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O governo Trump completou cem dias e já se pode começar a avaliar suas características com mais precisão. Trump traz mudanças importantes tanto na situação dos EUA como em nível internacional, que é preciso analisar com a devida profundidade.

Por: Eduardo Almeida

Esse governo de ultradireita traz para o primeiro plano da situação política nos EUA uma divisão da burguesia e uma polarização da luta de classes inéditas nas últimas décadas. Isso obviamente tem reflexos econômicos e políticos em todo o mundo.

O novo governante é uma expressão dos problemas vividos na economia imperialista. Trata-se de um setor da burguesia imperialista insatisfeita com algumas características da globalização.

A crise de 2007-2009 determinou uma onda decrescente da economia capitalista até agora não superada. Não existe uma recuperação da taxa de lucros que possibilite uma nova onda de investimentos e uma nova onda expansiva da economia capitalista. É isso que determina as características de crescimento anêmico e crises profundas depois de 2007-2009.

Em 2016, os EUA cresceram 1,6% (2,6% em 2015). No primeiro trimestre de 2017, o crescimento foi de 0,7%, indicando a continuidade desse crescimento anêmico. A Zona Euro cresceu 1,7% em 2016.

Apesar dos gigantescos pacotes de investimentos dos Estados imperialistas nos bancos e grandes empresas, apesar dos sucessivos planos de austeridade, da quebra financeira e/ou do rebaixamento de status de países europeus como Grécia e Portugal, não existem sinais de elevação da taxa de lucros e novos picos de investimentos.

Ao contrário, a revista The Economist avalia que essa situação está gerando até mesmo um questionamento de algumas características da globalização: “Por trás da ascensão das multinacionais estava a convicção de que, em comparação com outras empresas, elas eram máquinas muito mais azeitadas de fazer dinheiro. Isso já não é verdade. Nos últimos cinco anos, o lucro das companhias globais sofreu um recuo de 25%. O retorno sobre o capital é o mais baixo em 20 anos. A valorização do dólar e a queda do preço do petróleo explicam parte do declínio. As superstars da tecnologia e as fabricantes de bens de consumo com marcas sólidas continuam tendo bom desempenho. Mas o fenômeno é generalizado e prolongado demais para ser considerado mero contratempo. O retorno sobre o patrimônio de cerca de 40% de todas as multinacionais do planeta é inferior a 10%, indicando performance aquém da esperada. Na maioria dos setores da economia, essas empresas atualmente crescem em ritmo mais lento e são menos lucrativas do que as companhias locais que preferiram não se aventurar alhures”.

Ou seja, essa situação leva a que alguns setores da burguesia imperialista comecem a questionar algumas características da globalização e apontar a necessidade de concentração na exploração de seus mercados nacionais e ataques muito mais duros ao proletariado de seus países. É uma espécie de nacionalismo imperialista ultrarreacionário, de ultradireita. Não são diretamente fascistas por não defenderem métodos de guerra civil contra o proletariado, como faziam Mussolini e Hitler.

Mas são de ultradireita, e defendem posturas bonapartistas, pois atacam direitos democráticos, como se vê no caso dos refugiados europeus e da política xenófoba da Frente Nacional na França, Wilders na Holanda, etc.

Ampliam o que já vinham fazendo os governos burgueses, atacando diretamente setores inteiros dos trabalhadores utilizando-se das diferenças raciais, de gênero ou do fato de serem imigrantes para tirar direitos democráticos, trabalhistas e rebaixar o nível de vida desses setores e assim aumentar as taxas de lucro, ao mesmo tempo que dividem a classe operária e organizam seu apoio político nos setores privilegiados da classe.

Vão poder aplicar seus planos a depender da evolução concreta da luta de classes.

Não são contra o conjunto da chamada “globalização”, e sim contra algumas de suas características como a produção completamente internacionalizada e o assim chamado “livre comércio”, em reposta aos que falam em valorizar o local, manter a produção no país, defender a soberania, etc. Mas são a favor de outras características da globalização como os ataques neoliberais aos trabalhadores, a desregulamentação da economia, etc.

Um governo de ultradireita nacionalista imperialista

Trump é uma expressão disso, em pleno coração do imperialismo, representando setores da burguesia petroleira, da construção civil, agrária e armamentista. O principal executivo da Exxon Mobil, Rex Tillerson, é seu secretário de Estado. Tillerson comandou acordos da Exxon com a Rosneft – gigante petroleira russa – de 200 a 300 bilhões de dólares, e tem estreitas relações com Putin.

Trump está diretamente ligado ao ramo da construção civil, que seria privilegiado com seu plano de investimento em obras. O projeto de orçamento de Trump inclui um aumento importante nos gastos armamentistas do governo. Ao mesmo tempo, ele quer cortar impostos das empresas e dos mais ricos, retirar multas e dar isenções fiscais aos bancos. Acabou com mais uma crise no Congresso, apesar da maioria republicana, tendo de fazer um acordo em que democratas comemoraram vitória.

