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É necessário romper com o Partido Democrata para mudar nossas prioridades políticas e desenvolver uma campanha da classe trabalhadora.

Por: Florence Oppen

Quando Sanders começou sua campanha pela nomeação do Partido Democrata, ele só tinha 3% de apoio nas pesquisas. Hoje ele está desafiando abertamente Hillary Clinton, que, como Obama em 2008 e 2012, é claramente a candidata preferida do 1% de poderosos. No entanto, Clinton até agora ganhou 1.243 delegados eleitos, além de 469 superdelegados[1], enquanto Sanders ganhou uma surpreendente soma de 975 delegados, mas tem o apoio de apenas 29 superdelegados.

Por que a campanha de Sanders está atraindo tantos jovens, ganhando amplo apoio, e pelo menos parece desafiar – de um ponto de vista progressista – a política pró-corporações do Partido Democrata (PD)? A verdade é que a campanha de Sanders cresceu e reuniu o apoio popular porque tem levantado um debate importante: quais são as nossas prioridades nacionais?

Há um número massivo de pessoas entusiasmadas com a campanha de Sanders porque ele está falando algumas verdades importantes pela primeira vez em décadas: há uma crise clara de prioridades nacionais, em que o governo está a serviço do 1% e não dos trabalhadores, e em que há um claro conluio entre as grandes corporações e “lobbies” e a elite do sistema de dois partidos.

Como Sanders declarou no debate em Michigan em 6 de março: “Como isso acontece no país mais rico da história? Quais são as nossas prioridades quando, entre outros, os republicanos lutam por centenas de bilhões de dólares em redução de impostos para as pessoas mais ricas? Como é que nós temos tanto dinheiro disponível para ir para a guerra no Iraque e gastar trilhões de dólares? Por outro lado, não tem dinheiro suficiente para Flint[2], mas não apenas para Flint… existem comunidades em todo o país, e não é apenas a infraestrutura, é a educação, a escola pública de Detroit está em colapso!… O central é, e o que minha campanha é, é a mudança de nossas prioridades. Precisamos de um governo que trabalhe para todos nós, não apenas para os doadores ricos de campanhas [eleitorais]”.

A verdade é que Sanders propôs algumas reformas que são senso comum em “democracias” capitalistas como França, Alemanha e Canadá, mas que foram descartadas como “impossíveis” nos EUA desde a década de 1930:

  • Saúde pública gratuita para todos e expansão dos programas de previdência social;
  • Educação superior pública e gratuita;
  • Salário mínimo de US$ 15/hora, férias pagas anuais, direito à licença médica e à licença maternidade e paternidade;
  • Salário igual para homens e mulheres;
  • Renovação da infraestrutura do país e criação de 13 milhões de novos postos de trabalho;
  • Aumento de impostos para os milionários e bilionários para financiar obras públicas e serviços públicos.

A razão do sucesso da campanha de Sanders: o fracasso do capitalismo

Na verdade, a campanha de Sanders está ocorrendo em meio a uma recuperação econômica que não existe para os trabalhadores, ao mesmo tempo em que as grandes corporações continuam obtendo lucros gigantescos. Os trabalhadores dos Estados Unidos estão frustrados e descontentes com o tratamento que o governo vem dando à crise econômica, que continua celebrando a “boa saúde” da economia. Um artigo do The Guardian [jornal inglês] observou que os números do governo sobre emprego escondem uma realidade terrível: “Durante todo o ano [de 2015], os salários subiram modestos 2,4%, mas ainda bem abaixo das taxas pré-recessão. O mesmo ocorre com a relação emprego-população. O crescimento do emprego está concentrado no setor de serviços – saúde, comércio e restaurantes – e, especialmente, em trabalhos de tempo parcial, com um aumento de 489.000 em comparação com 65.000 novos postos de trabalho em tempo integral. Empregos na indústria, muito elogiados pela Casa Branca como uma característica marcante da recuperação, estão em baixa”.

Neste contexto, Sanders conseguiu conectar-se com essas frustrações e apontar as mentiras e a verdadeira essência do governo Obama: um governo para os ricos. Mesmo assim, contraditoriamente, ele evita atacá-lo diretamente e defende o seu mandato “globalmente”.

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Mas Sanders está conseguindo fazer algo mais do que “representar” ou “dar voz” a este descontentamento. Ele também está canalizando todas as frustrações e renovando as esperanças em um processo eleitoral manipulado: a eleição presidencial. Ele está propondo um programa de reforma econômica radical – está longe de ser um socialista, mas não deixa de ser um socialdemocrata “original”.

A campanha de Sanders está expondo os pontos fracos da “democracia” norte-americana

No entanto, enquanto atrai dezenas de milhares de pessoas, a campanha eleitoral de Sanders expõe abertamente os pontos fracos da ideologia da classe média norte-americana. Embora ele seja apoiado por setores da classe operária branca, ele expressa os valores da classe média em sua adesão acrítica ao ideal da “democracia norte-americana”. Sanders acha que pode participar das eleições com um programa “socialista”, sem tomar uma posição clara contra o imperialismo norte-americano e suas intervenções militares, a luta contra o racismo e pelos direitos dos imigrantes.

