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No instigante texto “A Gravidade de uma Possível Nova recessão Mundial”, publicado pela revista Marxismo Vivo número 15, o autor, Eduardo Almeida, faz uma afirmação importante: “O capital financeiro controla o mundo em níveis superiores ao descrito por Lenin quando definiu essa como uma das características centrais do imperialismo”. Embora a afirmação nos pareça correta, resolvemos investigar esse processo no continente Africano e verificar se essa afirmativa se aplica ou não. Além de buscar entender e interpretar o capital financeiro na África queremos também discutir como sair dessa situação. Como romper com o imperialismo e como lutar pela segunda independência.

Por: Yves Mwana Mayas e Cesar Neto, da Cidade do Cabo

Dos vários setores para o estudo neste momento escolhemos começar pela mineração, mas poderíamos ter escolhido o petróleo dado sua importância. Assim, a indústria petroleira africana, embora pulverizada em cinco países (Angola, Nigéria, Argélia, Líbia e Egito), segundo dados de 2017, juntos produziram 5.690 milhões de barris por dia, ou seja, é uma produção superior à produção de importantes produtores mundiais como Canadá (4º produtor mundial), Iraque (5 º), China (6 º), Irã (7 º), Brasil (8 º) Emirados Árabes Unidos (9 º) e Kuwait (10 º).

Mesmo com toda a importância da produção petroleira, consideramos que a exploração mineral, não tão concentrada como a petroleira, é realizada em quase todos os 54 países, e é o melhor exemplo que encontramos da presença do capital financeiro imperialista no continente africano.

Vamos tentar explicar esse círculo vicioso que começa com a abundância de recursos minerais, mineradoras, fundos de investimentos, relações com governos imperialistas, relações com governos locais e, finalmente, a explicação do porquê da pobreza.

Os dados da exploração mineira no continente apontam para a presença das 10 maiores empresas do mundo. Há outras empresas menores e não menos importantes. Porém neste texto trataremos das nove maiores, pois duas delas se unificaram em 2018 e nossos dados correspondem a este mesmo ano. Essas empresas são: Anglo American,  Rio Tinto, Vale, BHP Billiton, Barrick Gold, Freeport-McMoran, Newmont Mining, Teck e ALCOA.

Quem são os principais acionistas dessas empresas?

No site especializado Market Screener estão os 10 maiores acionistas de cada uma dessas empresas, considerando apenas as ações com direito a voto. Ao todo são formados por 49 bancos e fundos de investimentos. E não mais do que isso. Assim, dessas 49 instituições, seis delas tem participação em cinco ou mais empresas entre as nove mineradoras. Dessas 49 instituições, por origem, cinco empresas são dos EUA e uma é da Noruega.

Abaixo, há uma descrição sobre os principais fundos de investimentos e a participação acionaria nas dez maiores empresas de mineração:

The Vanguard Group, Inc.: Anglo American, Rio Tinto, Vale,  BHP Billiton, Barrick Gold, Freeport-McMoran, Newmont Mining, Teck e ALCOA.

Capital Research & Management Co. (Global Investors): Rio Tinto, Vale,  BHP Billiton, Barrick Gold, Freeport-McMoran, Newmont Mining, Teck e ALCOA.

Capital Research & Management Co. (World Investors): Rio Tinto, Vale,  Barrick Gold, Freeport-McMoran, Teck e ALCOA.

BlackRock Fund Advisors: Rio Tinto, Vale,  BHP Billiton, Freeport-McMoran, Newmont Mining  e ALCOA.

BlackRock Investment Management (UK) Ltd.: Anglo American, Rio Tinto, BHP Billiton, Barrick Gold e Teck

Norges Bank Investment Management: Anglo American, Rio Tinto,  Vale, Teck e ALCOA.

Essas nove empresas, segundo o site Market Screener, tiveram um lucro EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) de US$ 88.898 bilhões de dólares. Isto não é o faturamento, é o lucro. Com esse lucro, se essas mineradoras fossem um país europeu seria o  25º mais rico do continente; ou o 7º entre os 55 países africanos.

