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A tormenta da repressão contra os imigrantes foi a política que mais teve continuidade em cada uma das administrações que chegaram ao governo dos Estados Unidos. Hoje, com a vitória de Donald Trump como presidente, parece que a tormenta continuará a chover no molhado. Isso ocorre exatamente depois de termos sido fortemente afetados por uma tempestade com furacões não prevista como foi a administração Obama, que promoveu uma caçada humana, a maior vista na história recente.

Por: Corriente Obrera (organização simpatizante da LIT-QI)

Uma perseguição humana que foi executada em todo o país, tendo como resultado mais de 3 milhões de deportados em dois mandatos presidenciais consecutivos. E, embora as capturas e as deportações continuassem ocorrendo, Obama deixava seus seguidores boquiabertos com discursos que não continham nada além de hipocrisia e chantagem política, procurando assim mascarar essa realidade tão desumana e repressiva que ele próprio ordenou contra os imigrantes, com perseguição, prisão e deportações massivas.

Agora, com a crise do Partido Democrata, abre-se uma possibilidade de mobilização dos imigrantes, como parte da luta dos trabalhadores contra o governo Trump, uma luta independente do Partido Democrata.

Os imigrantes ilegais no olho do furacão

Os imigrantes ilegais são provavelmente o setor que mais foi ameaçado diretamente por Trump. Portanto, é de se esperar que ele cumpra suas promessas, pois, de qualquer maneira, é uma das comunidades mais discriminadas e reprimidas no país. Mas isso acontece porque não há um bom nível de organização, em função de que os democratas se encarregaram de impedir que isso acontecesse, desarticulando constantemente a consciência, a organização e a luta dos imigrantes.

A comunidade está na expectativa de como iniciar a luta. Veem como todos os espaços estão controlados por organizações ligadas aos supostos “bons” democratas, as organizações que cobram elevados preços dos imigrantes por qualquer trâmite legal. Por outro lado, a última eleição deixou claro que os trabalhadores e a maioria dos imigrantes perderam quase toda a confiança em qualquer governo dos Estados Unidos.

Mas, apesar de tudo, com todas as contradições que existem, os imigrantes têm sido um setor social com muita dinâmica de luta. Às vezes, com ações massivas e outras vezes nem tanto. Mas desenvolveram muito ativismo ao longo de vários anos, como na época dos anos 1980, em várias cidades norte-americanas, participando massivamente em protestos contra as guerras intervencionistas na América Central, em solidariedade com as lutas desses povos. As mobilizações que antes tinham participação limitada converteram-se em grandes mobilizações com muita energia, porque esse novo componente migratório da América Central recém havia chegado.

Em 1994, os imigrantes deram outra mostra de sua organização e combatividade com uma variedade de protestos para enfrentar a Proposição 187, uma lei anti-imigração introduzida pelo governador republicano da Califórnia, Pete Wilson, aprovada pelo governo, mas rejeitada pela comunidade, quando ocorreu uma das maiores mobilizações (em 16 de outubro de 1994), com um protesto massivo (ainda maior do que os protestos ocorridos em Los Angeles contra a guerra do Vietnã). Em 2006, mais de 1 milhão se mobilizaram em Los Angeles e vários milhões em todo o país. Tais manifestações pressionaram a Corte a declarar essa lei inconstitucional.

Os imigrantes e seu movimento sofrem de um grande problema, que reside na falta de organização, e isso tem a ver com o Partido Democrata, porque a maioria das organizações que dizem lutar pelos imigrantes é influenciada e financiada pelo governo, o mesmo governo que reprime e promove as capturas e deportações.

Se isso continuar, a luta não poderá avançar. Enquanto as organizações supostamente pró-imigrantes permanecerem sob a influência política e o controle organizativo do governo, a causa dos imigrantes continuará amarrada, controlada e dirigida por essa burocracia sindical e comunitária, o que torna impossível seguir seu curso normal, rebelde e antigoverno.

A única possibilidade de avançar na luta dos imigrantes é que ela se torne parte da luta conjunta dos trabalhadores contra a burguesia. Não há possibilidade de unificar na luta os trabalhadores imigrantes com aqueles imigrantes que são agora parte da burguesia norte-americana.

É a burguesia quem procura dividir os trabalhadores imigrantes dos outros trabalhadores com posições xenófobas. É preciso lutar pela unidade dos trabalhadores, o que significa lutar duramente contra as posições xenófobas dentro do movimento sindical e contra a burguesia e as direções reformistas que as estimulam, combatendo a influência republicana e democrata entre os trabalhadores.