Os vários movimentos de ultradireita na Europa (Le Pen na França, UKIP na Inglaterra, Partido da Liberdade na Holanda, etc.) representam, em geral, setores da pequena burguesia ou burguesias menos importantes também insatisfeitos com algumas consequências da globalização. Esses setores questionam pela ultradireita a União Europeia.

Em outra realidade, na Rússia – que hoje não passa de uma submetrópole dominada, mas joga um papel de gendarme em determinadas áreas como Europa Oriental e Oriente Médio -, Putin também expressa uma burguesia ligada ao petróleo e gás, com elementos reacionários de nacionalismo “grão-russo” e bonapartismo. Não por acaso, Putin cultiva relações com todos esses setores europeus e com Trump.

Um ataque ainda mais duro contra o proletariado norte-americano

A ideologia de Trump “América primeiro” tem um componente de trazer de novo as empresas norte-americanas para produzir diretamente nos EUA. Mas, ao contrário do que esperam os operários brancos que se iludiram com Trump, o projeto é um rebaixamento brutal de seu nível de vida.

Os operários dos EUA já tiveram, no período pós 2007, um rebaixamento salarial que reduziu pela metade os salários das indústrias automobilísticas, como a GM, e generalizou relações precárias de trabalho. Isso possibilitou que a GM saísse da falência, assim como a recomposição das grandes empresas imperialistas. Mas isso já não basta.

Agora o “Right to work” (“direito ao trabalho”, que na verdade quer dizer direito a trabalhar sem sindicatos) ameaça detonar diretamente os sindicatos nos EUA, para conseguir outro grau de exploração dos trabalhadores. Aproveitando-se do grande desgaste das burocracias sindicais, Trump quer tornar lei federal o “Right to work” que já está sendo aplicado em 27 estados. Os sindicatos perderiam o direito de representação dos trabalhadores, que poderiam se autorrepresentar. No sul dos EUA, onde já é uma realidade, os salários já se aproximam aos dos latino-americanos. Agora Trump quer estender ao leste e ao oeste, aos setores mais industrializados e sindicalizados. A taxa de sindicalização em nível nacional já é baixa, ao redor de 10%, mas a extensão dessa lei seria um novo golpe duríssimo para uma boa parte dos atuais sindicatos dos EUA.

Existe um choque de Trump com a maioria da burguesia imperialista norte-americana, puxada pelo capital financeiro, que segue apostando em todos os elementos da globalização, incluindo a produção internacional. Grande parte dos quadros técnicos das empresas do Vale do Silício (as grandes empresas de tecnologia, como Apple, Yahoo, Facebook, Google) são estrangeiros. Grande parte de seu lucro vem de sua implantação mundial tanto na produção de artigos eletrônicos como na ocupação direta dos mercados internacionais apoiados nos acordos de livre comércio. A maior parte das empresas automobilísticas e de outros setores tem uma produção mundializada, também se orienta nesse sentido e se opõe ao projeto de Trump.

A divisão da burguesia no terreno energético

Existe nessa divisão interburguesa norte-americana também um componente de choque de tecnologias, como na área de energia e transporte. Trump representa o setor da burguesia petroleira que mantém a estratégia de utilização da matriz energética ligada ao petróleo e gás. Existe outro setor, provavelmente majoritário, que já defende diversificar o investimento também em energia “limpa”. Obama havia tomado iniciativas de estímulo a esse setor incluindo algumas tímidas leis ambientais.

Trump tem como parte de seu programa de governo, que já começa a cumprir, a revogação das poucas leis de proteção ao ambiente feitas por Obama.

A família Rockefeller, que fundou a Standard Oil, denuncia a atual Exxon por manobras para boicotar pesquisas científicas que demonstram os danos climáticos causados pela indústria petrolífera. A maior parte das grandes empresas petroleiras se orienta hoje para buscar novas fontes de energia, preparando-se para o futuro.

A Tesla é uma das expressões de uma nova matriz energética, com carros elétricos e painéis solares. É uma indústria norte-americana sediada na Califórnia que está produzindo carros puramente elétricos, com autonomia de 400 km aproximadamente. Essa indústria se tornou, em 2017, a mais valiosa na Bolsa de Valores do setor automotivo norte-americano, desbancando a Ford e a GM, apesar de produzir e vender centenas de vezes menos carros que essas duas empresas. O valor acionário da Tesla indica que a burguesia está apostando no futuro dessa indústria. A Tesla está também fabricando painéis solares para residências muito mais avançados que os atuais, que apontam a possibilidade de autonomia energética dos prédios e casas, acabando com grande parte da dependência das usinas e redes elétricas.

Essa não é uma disputa meramente científica. Envolve negócios de muitos bilhões de dólares que são e serão afetados por definições dos governos. Entende-se a importância dessa disputa interburguesa.