Nestas questões, que são a essência e o fundamento do capitalismo norte-americano, Sanders mostrou que não tem uma verdadeira “alma socialista”. Ao contrário, apoia o projeto da América das multinacionais: ele votou a favor de inúmeras intervenções norte-americanas no exterior (sanções ao Iraque em 1991, guerra no Afeganistão em 2001), é um forte defensor de Israel, opõe-se a qualquer política de reparação dos direitos dos negros e rejeita as propostas básicas de acabar com a desmilitarização da fronteira [com o México] e dar plena cidadania a todos os trabalhadores imigrantes e suas famílias. Sanders acredita que as multinacionais, o imperialismo e as fronteiras militarizadas são necessários para uma renovada democracia “norte-americana”.

Estas são algumas das principais razões pelas quais a maioria dos latinos, da juventude árabe e dos jovens negros (que são muito ativos na campanha Black Lives Matter), ativistas antiguerra e os movimentos pelos direitos dos imigrantes não estejam animados com a campanha de Sanders. Esta jovem geração da classe trabalhadora negra já fez uma “experiência” com o Partido Democrata e ficou tremendamente decepcionada com Obama. E Sanders se parece muito com um Obama com um programa econômico mais radical de reformas, mas ainda com o compromisso de ser o “líder do mundo livre” e de manter um sistema mundial de exploração, de miséria e de guerras. Isto é ainda mais insuportável para uma parcela crescente de norte-americanos que não concorda mais com o que o seu governo está impondo em todo o mundo.

Este ponto fraco da classe média branca progressista agora está em jogo: é a ideia de que esta “democracia norte-americana” – que foi construída sobre o genocídio dos povos indígenas, sobre o trabalho escravo dos negros, sobre as mortes de imigrantes nas fronteiras do país, e sobre a superexploração do trabalho, e que tem realizado tantas guerras, derrubado governos democráticos, realizado execuções sumárias – seja algo que valha a pena salvar, regenerando-a ou mesmo algo que seja possível reformar. Nós, socialistas, argumentamos que ela tem que ser derrubada pelos trabalhadores na luta! Portanto, as eleições devem ser um momento para levantar estas questões e avançar em nossa luta.

O Partido Democrata não pode ser reformado: Sanders deve romper com ele agora

Bernie Sanders é um político que construiu sua carreira de 30 anos favorecido pela ordem estabelecida. Ele fez inúmeros acordos com o Partido Democrata para sua carreira política progredir e na maioria das vezes votou com eles no Senado. Ele diz que fez isso com a esperança de transformar aquele que se tornou o partido mais corrupto e pró-empresários (PD) e as instituições que permitiram a ascensão e a cumplicidade da política com o poder do capital. Seu projeto de longo prazo é transformar o Partido Democrata, o Congresso e o Senado dos EUA para que eles possam realmente “servir ao povo”. No debate do Partido Democrata no dia 6 de março, ele disse: “Nós vivemos em uma democracia… e eu confio no povo para criar um governo para ele e não para Wall Street ou para a América corporativa”. E ele quer fazer isso ganhando a eleição presidencial de 2016.

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Nós não achamos que o Partido Democrata seja democrático de forma alguma! O fato de que a liderança do partido tenha apoiado Hillary Clinton desde o início para que ela receba centenas de votos extras [dos superdelegados] para “equilibrar” os votos do povo nas primárias estaduais já é escandaloso. Mas isso não deveria surpreender – este é o partido que foi fundado e é mantido pelo dinheiro das multinacionais e das empresas de financiamento de campanha eleitoral [conhecidas como PAC e Super-PAC[3]].

Em janeiro, Sanders sublinhou mais uma vez que seu objetivo é reformar o principal partido burguês: “O Partido Democrata precisa de uma grande reforma. Em vez de ser dependente de super-PACs, o que precisamos é ser dependente dos pequenos contribuintes individuais de campanha. Precisamos de um programa que defenda as necessidades das famílias trabalhadoras e das pessoas de baixa renda. Não dos ricos financiadores de campanha“. Mas esse não é o tipo de reforma que os trabalhadores precisam.

Nós pensamos que é impossível reformar o PD por causa de sua história e de sua natureza de classe enraizada (que era e ainda é o partido de um setor majoritário de capitalistas e multinacionais). Além disso, mesmo que Sanders ganhe as eleições, ele não poderá aplicar metade das suas reformas econômicas por causa do controle férreo das grandes corporações, dos lobbies e dos grupos de pressão estabelecidos no Congresso e no Senado. Uma grande onda de lutas sociais, ações de massa e greves será necessária fazer com que as novas leis trabalhistas que ele propõe sejam aprovadas e aplicadas.