Dissecando os fundos de investimento

E quem são esses tais fundos de investimento? Quem os controla? Para explicar isso vamos usar o exemplar caso do fundo  Black Rock Inc.

Fundada em 1988, a BlackRock  é uma corporação norte-americana, sediada em Nova York, e tem escritório em 30 países e clientes em mais de 100 países. Em 2019 foi considerado o maior fundo de investimento do mundo. A revista econômica “The Economist” considera a BlackRock o maior banco paralelo do mundo.[1]

Em função do seu peso, gigantismo e importância, a Black Rock foi contratada por Barack Obama para assessorá-lo nas questões relacionadas a crise de 2007-2009.

A Black Rock destaca-se também por ser o maior investidor do mundo em usinas de carvão, detendo ações no valor de US$ 11 bilhões[2]. Possui também mais reservas de petróleo, gás e carvão térmico do que qualquer outro investidor. Para ambientalistas a Black Rock é o “maior impulsionador da destruição climática do planeta[3]“, devido em parte à sua recusa em se desfazer de empresas de combustíveis fósseis.

Quem são os principais acionistas de Black Rock?

Seguindo com as informações do site especializado Market Screener, os 10 maiores acionistas de Black Rock são:[4] PNC Bank NA (Investment Management); The Vanguard Group Inc.;  Capital Research & Management Co. (World Investors);  SSgA Funds Management Inc.;  Wellington Management Co. LLP;  China Investment Corp. (Investment Management);  Mizuho Financial Group Inc.;  Black Rock Fund Advisors; Norges Bank Investment Management;  Merrill Lynch, Pierce, Fenner & Smith Inc.

No livro, “Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo”, Lenin explica como os bancos “incorporam e se subordinam” uns aos outros. “Sublinhamos a referência aos bancos ‘ligados” porque se refere a uma das características mais importantes da concentração capitalista moderna. Os grandes estabelecimentos, particularmente os bancos, não só absorvem diretamente os pequenos, como os ‘incorporam’, os subordinam, os incluem no ‘seu’ grupo, no seu ‘consórcio’ – segundo o termo técnico – por meio da ‘participação’ no seu capital, da compra ou da troca de ações, do sistema de créditos, etc., etc.”.

No diagrama abaixo podemos visualizar como se dá esse processo incorporação e subordinação, no caso específico da BlackRock. Para não ser enfadonho, dos 10 maiores acionistas vamos descrever 3 deles e o leitor poderá confirmar como se apresenta essa intricada rede do capital financeiro.

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Acima vemos que os fundos de investimento que controlam o Black Rock Inc. possuem estreitas relações entre as descritas logo abaixo:

* SSgA: tem como seus principais acionistas: The Vanguard Group Inc.; Capital Research Management Co.; BlackRock Advisors (braço da própria BlackRocks Inc.) e SSgA Funds  Inc. (que é um braço da própria SSgA).

* Mizuho: tem como seus principais acionistas: The Vanguard Group, Inc.; BlackRock Advisors; Norges Bank Investment Management.

* Merrill Lynch, Pierce, Fenner e Smith Inc.: Após a quebra do banco Lehmon Brothers, em 2008, dentro do programa de salvamento das empresas e bancos à beira da falência, a Administração de Barack Obama, incorporou o Merrill Lynch ao Bank of America como um departamento desse banco. Então, ao invés de apresentar os acionistas do Merrill Lynch estamos apresentando os dez maiores acionistas do Bank of America, o qual tem entre seus principais acionistas:  The Vanguard Group Inc.; SSgA Funds Management Inc.; Wellington Management Co. LPP;  BlackRock Advisors; Capital Research Management Co.; Norges Bank Investment Management.