Devemos nos lembrar que as lutas dos povos nunca ocorrem de mãos dadas com os governos que os reprimem, e essa regra também se aplica aqui nos Estados Unidos. Por essa razão, especificamente, é preciso lutar completamente livres da influência política do governo, que sempre vem acompanhada dos recursos econômicos que o governo dá a esse tipo de organizações burocráticas.

A atmosfera após a vitória eleitoral de Trump é pesada: a dinâmica de Trump com a formação de seu gabinete indica que seu plano reacionário está bem firme. Ao mesmo tempo, com temor e surpresa, os imigrantes estão prestando atenção e fixando o seu olhar sobre o que está acontecendo. Alguns estão se organizando e outros querendo saber o que fazer para enfrentar este futuro incerto. Enquanto isso, os protestos começaram em diferentes setores, especialmente entre os jovens, a partir do momento em que Trump foi anunciado vencedor (naquela mesma noite às 4 da manhã) e continuaram assim, dia e noite, durante 3 semanas. Essa dinâmica parece configurar o que poderia ser a resposta do povo e dos imigrantes a Trump. Essa é a situação em que estão as comunidades de imigrantes.

Dividir para conquistar: comprar ativistas para paralisar sua luta

Sabemos que a consciência dos povos que estão em luta avança quando se veem ameaçados e reprimidos. É como uma lei natural que tem se manifestado por toda a história da luta de classes. Embora não seja possível prever o futuro sobre os níveis de luta que poderiam acontecer, pode-se assinalar elementos que, de certa forma, indicam que os imigrantes de fato lutaram mais e melhor. Porque vimos sua reação diante do estado atual de coisas e, em diversas ocasiões, sua disposição de fazer com que essa luta justa avance e triunfe. Porque se trata de filhos, filhas, pais, mães, irmãos, irmãs, avós, amigos, namoradas, esposas e maridos. Em outras palavras, trata-se do que é mais importante para todo ser humano: sua família e seus entes queridos, justamente aqueles que estão ameaçados com as capturas e deportações, e esse é o elemento mobilizador fundamental.

Os elementos que explicam por que a luta não avança são muito importantes e devem ser bem explicados para que sejam plenamente compreendidos.

Quando Obama aprovou as políticas DACA e DAPA [1], apesar de prometer um alívio para um setor de imigrantes ilegais (especialmente jovens estudantes e os pais de alguns deles), tratava-se apenas de uma ilusão. Mas uma ilusão com objetivos políticos específicos para o governo: dividir e paralisar a luta, instituir a separação entre os dois setores criados — aqueles que se qualificariam e aqueles que não se qualificariam. Ao mesmo tempo, tratava-se de deixar a maioria dos imigrantes sem qualificação, para continuar usando-os como mão de obra barata, sem benefícios sociais, permitindo assim às pequenas, médias e grandes corporações que obtivessem lucros rapidamente.

Esses dois programas de imigração foram criados, basicamente, para dividir completamente o movimento pró-imigrante, na medida em que hoje (dezembro de 2016) as exigências estão focadas principalmente na manutenção desses dois programas. A reivindicação fundamental foi deixada de lado: a legalização completa e imediata para todos os imigrantes! Que também incluísse um mecanismo para a reunificação familiar para que os deportados pudessem regressar ao país, recuperar seus direitos e ser reintegrados em suas famílias.

Isso não significa que não se deva aproveitar a DACA/DAPA. Pelo contrário, deve-se fazê-lo (e defendê-las se forem atacadas), uma vez que tudo o que se possa arrancar do governo que nos dê direitos e resolva a situação, mesmo parcial e temporariamente e somente para alguns, deve ser usado, mas sem perder de vista o objetivo central desta luta: direitos plenos, imediatamente, e para todos!

Todo este retrocesso nas reivindicações políticas fundamentais é produto da influência trapaceira dos democratas que, com todos os seus recursos, dominam agora uma grande parte das organizações, que, tais como os sindicatos, são dirigidas por burocratas corruptos, responsáveis por fazer com que a luta imigrante não avance e não se desenvolva, mantendo-a amarrada aos parâmetros políticos/organizativos que o governo democrata/republicano dita.

Nessas organizações, aqueles que tentam criticar a administração democrata de Obama são deixados de lado e humilhados, para que mais ninguém se atreva a fazer tais críticas. Essas organizações oferecem diversos serviços legais para os imigrantes: em defesa dos direitos civis, humanos, culturais e de minorias. Mas os recursos de que dispõem vêm das corporações e dos democratas que estão no governo e funcionam de forma não-democrática. Por isso, estão condenadas a partilhar a visão, os objetivos, a corrupção e a política corporativa do governo.