Sanders está levantando reivindicações econômicas cruciais para a sobrevivência e melhoria da vida da classe trabalhadora, que não são levantadas desde os anos 1930, e por isso ele deveria fazer de tudo para que os trabalhadores e os jovens não se sintam traídos mais uma vez. Ele deveria usar a sua campanha eleitoral para apoiar e dar visibilidade às lutas em curso, uni-las e mobilizar para que tenham apoio, como a campanha do salário mínimo de US$ 15/hora, as ações contra as deportações, a greve da Associação de Docentes da Califórnia ou as muitas ações planejadas para o dia 1º de maio.

Porém, além da ação, a fim de lutar por uma mudança de prioridades nacionais, como Sanders está propondo, precisamos de uma nova ferramenta política: uma ampla frente política independente e democrática das organizações, sindicatos, grupos comunitários e da esquerda, sob uma clara perspectiva da classe trabalhadora. E precisamos começar a construir agora, com todos os apoiadores da campanha de Sanders, exigir que ele faça a escolha lógica de deixar o PD para realmente defender a sua plataforma. Se Bernie Sanders realmente quer honrar seu programa econômico, ele deve romper com o PD agora, incluir no seu programa as demandas da juventude negra e latina, fazer um compromisso real para acabar com qualquer intervenção militar ou política dos EUA no exterior e começar a construir esta frente independente da classe trabalhadora, de ativistas e organizações de esquerda.

Nesse meio tempo, e independentemente do que Sanders faça, o que está claro é que todos os ativistas, mesmo os apoiadores de Sanders, precisam tomar nas suas próprias mãos a luta pelas necessidades dos 99% – os trabalhadores e pobres – unindo as lutas e ampliando suas ações. Precisamos construir uma base forte e uma frente de luta para combater o crescente racismo da campanha de Trump [principal candidato à convenção do Partido Republicano] e lutar por nossas reivindicações. O aspecto que deve diferenciar esta campanha eleitoral de outras são as grandes lutas em curso e uma ruptura real dos negócios eleitorais pela base. O 1º de maio – Dia Internacional dos Trabalhadores – é um passo à frente nesse sentido!

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A campanha de Sanders está expondo a falta de democracia nos Sindicatos

Um efeito colateral da campanha de Bernie Sanders é que, pela primeira vez em décadas, os trabalhadores estão frustrados com as lideranças de seus sindicatos. Enquanto as principais federações da AFL-CIO [central sindical norte-americana] e a coligação Change to Win [Mudar para Vencer] endossam Hillary Clinton sem consultar seus membros, a plataforma “Trabalhadores por Bernie” está crescendo e expondo a gestão corrupta e burocrática dos sindicatos.

Atualmente, oito federações nacionais apoiam Sanders: a CNA (enfermeiros), NUHW (profissionais de saúde), UE (eletricistas), CWA (trabalhadores de comunicação), APWU (trabalhadores dos correios), ATU (trabalhadores dos transportes) e ILWU (trabalhadores de portos/estivadores). Além disso, mais de 90 sindicatos locais endossam Bernie desafiando suas federações nacionais que apoiam Clinton.

Esta situação tem sido particularmente preocupante para os trabalhadores e ativistas sindicais, pois Sanders claramente tem uma plataforma pró-trabalhadores e levanta demandas mais radicais que os próprios líderes sindicais, enquanto Clinton tem um histórico terrível de desrespeitar os direitos sindicais (ela foi membro do conselho administrativo da Walmart!) e inclusive é contra o salário mínimo de US$ 15! Como federações sindicais como a AFSCME, SEIU, UNITE HERE e UFCW  podem apoiar Clinton, quando ela se opõe claramente às demandas mais básicas de seus próprios membros?

Por isso, é importante exigir um processo democrático e transparente em todos os sindicatos, a fim de discutir os apoios aos candidatos. Neste processo, os membros terão a oportunidade de compartilhar suas opiniões e discutir de forma coletiva sobre qual deve ser a postura política do sindicato. Nenhum apoio político é realmente significativo se for feito de forma burocrática, de cima para baixo. Mesmo se for um apoio a Sanders! A democracia é a marca da política radical, então vamos aprender com a campanha de 2016 para fazer mudanças reais em nossos sindicatos!

Sanders: rompa com o PD e apoie abertamente todas as lutas dos trabalhadores e setores oprimidos!

Precisamos construir uma frente independente da classe trabalhadora de ativistas e organizações para lutar por nossas reivindicações!

Todos ao 1º de Maio! Direitos integrais a todos os imigrantes! Contra os ataques aos imigrantes!

Notas:

[1] Superdelegados são delegados pré-definidos, livres para votar em qualquer pré-candidato à presidência na Convenção Nacional do Partido Democrata (o Partido Republicano tem um mecanismo similar). São líderes partidários e membros com cargos eletivos, incluindo todos os deputados, senadores e governadores pelo partido. Como não estão submetidos aos resultados das convenções estaduais, podem fazer a balança pender para qualquer pré-candidato.

[2] Flint é a cidade onde o debate foi realizado e atualmente é conhecida pela grave crise da contaminação da água com chumbo.

[3] PAC – Political Action Committee (Comitê de Ação Política) – são comitês eleitorais com o objetivo de arrecadação financeira junto às grandes empresas e milionários.

Tradução: Marcos Margarido