Estreitas relações entre Black Rock e Obama

A gigantesca crise de 2007 – 2009 foi o primeiro desafio de Barack Obama que presidiu o EUA de 2009 à 2017. O principal assessor econômico de Obama foi um jovem então com 31 anos (nascido em 1978), Brian Christopher Deese[5], atuando no National Economic Council. Foi responsável pela operação de salvamento das indústrias automobilísticas, em especial a Chrysler e General Motors, o que significou enorme injeção de capitais públicos, fechamento de fábricas, milhares de demissões e redução de direitos.  O jornal “New York Times” ao descrever as emergentes figuras do novo governo a via como “uma das vozes mais influentes”[6]. Mas não foi só no campo industrial que ele atuou. Assim, B.C. Deese cumpriu um importante papel para salvar Merrill Lynch, um dos 10 maiores acionistas da Block Rock.

Como vice-presidente, do National Economic Council, desde 2011, B.C. Deese foi responsável por todas as políticas liberalizantes – bem ao gosto do capital financeiro – tais como: regulamentação financeira, habitação, energia limpa, manufatura e indústria automotiva. O jornal “The New Republic” afirmou sobre ele: “o mais poderoso e ao mesmo tempo o menos conhecido”[7]. Os jornais não se cansaram de falar o quanto B.C. Deese era culto e inteligente. Será que se ele tivesse nascido no Bronx ou fosse filho de renegados imigrantes seria tão famoso?

Terminado o governo Obama, Brian Christopher Deese assumiu o importante cargo de “Diretor Geral, Chefe Global de Investimentos Sustentáveis”[8]  do BlackRocks Inc.

Intensificação da exploração capitalista e suas consequências

Lenin escreveu que “o capital financeiro, concentrado em muito poucas mãos e exercendo um monopólio efetivo, obtém um lucro enorme, que aumenta sem cessar com a constituição de sociedades, emissão de valores, empréstimos do Estado etc., consolidando a dominação da oligarquia financeira e impondo a toda a sociedade um tributo em proveito dos monopolistas “[9]. Quando Lenin diz que “impondo a toda a sociedade um tributo em proveito dos monopolistas“, pode ser traduzido nos dias de hoje em:

Superexploração dos trabalhadores: através de baixos salários, exposição a produtos químicos cancerígenos, aos acidentes do trabalho (A Rio Tinto reconhece que só em 2018 três trabalhadores perderam a vida “por fatalidade”).

Trabalho infantil: o trabalho infantil na mineração do Congo, por exemplo, causa inúmeras mortes de crianças, só um ação impetrada nos EUA aponta a morte de 14 crianças nos desabamentos[10] de túneis de mineração. Na Costa do Marfin, a colheita de cacau para a Nestlé é realizada com trabalho infantil[11].

Destruição do meio ambiente: Não há mineração sem destruição. As mais de trezentas mortes na mina de Brumadinho, no Brasil, é um exemplo trágico. Mas há outras formas como a remoção forçada de 10 mil famílias no Congo para que possa ser explorado o cobalto para a Tasla, Microsoft, Dell, Google, etc.[12]

Roubo de matérias primas: Há décadas, a França explora o urânio no Niger. Paga apenas 5,5% de impostos e fica com 94,5% liquido do faturamento. As luzes que iluminas a Paris, a Cidade Luz, é gerado pela urânio do Niger. A horrível imagem da pobreza desse país é consequência da “beleza parisiense”.

Roubo de terras e recursos naturais: O charmoso chá inglês está manchado de sangue dos camponeses expulsos de suas terras no Kenya[13]; a propaganda institucional da Unilever diz: “2,5 bilhões de pessoas no mundo usam Unilever” mas o que a propaganda não diz é que esse império foi construído com o roubo de terras, trabalho escravo e apropriação de riqueza natural no Congo ocupada pelos imperialistas belgas e ingleses.

Genocídio: Mais de 150 anos de genocídio e impunidade; guerras civis e guerras entre países[14].