Um fato de primeira magnitude: a divisão da burguesia imperialista

Trump expressa um setor minoritário da burguesia, mas quer ganhar para seu projeto a maioria da burguesia com uma parte de seu programa que soa muito bem a todos os setores burgueses. Quer ganhar o capital financeiro com uma ampla desregulamentação. Quer ganhar a maioria da indústria com a redução de impostos e o “Right to work”. Montou uma comissão com 26 dos CEOS (executivos-chefes) das principais empresas dos EUA, incluindo os setores que não têm acordo com sua política, como uma espécie de conselho político.

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Mas até agora Trump continua sendo minoritário entre a grande burguesia norte-americana. Houve manifestações explícitas da burguesia contra Trump. As empresas de tecnologia (Google, Apple, Facebook e outras), além da Ford, Starbucks e inúmeras outras, manifestaram-se com clareza contra o governo, tornando pública a divisão burguesa. Não existe forma de que o grande capital aceite retroceder na produção internacionalizada com o aproveitamento dos baixos salários nos países semicoloniais.

A agência Fitch – uma das três grandes agências que são encarregadas de classificar os planos econômicos de governos e das empresas, a serviço do capital financeiro – afirmou que Trump traz uma falta de previsibilidade ao governo dos EUA, muito ruim para os grandes investimentos. A grande mídia, em aberta oposição ao governo, expressa a maioria da burguesia.

Além disso, é preciso também considerar o personagem concreto Trump. O papel do indivíduo na história, como sabemos, tem sua importância.

Trump tem relação com um movimento de ultradireita, a chamada alt-right (direita alternativa), que anima um site, Breitbart News, com posições de supremacia branca, islamofóbicas, racistas, machistas. O estrategista-chefe do governo Trump é Steve Bannon, editor-chefe desse site, nomeado para o Conselho de Segurança.

Trump não é um quadro político experimentado do imperialismo, treinado e educado pelo establishment do Partido Republicano ou Democrata. É uma figura que vem de fora, e por isso ganhou as eleições, questionando os “políticos tradicionais” do próprio Partido Republicano. Mas esse elemento, que jogou a seu favor na campanha eleitoral, agora se volta contra ele.

Tem havido vai e vens desde que tomou posse, como no caso das relações com a China, da política para o NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), para o muro com o México, etc., o que levou o ex executivo-chefe da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy, a dizer que “Trump ladra, mas não morde”.

O seu despreparo para responder a questões complexas da política interna e externa da maior superpotência do planeta está se tornando um fator político gerador de crises tanto com aliados (como Peña Nieto, governos europeus como da Alemanha, Inglaterra, etc.) como com adversários.

Esse despreparo se transformou em uma arma para seus inimigos. Trump é ridicularizado cotidianamente pela grande mídia dos EUA. O enfrentamento aberto com setores-chave da mídia, como The New York Times, CBN, Los Angeles Post, é um mau passo para Trump.

Existem elementos de crise no regime democrático burguês nos EUA

Trump venceu as eleições em função de elementos de crise da democracia burguesa nos EUA. Agora no governo, suas ações ampliam essa crise.

O regime democrático burguês dos EUA tem uma tradição secular de regular os poderes e isso inclui também o federalismo, com uma ampla autonomia dos estados. É uma democracia burguesa imperialista, que só serve aos interesses da grande burguesia bilionária, que não dá margens para que a classe possa se organizar politicamente, e que tem um aparato militar, de espionagem e controle e um sistema de repressão fortíssimos. Mas há um jogo de controle de poder e fiscalização mútua entre governo, Congresso e Justiça que é um limite para que um setor burguês controle de forma unilateral os mecanismos de poder. Também a grande mídia impressa e falada joga um papel de freio, como ficou claro no Watergate contra Nixon.

Já durante a maior parte do governo Obama havia um sistemático enfrentamento entre governo e Congresso e Obama nunca teve maioria no mesmo para implementar suas políticas. Esteve sempre sob pressão e só conseguiu implantar o Obamacare no final. Movimentos como o Tea party, a partir de alguns parlamentares e governos estaduais e locais, faziam lobby sobre o Congresso e muitas vezes paralisavam por certo tempo o governo.

Agora no governo, Trump tenta impor seus planos, tendo contra si a maioria da burguesia, das classes médias, da mídia imperialista. Esse plano nacionalista imperialista de ultradireita requer, para ser aplicado, um projeto bonapartista associado. Não se consegue implementar esses ataques somente com a reação democrática, com os acordos com os dirigentes. E Trump já esboça isso, com ataques à imprensa, com seu estilo de governar por decretos, etc.

Quando Trump começa a querer uma dinâmica mais ditatorial encontra resistência desses setores que se opõem e da classe média. Haja vista como os atores e produtores de Hollywood têm se manifestado em todos os eventos desde que ele assumiu.

O resultado até agora tem sido o agravamento da crise do regime.

A Justiça dos EUA vive uma crise importante, com uma espécie de rebelião contra os decretos de Trump. Ele, para se impor, destituiu a promotora-geral do país. A resultante foi uma derrota para o governo, com seu decreto sendo revogado pela Justiça. Embora tenha conseguido indicar um novo ministro para a Corte Suprema, não tem um controle do Judiciário em nível nacional, como mostra essa derrota do decreto sobre os imigrantes em vários estados.