Os serviços que oferecem são usados para influenciar politicamente a população. Outro objetivo é procurar identificar os ativistas que já estão lutando pelos imigrantes nas comunidades, nas escolas, nas fábricas e nas ruas. Para esses ativistas, é oferecido um salário, privilégios, recursos para reforçar seu “ativismo”; toda uma variedade de “oportunidades” para que façam “ativismo” confortavelmente, o que é apresentado como um avanço pessoal, porque é como continuar a lutar com a comunidade, mas com salário e outros benefícios, além de continuar numa organização “reconhecida”.

O que essas organizações “pró-imigrantes” não explicam é que, comprometendo-se a trabalhar dessa forma, estão sujeitas e obrigadas a defender as políticas do governo, as propostas dos democratas e, assim, adaptar-se à visão de que os democratas são “bons” e os republicanos “maus”, caindo na discussão política sem fim sobre qual dos dois partidos é o mais anti-imigrante. Negam, dessa forma, o fato de que ambos, democratas e republicanos, são partidos racistas, repressivos e anti-imigrantes.

O papel que esses ativistas desempenham, uma vez que tenham sido contratados por salário (ou usados como voluntários por essas organizações pró-governamentais burocráticas), não é mais o de lutadores sociais, mas sim o de uma barreira de contenção, responsável por paralisar e esfriar os ânimos e iniciativas de luta das comunidades de imigrantes.

Essas organizações, como CHIRLA, CARECEN, Hermandad Mexicana e Vamos Unidos USA, apenas para mencionar algumas, criaram uma burocracia comunitária para aliciar adeptos para o Partido Democrata. Elas mentem e traem a luta, porque promovem a ideia de que os democratas são “aliados” e “defensores” dos pobres, trabalhadores e imigrantes. Escondem realidades devastadoras, como os mais de 3 milhões de deportados por esse presidente democrata, que promovem como “grande humanista e progressista”. Alguns chegam ao delírio desenfreado de chamar o presidente Obama, o “deportador-em-chefe”, de “socialista”.

Esses burocratas sindicais e comunitários apoiaram algumas manifestações porque não puderam mais impedi-las, dado o impulso dos trabalhadores imigrantes e a luta popular, que tem pressionado essas burocracias a fazer alguma coisa e a enfrentar os ataques do governo democrata ou republicano, e, portanto, forçaram-nas a fazer uso de todo o aparato que controlam, e que de fato consegue mobilizar muita gente.

Em defesa da organização independente, sem influência democrata ou republicana

O que nós, imigrantes, necessitamos é nos organizar de forma independente. Que não exista um único vínculo com os partidos corporativos racistas, repressores e anti-imigrantes, como são os democratas e republicanos. Um movimento amplo e democrático que busque aliar-se e apoiar-se nas outras minorias e na classe operária, para desenvolver a unidade de ação com outras organizações que já estão lutando e defendendo outras causas.

Um movimento livre da influência governamental, corporativa e democrata certamente conseguirá se desenvolver mais, porque, não sendo mais influenciado pela barreira de contenção burocrática e traidora, uma verdadeira correia de transmissão contra o avanço das lutas, criará espaço para novas propostas e iniciativas dos imigrantes e dará um grande impulso à sua organização e luta.

Acreditamos que a luta contra as iniciativas racistas do governo Trump só será vitoriosa através de comitês organizadores de resistência, que devem ser organizados em escolas, bairros, igrejas e locais de trabalho. Esses comitês deverão discutir internamente as tarefas específicas que devem ser desenvolvidas em defesa de seus interesses.

Há muitas outras coisas a fazer para dar força a essa luta. Em primeiro lugar, perceber que em todo conflito social, em particular contra a ganância corporativa, se não temos nada com o que pressioná-los para que aceitem as reivindicações apresentadas, será difícil arrancar algo substancial nesse sentido. Somente criando uma força de pressão efetiva faremos com que o governo ceda neste conflito social dos imigrantes, utilizando métodos operários de luta como a mobilização constante, greves e boicotes.

Isso significa que precisamos formar comitês de apoio para ir falar com os operários, sindicalizados ou não, para explicar a eles essa possibilidade da greve geral, muito maior do que a que ocorreu em 2006, quando vários setores isoladamente paralisaram.

Agora, para incentivar essa greve geral, não poderemos baseá-la única e exclusivamente no conflito social dos imigrantes. Logicamente, deveremos incluir tudo o que interesse aos trabalhadores, como melhores salários, saúde de qualidade completamente coberta pelo governo, pagamento para os dias de afastamento por doença, entre outras coisas. Exigências que beneficiem toda a classe trabalhadora, da qual faz parte a grande maioria dos imigrantes. Podemos incluir a defesa das comunidades não brancas (negras, latinas e muçulmanas) que são reprimidas pela polícia, direitos iguais para as mulheres, o respeito para a comunidade LGBTQ, etc.

