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O que aconteceu em Charlottesville?

No sábado, 12 de agosto, outro comício da alt-right (direita alternativa, alt-direita) e de neonazistas aconteceu em Charlottesville, Virgínia, em resposta à intenção do prefeito de retirar a estátua de um general confederado, E. Lee. Nós usamos o termo alt-direita deliberadamente – não para obscurecer seu nacionalismo fundamentalista e a ideologia de supremacia branca, mas para demonstrar que eles representam uma união de várias forças de direita, da direita cristã ao Ku Klux Klan, incluindo, é claro, os neonazistas.

Por: Workers’ Voice

Como esperado e necessário, um grupo de ativistas locais se reuniu para protestar contra esta nova convergência e recuperar sua cidade. Eles elegeram seu prefeito, eles decidiram pela remoção de um símbolo que acham constrangedor, ofensivo e violento para as comunidades que vivem e trabalham lá, eles estavam exercendo seus direitos de democracia e autodeterminação. Como os neonazistas e outros ativistas da alt-direita, que continuamente reivindicam “liberdade de expressão”, não podem suportar as consequências inevitáveis e justificadas da “liberdade de expressão” (isto é, a contestação do discurso de base, mais sólido e participativo da contramobilização), recorreram à violência. Esta violência atingiu uma forma extrema quando um deles jogou um carro sobre a contramobilização, matando uma ativista desarmada, membro do sindicato IWW (Industrial Workers of the World), e ferindo outras 19 pessoas, entre elas ativistas antifascismo e membros da organização Socialistas Democráticos da América (DSA) e da Organização Socialista Internacional (ISO), que foram lá para fazer o que os socialistas devem fazer: levantar-se pela liberdade e lutar contra o fascismo.

Queremos expressar nossas condolências à família de Heather Heyer, nossa camarada do IWW, assassinada por um fascista, e nossa profunda solidariedade ao IWW, aos Antifascistas, à DSA e à ISO. Estamos juntos nessa luta e estamos comprometidos com a construção de uma frente única das forças da classe trabalhadora para derrotar política e militarmente esses grupos e fazer valer os nossos direitos democráticos. Como a declaração do IWW eloquentemente diz, a partir de agora “devemos defender uns aos outros. Isso significa todos nós. Um ataque a um é um ataque a todos”.[1]

Os “Muitos [F#@* – UP] lados” dos comentários de Trump

No domingo, 13 de agosto, um dia depois da tragédia, Trump emitiu o que seria sua declaração mais intrigante e repugnante até o momento:“Condenamos nos termos mais fortes possíveis esta exibição flagrante de ódio, intolerância e violência de muitos lados, muitos lados”. Isto vem de um presidente que nomeou uma figura pública da alt-direita, Steve Bannon, como seu conselheiro pessoal.

Que os fatos mostram que a violência foi unilateral é inquestionável. Além disso, politicamente, equiparar qualquer tipo de violência antifascista de autodefesa com a violência do fascismo é inaceitável. Para aqueles que sofreram, e continuam a sofrer, a violência dos fascistas, ou seja, judeus, muçulmanos, negros, imigrantes e a comunidade LGBT, as palavras de Trump são simplesmente uma declaração aberta de guerra contra essas comunidades. Ao dizer essas palavras, ele deu seu passo mais explícito no sentido de tomar um lado neste conflito: o lado do fascismo e da supremacia branca. Equivocar-se nessas horas é ficar ao lado dos opressores. Entendemos que ofuscar e minimizar a violência diária exercida contra essas comunidades é uma manobra-chave para favorecer os fascistas e supremacistas brancos, por isso estamos nos preparando para denunciar esses movimentos violentos e para reagir com toda a nossa confiança, habilidade e camaradagem para derrotá-los.

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Nós repudiamos a ideia de Trump de que a culpa pelo terror que ocorreu em Charlottesville “é de ambos os lados”. Para a classe trabalhadora e as comunidades negras deste país há apenas um lado: o lado da total solidariedade com a contramobilização, com o IWW e com a família da vítima, e nosso desejo mais profundo e firme de nos livrarmos do ódio e da intolerância disseminados pelos grupos de supremacia branca.