O Congresso, que deveria ser uma base segura para Trump (pela maioria republicana na Câmara dos Deputados e no Senado), tornou-se também uma fonte de instabilidade pela crise do Partido Republicano. A votação dos secretários de Trump (o correspondente aos ministros) se transformou em uma luta dura, com algumas importantes derrotas. Dois indicados (Segurança e Trabalho) renunciaram, depois de enormes batalhas no Congresso e na mídia.

A relação de Trump com o aparato de inteligência e repressão se tornou outra fonte de conflitos, pela primeira vez na história. A recente demissão de Comey, chefe do FBI, expressa dramaticamente uma crise delicada para Trump. No Congresso repercutiu muito mal, inclusive entre os republicanos, pois tudo indica que se deve à investigação contra Trump pela conexão de sua campanha com Putin. Praticamente toda a imprensa está criticando-o e já se compara com a forma com que Nixon se chocou e deu origem ao Watergate, em que Nixon demitiu um promotor que estava investigando o caso.

A crise dos dois maiores partidos burgueses – o Democrata e o Republicano – agrega elementos importantes de crise no regime. Os republicanos estão divididos por Trump, com personagens tradicionais como Bush e McCain atuando abertamente contra o governo.

Os democratas também estão divididos. Todo um setor corteja a negociação com Trump, para evitar aprofundar a crise do regime. Outro setor aposta no desgaste de Trump, com vistas às eleições de 2018, que elegem a totalidade da Câmara de Deputados e 1/3 do Senado e podem mudar a relação de forças no Congresso e abrir as portas para um impeachment de Trump.

Existe uma base social para essa realidade na insatisfação crescente do proletariado e grande parte das classes médias com as consequências da globalização, que trouxe um rebaixamento do nível de vida e a quebra da expectativa de ascensão social. Não existe mais a expectativa de mobilidade social ascendente para o proletariado e camadas médias, que assegurava estabilidade à democracia burguesa. Uma pesquisa recente indicou que 92% dos nascidos nos EUA em 1940 acabaram ganhando mais que seus pais. Hoje essa cifra baixou a 50%, e é provável que a realidade seja bem pior.

A democracia burguesa se apoia nesses setores das massas para compor cenários eleitorais previsíveis com partidos burgueses e ou reformistas domesticados. A insatisfação com os governos é canalizada para sua substituição nas eleições por outro partido com um programa semelhante.

Começa a haver no mundo (como na Grécia, França, Espanha e outros países) uma insatisfação crescente que se transforma em radicalização e polarização política. Esse processo levou ao desgaste qualitativo dos partidos tradicionais de esquerda e de direita, como o PS (Partido Socialista) e Republicanos da França, etc., o que possibilita a ascensão de alternativas mais à esquerda (como Syriza na Grécia, Mélenchon na França, Sanders nos EUA) ou à direita (Le Pen na França, Trump nos EUA).

Mas essa expressão dupla tem uma característica inédita nos EUA, onde o socialismo sempre foi ultraminoritário. Pesquisa da Universidade de Harvard apontou que 32% da população jovem até 32 anos estão a favor do socialismo como sistema alternativo.

Onda reacionária ou polarização da luta de classes?

Trump é um governo de ultradireita, com uma política xenófoba, racista e machista, com um programa de ataque aos trabalhadores e imigrantes. Mas ele vai, em primeiro lugar, manter e ampliar os ataques que já vinham sendo feitos por Obama.

Essa realidade, que não pode ser ignorada, é analisada unilateralmente pela maioria da esquerda mundial, que toma apenas esse elemento, desconhecendo a totalidade que é muito mais rica e complexa. Consideram que Trump seria um sinal de uma virada à direita, uma onda reacionária em todo o mundo.

A verdade é que Trump não chegou ao governo como expressão de um ascenso da ultradireita que ganhou as massas e impôs uma estabilização reacionária no país.

Para usar uma comparação extrema, Hitler primeiro ganhou no terreno da luta de classes – utilizando suas milícias nazis para atacar militarmente os organismos sindicais e políticos da classe operária e foi acumulando vitórias com o auxílio da recusa nefasta do PC alemão de uma política de frente única com a socialdemocracia – para depois expressar essa vitória no terreno eleitoral. Desde o governo, Hitler depois mudou o regime. Mas sua chegada ao governo já expressava uma derrota do proletariado, imposta nas ruas com a ação das milícias nazistas num processo reacionário na luta de classes.

Trump não é fascista, embora existam fascistas em seu movimento “alt-right”. É um governo de ultradireita, que não se propõe a usar métodos de guerra civil contra o proletariado dos EUA.

Mas o elemento mais importante de diferença não é ideológico, e sim a globalidade do processo político nos EUA. Ele não expressa uma vitória da ultradireita no terreno da luta de classes, e sim a crise da própria democracia burguesa.

Trump vence as eleições pelo desgaste dos democratas com a gestão Obama e o desencanto com a candidatura de Hillary Clinton. Se Sanders fosse o candidato democrata, o resultado poderia ser diferente.

