesmo que o de vocês: devemos unir nossos esforços internacionalmente para superar a época do capital e construir uma nova sociedade mundial.

Artigo publicado na revista Correio Internacional no 16, janeiro de 2017