Desta maneira, segundo as palavras de Lenin, “o monopólio, logo que tenha se constituído e controlando milhares de milhões, penetra de maneira absolutamente inevitável em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de qualquer outra ‘particularidade’”. Há vários exemplos, um dos mais escandalosos se deu durante a guerra civil em Angola, ao final da Guerra Fria. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), alinhado com a URSS, era atacado pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que era financiada pela África do Sul e pelos EUA. Nisso, a empresa de diamantes da Anglo American, De Beers, com sede na África do Sul, declarou-se “neutra” no conflito e tinha uma rota aérea que levava o diamante produzido e retornava com alimentos. Desta forma, ninguém se incomodava com ninguém. Da mesma maneira que hoje eles investem na América Latina sem questionar o perfil do governo. Os grupos financeiros mencionados não têm problema com a matriz política dos governantes. Eles podem ser os direitistas como Piñera, no Chile, ou Duque, na Colômbia. Ou podem ser os supostos governos “esquerdistas” de Evo Morales, na Bolívia, ou de Maduro, na Venezuela. Então, todos são negociáveis e a tática usada é sempre a mesma: negociar. E foi assim que os governos do progressista PT, através de Lula e Dilma, emprestaram a Black Rock, com juros baixos R$ 26 bilhões de reais[15]. Em contrapartida, nas eleições de 2010 e 2012, Black Rock contribuiu com a campanha eleitoral dos três principais partidos da ordem burguesa: PT, PSDB e PMDB.

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Esses exemplos demonstram com total claridade o quanto foi correta as teses centrais do “Imperialismo” de Lenin, e mais, como a dominação imperialista na África anda de mãos dadas com as elites governantes e tem o silêncio cúmplice de muitas organizações que se dizem representantes dos trabalhadores e do povo pobre.

Luta pela independência

Entre o final dos anos 1950 até o final dos anos 70 houve um longo período de lutas pelas Independências que resultaram grandes transformações na relação colonial. Diversos países subjugados da África conquistaram sua independência. Dizemos que foi uma grande vitória, mas uma vitória incompleta. Alejandro Iturbe, editor da revista “Correio Internacional” afirma: “Em cada país, os processos tiveram especificidades, mas com muitas características e elementos comuns. Um deles é o caráter das direções que os conduziram. Esses movimentos de libertação nacional foram liderados por organizações de ideologia e programa nacionalista burguês com forte marca anti-imperialista (embora alguns se auto definissem como “marxistas leninistas”), direções pequeno-burgueses e base popular-plebeia”.[16]

As massas travaram heroicas luta de resistência ao colonialismo em primeiro lugar e ao longo do tempo transformaram a luta de resistência em luta aberta pela independência. As massas com suas lutas fizeram sua parte, mas as direções não foram até as últimas consequências.

As direções dessas lutas ficaram pela metade do caminho. Primeiro porque trataram frear e controlar o ímpeto das massas e deste modo “congelando os processos de rebeldia”. Em segundo lugar, na medida que seu programa era essencialmente nacionalista burguês, não avançaram na expropriação das grandes propriedades capitalistas, na nacionalização da exploração mineral, na expulsão do capital estrangeiro e em outras medidas de cunho anticapitalista.

Podemos dizer que foi uma importante vitória política. Porém, como não se avançou nos temas econômicos, em poucas décadas, retrocederam e muitos governos se transformaram em sanguinárias ditaduras.

A luta pela Segunda Independência

O “congelamento” da luta independentista trouxe sérios danos para o continente africano. O primeiro grande problema é que ao não expropriar a burguesia, não expulsar o imperialismo, estes pouco a pouco foram fortalecendo–se e criando uma elite dirigente negra, ultrarreacionária e o resultado final tem sido o crescimento assustador da pobreza.  O Banco Mundial reconhece que “o número de africanos que vivem na pobreza aumentou e a pobreza global se tornará cada vez mais africana[17]“. No mesmo informe, o BM diz: “Se as circunstâncias permanecerem as mesmas, espera-se que a taxa de pobreza [global] caia apenas para 23%, até 2030 e a pobreza global se tornará cada vez mais africana, passando de 55% em 2015 para 90% em 2030”.