O sistema eleitoral dos EUA é extremamente antidemocrático. Mesmo pelo padrão da democracia burguesa, não reflete sequer a maioria dos votos da população. Trump ganhou as eleições com 25% de apoio eleitoral, e teve menos votos diretos que Hillary. Ao assumir, tinha a menor porcentagem de apoio (40%) de todos os presidentes da história dos EUA. Com cem dias de governo, sua popularidade segue baixando.

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Ao tentar impor seus planos já no início do governo, Trump polarizou a luta de classes duramente. Foi recebido em seu primeiro dia de governo com a maior mobilização da história dos EUA, com três milhões de pessoas em 21 de janeiro. De lá para cá, mesmo com a trava direta do Partido Democrata, as mobilizações regionais e setoriais não param, ainda que sem uma unificação nacional nem um plano de lutas.

Trump enfrenta não só um ascenso da luta de classes, mas a oposição da maioria da burguesia, com uma crise política crescente. Tem apoio da minoria da burguesia e de um setor minoritário das massas.

Trata-se de um projeto bonapartista, de ultradireita, que tenta se impor a todo custo em uma relação de forças que não lhe é favorável. O resultado é uma polarização da luta de classes crescente. O resultado dessa polarização não pode ser previsto com segurança, pois dependerá exatamente da evolução da luta de classes.

Não se pode isolar um elemento da realidade, sem ver a totalidade. Baseamo-nos na relação de forças entre as classes e não somente no resultado eleitoral. Nos EUA se expressa uma polarização inédita da luta de classes e não uma onda reacionária.

Na verdade, Trump expressa nos EUA uma tendência à mesma polarização da luta de classes que já ocorre em várias partes do mundo, como na Europa e América Latina.

O ascenso do movimento de massas e seus limites

Existe um ascenso inegável das lutas das massas nos EUA. O maior símbolo disso foram as mobilizações de 21 de janeiro. No 1º de Maio, ocorreram as maiores mobilizações de rua dos trabalhadores imigrantes desde 2006.

Em geral, existe uma efervescência do movimento estudantil, com reflexos também sobre categorias médias do proletariado como os professores, além dos setores oprimidos (imigrantes, negros, latinos, muçulmanos).

O movimento anti-Trump já tem um enorme peso na vida política, social e cultural dos EUA, com uma base social na juventude e de setores médios do proletariado. Tem uma grande limitação para uma estratégia revolucionária que é a não entrada em cena do proletariado. Mas é importante não subestimar a importância desse ascenso. Foi uma mobilização com essas características, contra a guerra do Vietnã, que levou a uma das maiores derrotas do imperialismo norte-americano.

Já existiam sinais anteriores de mobilizações importantes do movimento negro pelos levantes contra a repressão policial como em Ferguson e a ascensão de movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Os imigrantes tiveram um ascenso importante em 2006 e desde então tiveram mobilizações localizadas como a dos mexicanos em apoio à luta de Ayotzinapa. Agora existe muito medo em relação aos ataques da polícia, mas também um ascenso forte no setor de imigrantes.

Existem duas grandes limitações para o ascenso. O primeiro é – até agora – a ausência da classe operária industrial. Está primando, até este momento, a divisão consciente operada por Trump, que levou a que votassem nele e joga uma parte importante (talvez ainda majoritária) do proletariado masculino branco contra os negros, latinos e mulheres.

A grande trava é a expectativa desse setor dos operários brancos de que Trump devolva a eles uma perspectiva de ascensão social perdida, que identifica seus inimigos nos outros setores do proletariado e não na burguesia. O proletariado dos EUA tem um forte componente de imigração europeia em sua composição. Esse componente foi trabalhado propositalmente – os brancos italianos, irlandeses, etc. – contra os negros e latinos em bases ideológicas reacionárias nos séculos XIX e XX. É isso que Trump tenta reviver nos dias de hoje.

Essa política de Trump é todo um símbolo grotesco de como a opressão divide a classe, e que precisamos uni-la contra a burguesia e as opressões.

A outra grande limitação é a gigantesca crise de direção revolucionária. Existe um enorme peso sobre o conjunto do movimento de massas de um partido burguês como o Partido Democrata, de uma forma que dificilmente se verá em qualquer outro país. É como a união de um partido burguês tradicional (talvez o partido burguês mais influente do mundo) e um partido socialdemocrata.

Os democratas hegemonizam a burocracia sindical, as direções dos movimentos contra as opressões, dos movimentos de imigrantes, a juventude, ou então financiam ONGs que militam aí, etc. Por exemplo, a Marcha das Mulheres, que dirigiu a mobilização de 21 de janeiro, é ligada aos democratas. Existem centenas de ONGs financiadas pelos democratas que dirigem as mobilizações de imigrantes.

Não existe tradição política da esquerda nos EUA, a não ser em setores reduzidos.