Trump ficou imediatamente sob o fogo cruzado de diferentes setores políticos por seus comentários. Na verdade, ele foi condenado por praticamente todos os seus antigos partidários, exceto os neonazistas, que comemoraram seus comentários como uma aprovação de fato. Até mesmo grandes executivos e os pesos pesados do Partido Republicano, como Bush e McCain, entenderam que não se pode equiparar a violência da extrema direita com a mobilização e a autodefesa dos manifestantes que lutam pelos direitos democráticos. Se há pelo menos um consenso “moral” neste país que falsamente parece cruzar as fronteiras de classe é que o “fascismo” é um inimigo em comum. Trump revelou sua posição. O fato de que ele revelou seus interesses é instrutivo e esclarecedor. Em resumo: os interesses econômicos que ele representa (os 1% mais ricos deste país, que controlam a maior parte da riqueza) não são fundamentalmente opostos ao fascismo, eles simplesmente não se beneficiam dele no momento, e preferem se ater à democracia representativa atual pela qual eles podem exercer influência máxima.

“Alt-Esquerda” versus “alt-direita”?

Trump construiu um protesto em massa a partir desses incidentes, pois ele não repetiu a mesma idiotice uma ou duas vezes, mas três vezes. Na terça-feira, 15 de agosto, ele afirmou novamente que “a culpa é de ambos os lados” e, em seguida, foi ainda mais longe na retórica reacionária de culpar as forças de esquerda por enfrentarem o fascismo, ao perguntar: “O que falar da ‘alt-esquerda’ que, como se diz, enfrentou a ‘alt-direita’?”.[2] Nós discordamos absolutamente de que há uma “alt-esquerda”, que seria o equivalente de “esquerda” da alt-direita, pois esta visão iguala implicitamente ambos os extremos, e defende o status quo liberal ou conservador. O que existe neste país é uma polarização crescente na sociedade e na classe trabalhadora, como resultado da falta de recuperação econômica para os trabalhadores, a não resolução e a redução de direitos democráticos básicos e uma contínua opressão e repressão.

O que é esta nova marca “alt-direita”, afinal? É uma reunião de forças políticas de extrema direita que crescem lentamente, que inclui o KKK, os neonazistas, grupos de supremacia branca e os conservadores cristãos. Na verdade, o grito de guerra do protesto em Charlottesville era “unir a alt-direita”. Embora haja um grau de variação no programa ultrarracista, homofóbico e reacionário desses grupos, o que eles têm em comum é a sua base social. Não foram os setores locais da classe trabalhadora branca que protestaram contra a remoção da estátua e participaram do ato reacionário, mas sim uma horda de manifestantes semiprofissionais, com educação de nível superior, e gente da classe média, que puderam sair do trabalho para protestar em outra cidade.

Por essas razões, discordamos absolutamente que haja uma “alt-esquerda”, que seria o equivalente de “esquerda” da alt-direita. A falta de oportunidades econômicas para os trabalhadores, a opressão e a repressão de grupos marginalizados (em particular, dos negros), o aumento das restrições a direitos democráticos, o corte de serviços sociais, levaram a uma polarização crescente neste país e na classe trabalhadora. A “alt-direita” é liderada principalmente por profissionais liberais e elementos da classe média que culpam os negros, os imigrantes e os setores oprimidos pelo seu destino social, a sua falta de prosperidade neste país e o declínio do império norte-americano. Aqueles que combatem a alt-direita são as forças políticas que têm estado presentes nas lutas da classe trabalhadora, anarquistas e socialistas, principalmente, cuja base social e poder de organização política também estão se desenvolvendo em resposta ao fracasso dos partidos Republicano e Democrata em satisfazer as necessidades básicas do povo.

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Só uma frente única da classe trabalhadora e das comunidades pode derrotar a alt-direita

Nós não achamos que os executivos das grandes multinacionais, que exploram trabalhadores em todos os EUA e ao redor do mundo, e se sentem confortáveis em um sistema de exploração herdeiro da escravidão e apoiado em ditaduras, têm qualquer fundamento moral ou político para enfrentar o fascismo. Além disso, enquanto John McCain declara que “não há equivalência moral entre racistas e americanos que se levantam para desafiar o ódio e a intolerância”, nós não achamos que ninguém no Partido Republicano, que abriga em suas fileiras a mesma escória fascista que enfrentamos nas ruas, e que repetidamente ataca comunidades negras e mulheres, quando no governo, tem alguma credibilidade nesta luta. Nós acreditamos que nem mesmo o Partido Democrata tem uma chance de deter o fascismo pois, quando lhe é dada a chance de deter a militarização da polícia municipal, bem como o assédio às comunidades marginalizadas, como foi o caso na cidade de Berkeley, ele alinhou-se com o complexo industrial pró-guerra e contra os milhares de cidadãos que se reuniram no mês passado em frente à prefeitura da cidade para impedir o negócio com o Urban Shield.