Além disso, este conflito social entre os imigrantes e o governo corporativo democrata ou republicano não deve ser visto apenas dentro das fronteiras dos Estados Unidos, pois as comunidades de imigrantes têm vínculos com seus povos de origem. E não só isso: eles são o pilar da economia de vários países e esse é um elemento muito importante, porque cria a possibilidade de estender sua luta e construir apoio em um boicote que, caso seja realizado, não cairia num campo estéril, mas num terreno muito fértil, uma vez que a grande maioria desses povos estão em pé de guerra, em luta contra seus governos e têm, de certo modo, um sentimento anti-imperialista.

Assim, estender o chamado ao boicote e pronunciar-se contra as capturas e deportações não é uma ideia descabida, muito pelo contrário. Poderia ser o início de uma interrelação dos povos que lutam, muito necessária aqui e em outros países. Mas, para que ocorra essa relação entre os povos em luta, é necessário apresentar exigências ou reivindicações que correspondam aos interesses de todos esses povos irmãos em luta. Essas demandas poderiam ser: Fim de todas as formas de ingerência sobre os países em desenvolvimento, de onde vêm os imigrantes! Pelo respeito à sua soberania e livre escolha de seus governos, sem a intervenção dos Estados Unidos ou de qualquer de seus aliados imperialistas, incluindo as corporações multinacionais! Fim da repressão aos povos em luta! Respeitar os protestos, greves e qualquer ação que os povos decidam realizar para impulsionar suas lutas e defender seus interesses!

Em suma, os problemas que afetam os povos de onde vêm os imigrantes, causados principalmente pela política exterior dos governos dos Estados Unidos, que é exatamente a causa número um que tem provocado as imigrações massivas desses povos. Pois a pilhagem de recursos, a superexploração e a sádica busca por enriquecimento rápido e abundante foram possíveis com a imposição de governos corruptos apoiados pelos Estados Unidos em muitos países. Começando com o do México, que reprime, tortura e assassina todos aqueles que resistem ao governo, o mesmo governo que os democratas e republicanos nos Estados Unidos apoiaram por muitos anos. Portanto, se é de encontrar aliados que se trata, basta olhar para além de onde os burocratas traidores e as organizações reformistas que promovem a colaboração de classes não veem, e explorar essas possibilidades, tentando, assim, levar a luta dos imigrantes ilegais à sua máxima expressão.

Também se deve impulsionar demandas para a defesa de outros imigrantes na Europa, Oriente Médio, África e Ásia, tanto em termos organizativos quanto no desenvolvimento de políticas para protegê-los. Mencionamos uma (esclarecendo principalmente que somos completamente contra essas guerras): Todo país desenvolvido que intervenha em uma guerra contra países mais fracos deve responsabilizar-se, de uma forma ou de outra, pelos refugiados que a guerra produz, por razões de justiça e humanidade!

Hoje, estamos no momento de nos preparar ainda mais para a situação que se aproxima e lutar de forma massiva. Não devemos ser vítimas das manobras políticas que os democratas já estão implementando para que as comunidades confiem neles e baixem a guarda, situação que pode ser perigosa, porque devemos nos lembrar que os supostos “aliados” democratas e suas promessas são tão inimigos e repressivos quanto os republicanos. Não há outra alternativa senão a mais ampla luta com objetivos políticos firmes e consistentes com todos os imigrantes.

Direitos plenos e para todos, imediatamente, que incluam um mecanismo para a reunificação familiar.

Fim das capturas, deportações e prisões.

Fim da separação familiar.

Desenvolvimento de Comitês para a Defesa dos Imigrantes, contra a repressão policial.

Educação gratuita e de qualidade para todos.

Fim do racismo e da discriminação contras imigrantes e todas as minorias. Solidariedade com as comunidades muçulmanas.

Pela unidade das minorias negras e latinas, para lutar contra os ataques dos governos corporativos. Pela unidade nas lutas de resistência das minorias, particularmente de negros, latinos e muçulmanos.

Fim da política externa de intervenção dos Estados Unidos em outros países.

Nota:

(1) DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals) é uma política que concede prazo de dois anos para imigrantes jovens e adultos ilegais que entraram no país antes de completar 16 anos. Se cumprirem determinados requisitos (ter um emprego e não ter sido condenado por crimes), podem obter autorização de residência, mas não cidadania. DAPA (Deferred Action for Parents of Americans) é uma política que adia a deportação para os imigrantes ilegais que vivem nos Estados Unidos desde 2010 ou antes, com filhos que já sejam cidadãos ou residentes permanentes com documentos.

Publicado na revista Correio Internacional no 16, janeiro de 2017.