A burocracia sindical nos EUA inclui setores diretamente ligados por interesses acionários às grandes empresas. O grau de desprestígio dessas burocracias pode ser medido pelo índice atual de sindicalização de 10%, o menor da história.

A direção nacional da AFL-CIO (maior central sindical) está negociando diretamente com Trump. A burocracia sindical do setor da construção civil está também diretamente apoiando Trump. Apesar de sua importância, esse setor da burocracia é minoritário. Mas o setor majoritário da burocracia sindical – ligada ao Partido Democrata – estimula e se apoia na divisão da base para não fazer nada contra Trump.

Até agora, é essa combinação da divisão na base com a política das direções sindicais que segue travando a entrada em cena do proletariado nos EUA contra Trump.

Mas a ideologia de “defesa dos operários americanos” (leia-se operários homens e brancos) montada por Trump tende a se esfumar. Virão ataques duríssimos contra o conjunto do proletariado e também contra a própria burocracia sindical com o “Right to Work”. Trump pode conseguir mais empregos (vamos ver se os consegue), mas com os mesmos salários e precarização que são impostos hoje aos imigrantes. E o governo se propõe simplesmente a destruir o atual movimento sindical nos EUA.

Isso não significa que necessariamente o proletariado se coloque em ação caso seja atacado. Pode ser que siga prevalecendo a divisão e a desorganização. Ou ainda que o medo e a insegurança em relação ao emprego se imponham.

Vai depender de como se supera a divisão atual na ação, e como se avança em superar a desorganização causada pela atuação das burocracias sindicais e do Partido Democrata. Ou seja, pode ser que o proletariado se coloque em ação na medida em que avance um processo de reorganização sindical e política no setor.

Uma mudança na situação da luta de classes

Houve claramente uma mudança na situação da luta de classes nos EUA. Não existe mais a estabilidade política que caracterizou a situação do país por décadas.

Podemos sintetizar os elementos atuais que pesam na definição da situação dessa maneira:

  • Economia: crescimento reduzido, que leva a uma ampla insatisfação pelos ataques aos salários e precarização do trabalho. O problema para Trump é que ele prometeu uma rápida retomada de crescimento. Mas não existe uma recessão.
  • Divisão da burguesia, com dois projetos econômicos e políticos.
  • Crise política do governo e no regime, mas sem paralisia. A crise já existia antes, mas com Trump se aprofunda.
  • Uma oposição ao governo da maioria da população, incluídos setores de peso das classes médias.
  • Ascenso importante do movimento de massas, com mobilizações nacionais contra o governo, mas sem a entrada em cena do proletariado.

O início da reorganização do movimento de massas

Existe a possibilidade de que esteja se iniciando um processo de reorganização do movimento de massas importante nos EUA.

A base para essa reorganização é a combinação de alguns elementos:

  • A crise política com o governo Trump.
  • O início do ascenso do movimento de massas.
  • A crise do Partido Democrata, que bloqueava até agora as possibilidades de reorganização sindical e política das massas.

Suas dimensões e características vão depender da evolução concreta da luta de classes.

Existem alguns indícios do início desse processo de reorganização, que incluem:

  • O surgimento e rápido desenvolvimento de novos movimentos contra a opressão. O Black Lives Matter já existia desde 2013, em luta contra a repressão policial, e está se fortalecendo. Existem inúmeros movimentos regionais de mulheres e imigrantes se construindo.
  • Crescimento acelerado de alternativas reformistas como o Democratic Socialists of America. Essa organização é uma ruptura do Partido Socialista em 1972, que depois levou à formação do DSA em 1982. Está diretamente ligada ao Partido Democrata, apoiando a candidatura de Bernie Sanders. Desde a vitória de Trump está tendo um crescimento vertiginoso. Tem um peso essencial na juventude e setores médios do proletariado, como professores. Ainda não tem grande expressão no proletariado, nem entre negros e imigrantes. Essa alternativa reformista ultralimitada está demonstrando o mesmo que o fenômeno Sanders: que o socialismo voltou ao debate nos EUA.

O processo de reorganização pode avançar mais onde se expresse o ascenso. No movimento sindical, ainda não existem grandes alternativas de reorganização. Existem alguns sindicatos combativos, dirigidos por setores de esquerda, como professores de Chicago e portuários de Oakland, sem relação entre si. Como não existe ainda um grande ascenso, existem poucas expressões de reorganização sindical. Mas é possível que exista uma reorganização sindical de peso, caso o proletariado industrial entre em ascenso.

Vai haver mudanças na política de reação democrática?

Trump está sinalizando modificações de peso na política externa dos EUA em vários sentidos.

Em primeiro lugar, na revisão dos tratados de livre comércio, que começou com a retirada dos EUA do TTIP (Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos). Trump está apontando revisões em tratados como o NAFTA e outros acordos, que podem ter significado importante na economia mundial. Provavelmente Trump não se proponha a romper com os outros tratados, mas a revisar os acordos com condições mais draconianas.

Ainda não está clara a dimensão com que o governo dos EUA vai aplicar essa política. Mas essas iniciativas podem ter incidência na crise econômica mundial.