Cabe a nós, trabalhadores e negras/negros, construir, com as nossas organizações operárias, uma frente única para derrotar o fascismo, para derrotar suas ideias e suas raízes sociais e materiais. É vergonhoso que vários executivos do conselho da Manufacturing Initiatives (Iniciativas de Produção), liderada por Trump, tenham pedido demissão, gerando um rompimento público dos grandes setores industriais com o governo, para que o líder da AFL-CIO [central sindical norte-americana], Trumka, também se demitisse. É embaraçoso para o movimento operário que isto tenha ocorrido, pois Trumka não deveria nem ter feito parte deste conselho. No entanto, é muito encorajador ver como o IBEW local 6 (sindicato dos eletricistas) em San Francisco rompeu sua venenosa aliança policlassista com a supremacia branca, e exerceu, na prática, uma solidariedade real da classe operária ao excluir do emprego e punir um de seus membros, John Ramondetta, que estava programado para falar no comício da alt-direita em Charlottesville. Achamos que todos os sindicatos devem tomar uma posição pública como o IBEW local 6 fez contra esta crescente onda de supremacia branca e intolerância e realizar eventos educacionais com seus membros para enfrentar este flagelo em nossas fileiras.

Nesse sentido, nós reproduzimos o chamado dos Socialistas Democráticos da América para a construção de uma frente única, que já está sendo posta em prática por outras organizações socialistas como nós, do Workers’ Voice (Voz dos Trabalhadores), a Ação Socialista (SA) e a Organização Socialista Internacional (ISO): “Chamamos a esquerda a construir uma forte frente única contra essa ala direita encorajada. Precisamos ser claros e reconhecer que o terrorismo da supremacia branca não vai simplesmente acabar se for ignorado. Nunca devemos permitir que este movimento violento e perigoso tenha uma plataforma de ação. Ele deve ser combatido sempre pela força da nossa frente única.”[3]

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Os fascistas estão vindo para a Área da Baía: Estamos prontos para eles

Na área da Baía [de San Francisco], estamos nos organizando, durante as últimas semanas, para enfrentar outra provocação da alt-direita, em Berkeley. Trabalhamos com outras organizações para construir uma frente única principista para derrotar a extrema-direita. Charlottesville tornou nossa organização mais relevante. O chamado dos grupos da alt-direita para a próxima manifestação em 27 de agosto tem como alvo a esquerda em particular, com o seu evento no Facebook chamado “Não ao marxismo na América”. Além disso, outro evento do mesmo tipo foi chamado para San Francisco para 26 de agosto. Juntamente com outros socialistas, sindicatos e organizações progressistas da Baía, estamos construindo uma frente (com mais de 80 organizações que continuam a aumentar a cada dia) para dizer não a essa convergência da alt-direita, que é composta pelos mesmos supremacistas brancos e elementos fascistas que aterrorizaram Charlottesville.

A construção de uma frente única contra a ascensão do fascismo não é algo que simplesmente declaramos, ela necessita conquistar a confiança entre as comunidades e organizações e atrair e envolver no planejamento organizações chaves: os sindicatos (UAW 2865, AFSCME 3299, UPTE, BFT, ILWU etc.), grupos comunitários, como o APTP, grupos religiosos e organizações políticas. Vamos deixar claro que a alt-direita não é bem-vinda aqui, vamos organizar uma manifestação pacífica e construir uma força de segurança, democraticamente eleita e controlada, para garantir a nossa própria paz, e, claro, para impor o nosso direito de autodefesa se formos atacados.

Anexo: Declaração do IBEW local 6

“O sindicato IBEW local nº 6 condena a violência e o assassinato ocorrido no fim de semana passado em Charlottesville, Virgínia. Para ser totalmente claro, o IBEW Local nº 6 também condena o nacionalismo e a supremacia branca, pois estão em conflito com os princípios da nossa organização. O evento ‘Unir a Direita’ e as ações que foram perpetradas pelos presentes são exemplos vergonhosos de uma pequena minoria de fanáticos que procura explorar o crescente desespero econômico de cidadãos americanos.

A igualdade econômica e de oportunidades não será conquistada através da marginalização ou vitimização das famílias trabalhadoras. Ao contrário, o IBEW local nº 6 acredita que só um movimento operário aberto e inclusivo pode fortalecer as realidades moral e econômica dos trabalhadores na sociedade. Nós encorajamos aqueles que estão frustrados e irritados com a estagnação dos salários, a perda de oportunidades de emprego e a exploração no local de trabalho a exercer o seu direito de se organizar em um esforço concertado e formar um sindicato.”

Notas: 

[1] https://www.iww.org/content/after-todays-murder-charlottesville-we-must-all-unite-defend-ourselves-and-each-other

[2] https: //www.nytimes .com / 2017/08/15 / us / política / trunfo-alt-left-fato-check.html

[3] http://www.dsausa.org/charlottesville

Tradução: Marcos Margarido