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“HONGO OU O EUROPEU,

QUEM É MAIS FORTE?

“HONGO”

Senha usada pelo guerreiros Maji Maji

Por: Cesar Neto

Na partilha da África pelos países imperialistas europeus, em 1885, coube à Alemanha vastos territórios os quais compreendiam a região da atual Tanzânia, Ruanda, Burundi e parte de Moçambique, ao qual chamou-se de África Oriental Alemã. Na região onde hoje é a Namíbia foi denominado de Sudoeste Africano Alemão. Além dessas regiões, os alemães ocuparam também Camarões e a Togolândia (região formada pelos atuais Gana e Togo). Esses territórios foram ocupados literalmente a bala.

A prática de ocupação a bala, que hoje caracterizamos como genocídio, começou na Namíbia e depois seguiu seu curso adentrando a África Oriental Alemã, atual Tanzânia.

Em 1898, a Alemanha, através da Sociedade Colonizadora Alemã, dirigida por Karl Peters, ocupou a região Tangânica. O objetivo era produção em grande escala de algodão para a indústria têxtil inglesa.  Para garantir o projeto exportador foi necessário construir estradas, pontes, portos, entre outros.

Karl Peters

Peters, impôs uma odiosa divisão de trabalho diferente daquela que existia. Cabia aos homens o trabalho escravo na construção civil e às mulheres e crianças o plantio e colheita do algodão. Havia resistência por parte da população que foi submetida a tais condições. No entanto, eram resistências pontuais que terminavam em sofrimentos físicos, mutilações e até em mortes.

Para enfrentar as pontuais resistências Karl Peters reagiu com extrema violência. Por este motivo  foi alcunhado de “Milokono Wa Damu” (Homem com a mão cheia de sangue). Karl Peters se transformou em ídolo na Alemanha, na época do nazismo. Sua vida foi tema de um filme dirigido por Herbert Selpin, e Adolfo Hitler foi o maior propagandista do filme.

A imposição do trabalho escravo foi possível, pois a Alemanha contava com um desenvolvimento tecnológico muito superior. As locomotivas a vapor, por exemplo, encurtavam tempo de viagem e favorecia o transporte de grandes volumes. As estradas de ferro e os navios a vapor tornavam mais rápida a circulação de mercadorias.

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Além desses importantes meios de transporte a Alemanha pode contar com as metralhadoras Maxim criadas em 1884, por Hiram Maxim. Essa metralhadora equivalia a 30 carabinas.

Maji Maji presos com correntes

Simultaneamente, para manter a tropa coesa foram proibidos os casamentos inter-raciais como justificativa de manter a “pureza racial”. Esta moral racista se viu abalada por uma dupla moral exercida pelo próprio governador Albrecht von Rechenberg (setembro de 1906 a outubro 1912), o qual ao mesmo tempo que impunha a pureza racial, mantinha relações homoafetivas com africanos. À época isto foi um escândalo. Albrecht foi denunciado à Justiça alemã e os juízes conseguiram abafar as denúncias e salvar a imagem de pureza racial.

Ao impor a divisão social do trabalho na qual aos homens eram destinados a trabalhar na construção da infraestrutura e às mulheres a cuidar da família, da casa e ainda tinham uma segunda jornada nos algodoais. Desta maneira, a produção de alimentos de subsistência como era a prática anterior foi destruída e, consequentemente, começou a escassez de produtos alimentícios. Esta situação se viu agravada em 1905, com uma enorme seca que afetou a região. Os níveis de escassez de alimentos chegaram ao seu limite e a população se rebelou, pois já não eram mais revoltas individuais, passaram a ser coletivas.

Esses povos desconheciam formas organizativas do tipo sindical, ou político. A resistência foi organizada por um líder religioso Kinjikitile Ngwale, o qual havia sido possuído por “deus” em forma de cobra chamado Hongo. Esse “deus” o teria mantido dois dias submerso no rio. Ao se salvar, contou a história e disse que, em contato com o “deus”, este tinha lhe dito: “unir e expulsar os alemães” e também tinha dado a fórmula para expulsar os alemães.

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Dessa maneira, para guerrear eles deveriam usar a água sagrada (Maji, na língua Kiswahili), a mesma na qual Kinjikitile Ngwale ficou submerso, misturar com Óleo de Rícino e milho. Essa poção daria poderes especiais contra as armas do invasor. A notícia correu como um raio e em pouco tempo mais de 20 tribos espalhados por 10.000 km quadrados se rebelaram.

As tropas alemãs eram relativamente pequenas se comparadas com os povos em revolta. As forças alemãs eram compostas por 458 soldados europeus e 588 nativos. Os rebeldes passavam de cinco mil armados com sua poção, arcos e flechas.   Os invasores para se defenderem e derrotarem os rebelados contaram com força das metralhadoras Maxim.

Inicialmente, os rebelados atacaram as fortificações e edificações alemãs. Derrotados, optaram pela tática de guerrilha baseado em tocaias e emboscadas. O imperialismo alemão começou a ter sucessivas baixas e a reação foi violenta; Kinjikitile foi capturado, em julho de 1905, enforcado no dia 4 de agosto do mesmo ano. Foi condenado por traição ao Império Alemão. Após o assassinato de Kinjikitile surgiram outros líderes que também foram enforcados.

Além do enforcamento público dos líderes, a Alemanha adotou a tática da terra queimada, isto é colocar fogo nas aldeias, plantações, destruição das fontes de água e de alimentos. O Capitão Wangenheim escreveu: “Só a fome pode trazer uma solução final. As ações militares serão mais ou menos uma gota no oceano“.

Hiram Stevens Maxim (1840-1916) com sua metralhadora

A política de terra queimada e escassez de alimentos foi potencializada pelos fuzilamentos. Acredita-se que aproximadamente 250 mil a 300 mil pessoas, entre eles homens, mulheres, velhos e crianças morreram de sede, fome ou foram assassinadas.

Portanto, os alemães cometeram dois grandes genocídios na África. O primeiro genocídio foi na região que hoje conhecemos como Namíbia. O segundo genocídio, quase no mesmo período foi praticado na Tanzânia. Em termo de números de vítimas o segundo foi o maior deles. Atualmente, muitos historiadores, afirmam e comprovam como esses dois genocídios deram a base para formulação do nazismo e influenciaram profundamente a Adolf Hitler.

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Continuar a luta anticolonial e exigir reparações

A luta por reparação na Namíbia assumiu proporções de massas. Na Tanzânia, o governo tomou a dianteira e começou a exigir indenização por parte do Estado alemão. No início de 2017, o Ministro da Defesa na Tanzânia, Hussein Mwinyi, afirmou: “Queremos uma compensação. A Tanzânia segue o exemplo de outros países africanos, como Quênia e Namíbia, que solicitaram compensação às suas antigas potências coloniais“. E ainda “esperamos conseguir negociar com o Governo alemão”, acrescentou o ministro. O deputado Cosato Chumi, da Comissão de Política Exterior, também se expressou no mesmo sentido:  “Se outros países recebem indenizações por crimes de guerra, porquê nós não recebemos? ”

A luta anticolonial, deve seguir e ir além, agora, com a luta pela reparação aos danos da violência aplicada contra esses povos, pela devolução das obras de Artes expostas nos museus europeus que foram levadas para as metrópoles naquele período, expropriação das terras ocupadas pelas empresas capitalistas e mais que tudo, indenização pelas matérias primas usurpadas desses países.