Em segundo lugar, a divisão na burguesia imperialista sinalizada por Trump tem importantes consequências políticas em todo o mundo. Lembremos que a unidade da burguesia ao redor dos planos neoliberais tem sido uma constante nos últimos 20-30 anos. Isso tem um significado importante na relação de forças entre as classes em cada país. A divisão na burguesia imperialista, expressa com Trump no coração do imperialismo, tem consequências mundiais.

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Por exemplo, existem mudanças políticas em suas alianças, com destaque para a relação com Putin, e o reforço das relações com Israel, Arábia Saudita e outros polos contrarrevolucionários. Isso tem consequências importantes em todos os sentidos. Na Europa, afeta a relação fundamental dos EUA com a Alemanha, base para o equilíbrio imperialista, devido à proximidade Trump-Putin e o apoio ao Brexit. No Oriente Médio, afeta diretamente a relação com o Irã e a Autoridade Palestina.

Em terceiro lugar, existe também a possibilidade de mudanças na principal política externa do imperialismo de reação democrática, com um novo giro bonapartista. Esse tema tem enorme importância pelas óbvias repercussões sobre o conjunto da situação mundial.

A política que chamamos de “reação democrática” tem uma enorme importância para o imperialismo, tendo sido sua principal política para derrotar os ascensos revolucionários no mundo.

Essa política combina:

  • A canalização dos processos revolucionários para as eleições na democracia burguesa, com a participação ativa das direções reformistas do movimento. Assim foi derrotada a revolução portuguesa (1974-75) e canalizados os processos revolucionários que derrubaram as ditaduras na América Latina nas décadas de 1970 e 1980 e no Leste Europeu na década de 1990.
  • Os “acordos de paz”, com as direções burguesas e reformistas, como o de Contadora (1983) e Esquipulas (1987), que derrotaram o processo revolucionário na América Central; os acordos de Oslo (1993); o acordo com o Irã; o acordo de paz na Colômbia do governo com as FARC; o recente acordo Obama-Castro.

É importante localizar que se trata de uma adequação do imperialismo a uma determinada relação de forças no mundo, com a qual busca manter sua hegemonia, mas reconhece que não pode fazê-lo usando prioritariamente a repressão e os golpes militares. Privilegia os acordos com as direções reformistas e burguesas do movimento.

Na América Latina – área de dominação direta do imperialismo norte-americano -, a política anterior à reação democrática levou a golpes na Guatemala (1954), Paraguai (1954), República Dominicana (1963), Brasil (1964), Bolívia (1971), Uruguai (1973), Chile (1973), Argentina (1976) e outros.

Não por acaso, a “reação democrática” nasce com o governo Carter (1977) depois da derrota do imperialismo norte-americano no Vietnã.

No entanto, também é necessário entender que não se trata de uma via de mão única, mas de uma combinação de políticas em que prima a tática da reação democrática. Isso significa que o uso da força militar, com golpes e invasões, permanece como tática possível caso a situação revolucionária saia do controle.

Significa também que muitas vezes existe uma combinação das táticas da reação democrática e de políticas bonapartistas em que uma está a serviço da outra. Por exemplo, o acordo de Esquipulas só foi possível porque houve a utilização da força militar das milícias contrarrevolucionárias na América Central. Essas milícias foram armadas e financiadas pelo imperialismo norte-americano para pressionar a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional – Nicarágua) e a FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional – El Salvador). Aqui a força militar esteve a serviço da política principal de reação democrática.

No Oriente Médio, pelas condições particulares da região (existência de Israel e a importância estratégica do petróleo), a reação democrática não é a política principal do imperialismo, e sim a imposição militar pelo Estado israelense. Ali, os acordos de Oslo (reação democrática) servem ao objetivo de legitimação da imposição militar israelense.

Como já dissemos, a tática da reação democrática teve e tem uma enorme importância na política do imperialismo para derrotar os processos revolucionários.

O governo Bush buscou secundarizar essa tática prioritária, aplicando um giro bonapartista na política externa dos EUA. Com o discurso da luta contra o terrorismo, aproveitando-se do ataque às Torres Gêmeas em 2001, invadiu o Iraque e o Afeganistão.

Existia antes disso a chamada “síndrome do Vietnã” – reflexo nas massas norte-americanas da derrota no Vietnã -, que levava o povo dos EUA a não apoiar invasões militares. Existe toda uma série de evidências de que o governo dos EUA sabia da preparação dos atentados às Torres Gêmeas e deixou correr para criar um clima propício a novas invasões militares. Com essa manobra, conseguiu ganhar novamente as massas norte-americanas e invadiu o Iraque e o Afeganistão.

Uma série de outras iniciativas bonapartistas se deu na mesma época com o apoio do imperialismo, como a invasão do Líbano por Israel e o golpe na Venezuela contra Chávez.

Os resultados, como sabemos, foram grandes derrotas para o imperialismo em todas essas regiões. Nos EUA, a derrota no Iraque reviveu a rejeição das massas às invasões militares, que agora se chama “síndrome do Iraque”.

É necessário ter em conta que o giro bonapartista de Bush não era um recuo à política do imperialismo de golpes militares em todos os lados. Não era um abandono da política de reação democrática, mas uma secundarização da mesma.

Bush, mesmo expressando um giro bonapartista, acomodou-se ao ascenso latino-americano que levou a governos nacionalistas burgueses e de frente popular como Lula, Tabaré Vázquez, Bachelet, Kirchner, Rafael Correa, Daniel Ortega, Evo Morales, durante os seus mandatos (2001-2008). Isso é uma expressão de que o imperialismo nem sempre faz o que quer, mas o que pode. Bush apoiou o golpe contra Chávez em 2002, mas se acomodou aos governos nacionalistas burgueses e de frente popular no continente.

Nesse sentido, é importante notar que a única vitória importante nas invasões militares foi a do Haiti (2004), porque contou – a pedido de Bush – com a colaboração dos governos de colaboração de classes da América Latina, com Lula à frente.

O governo Obama expressou uma readequação do imperialismo à derrota do giro bonapartista de Bush. Obama fez uma reedição em grande escala da política da reação democrática, acumulando vitórias nesse terreno (acordo com o Irã, com as FARC, com Castro).

Será que agora Trump está apontando um novo giro bonapartista na política principal norte-americana, semelhante ao promovido por Bush, secundarizando a reação democrática?

Existem diferenças em relação a Bush. A ideologia de Trump não é o “novo século americano”, de disputa pelo petróleo em nível mundial com invasões militares, etc. É o nacionalismo imperialista “América primeiro”, de volta aos EUA.

Em nível internacional, aparentemente Trump aposta em se apoiar em postos-chave da contrarrevolução mundial – como Israel, a Rússia de Putin, a Síria de Assad, a Arábia Saudita – para conter de forma bonapartista a revolução.

Trump não tem – até agora pelo menos – a maioria da burguesia imperialista do seu lado, como tinha Bush. Não tem – também até agora – tampouco o apoio das massas norte-americanas às invasões militares, como Bush conseguiu após o ataque às Torres Gêmeas.

Isso é claramente um limite às pretensões bonapartistas e belicistas de Trump. No entanto, ele tampouco é igual a Bush em outro aspecto. Ele não é um quadro político formado pelo establishment republicano, para incorporar essas questões às suas definições. Pode atuar, nesse sentido, de maneira mais imprevisível.

Caso Trump deixasse de lado a reação democrática, empurraria os conflitos regionais para uma polarização maior. Isso poderia levar a intervenções militares e conflitos regionais. Um sinal nesse sentido é que Trump fez dos gastos militares o único setor no qual as despesas se elevarão em sua proposta orçamentária.

As consequências dessa política – caso seja realmente aplicada – serão grandes estímulos a uma forte polarização da luta de classes em regiões importantes do planeta.

O abandono da política de “dois Estados” para a Palestina legitima os novos assentamentos de Israel e tiram a sustentação a Abbas, detonando de vez os acordos de Oslo. Israel vai tentar mais uma vez esmagar a resistência palestina. A consequência – ao contrário – pode ser um novo impulso à terceira intifada.

A revisão dos acordos com o Irã vai desequilibrar um processo construído por dezenas de anos. O governo iraniano é parte fundamental, nesse momento, da sustentação do governo iraquiano e do apoio a Assad na Síria.

Uma mudança da política de reação democrática teria também profundas consequências na América Latina. Será que essa é a perspectiva? É preciso observar a realidade pelas óbvias consequências no continente.

As iniciativas belicistas ultrarreacionárias de Trump ainda não definem a política externa. O bombardeio à Síria – aparentemente com aviso anterior aos russos -, ao Afeganistão e as ameaças à Coréia do Norte não ultrapassaram até agora os limites dos governos anteriores. O imperialismo segue, até agora, evitando invasões militares terrestres pelo medo das baixas e da reação das massas norte-americanas.

A situação mundial, como viemos analisando, está evoluindo para uma instabilização crescente em várias regiões como a Europa, América Latina, México, e agora os EUA. A combinação de crise econômica, crises políticas dos governos que aplicam os planos neoliberais, crise do aparato stalinista mundial, crises dos partidos reformistas, tende a gerar novas crises e ascensos no mundo.

Trump já é uma expressão dessa polarização dentro dos EUA. E, por outro lado, amplia essa polarização em nível mundial por sua política.

Hoje a situação mundial está bem mais instável e polarizada que no governo Bush no início do século e antes da grande crise econômica de 2007-2009.

Caso se dê o abandono da reação democrática por parte de Trump, isso tenderia a polarizar ainda mais a situação mundial, com reflexos importantes em regiões como Oriente Médio, México e partes da Europa.

Não se pode definir a resultante desses enfrentamentos. A polarização tende a levar a vitórias e derrotas – ainda que parciais e momentâneas – de um dos componentes. Isso significa – em essência – um mundo mais instável em várias regiões. A começar pelos EUA.