Enquanto o Banco Mundial afirma que “Recursos públicos limitados desafiam o financiamento da agenda da pobreza”, ou seja, reconhece que os governos não têm dinheiro para combater a pobreza por falta de recursos, por que não recebem impostos das transações financeiras, das transações comerciais e pela sonegação fiscal. No entanto, a solução ao problema, em sentido oposto, é colocada pela Comissão Econômica para a África, organismo da ONU, que defende a livre transação financeira; e impõem e financia a infraestrutura necessária (estradas, portos, energia elétrica, internet, etc) para a aplicação dos tratados de livre comércio como os BRICS e Free Trade Area.[18]

Tal situação econômica que geram esta situação no continente podem ser observadas também em outras expressões de uma economia colonial. Dados de 2015[19] apontam que:

Os países africanos receberam US$ 161,6 bilhões em 2015 – principalmente em empréstimos, remessas pessoais e ajuda na forma de doações. No entanto, US $ 203 bilhões foram retirados da África, diretamente – principalmente por meio de empresas que repatriam lucros e movem dinheiro ilegalmente para fora do continente”

Os países africanos recebem cerca de US$ 19 bilhões em ajuda na forma de doações, porém mais de três vezes o valor (US $ 68 bilhões) é retirado em fuga de capitais, principalmente por empresas multinacionais que deliberadamente relatam erroneamente o valor de suas importações ou exportações para reduzir impostos.

Enquanto os africanos recebem US $ 31 bilhões em remessas pessoais de outros países, as empresas multinacionais que operam no continente repatriam uma quantia semelhante (US $ 32 bilhões) em lucros para seus países de origem a cada ano.

Os governos africanos receberam US $ 32,8 bilhões em empréstimos em 2015, mas pagaram US $ 18 bilhões em juros e pagamentos de principal, com o nível geral de dívida aumentando rapidamente.

Estima-se que US $ 29 bilhões por ano sejam roubados da África na exploração ilegal de madeira, pesca e comércio de animais silvestres/plantas.

Neste sentido, a necessária luta pela Segunda Independência significa expulsar do continente as potências imperialistas junto com suas empresas e bancos. Para o articulista do Correio Internacional, Américo Gomes, isso só será possível utilizando-se  “o método de luta da classe trabalhadora, dirigido contra o imperialismo mas também contra a nova burguesia africana e seus governos fantoches, rompendo com todas as direções reformistas e nacionalistas que não colocam estas tarefas na ordem do dia[20]“.

A resistência já começou

Analisamos que a paciência dos povos africanos está chegando ao seu limite, pois em muitos países, antigos ditadores estão caindo, um por um. Começou em 2011, com os protestos de massa que derrubaram o Presidente Zine el-Abidine Ben Ali, da Tunísia, que estava no poder há 23 anos. Em 2014, vimos as mobilizações em Burkina Faso que derrubaram o ditador Blaise Compaoré, o mesmo que havia aplicado um golpe de Estado em Thomas Sankara em 1987.

O ano de 2017 marcou o fim dos 40 anos de governo de Robert Mugabe, no Zimbabue. E nesse mesmo ano, depois de 38 anos no poder, José Eduardo dos Santos viu terminado seu governo em Angola.

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Já em 2019, depois de 18 anos na presidência Joseph Kabila foi obrigado a convocar eleições e passar adiante as chaves do palácio. Nesse mesmo ano, menos sorte teve o presidente do Sudão, Omar al-Bashi, que teve seu governo de 30 anos interrompido por uma insurreição. E na Argélia, gigantescas mobilizações acabaram com os 20 anos de governo de Abdelaziz Bouteflika.

A lista de derrocada de ditadores deve e poderá aumentar em 2020. Pode ser que alguns cairão de maduro como o presidente de Camarões, Paul Biya, com 86 anos e há 37 anos no poder. E alguns outros ditadores tentarão se equilibrar no poder alterando as Constituições de seus países. Assim, dentre eles podemos citar: Denis Sassou Nguesso, da República do Congo, é general do Exército tendo recebido treinamento militar na França. Sassou Nguesso parece gostar do poder, pois o primeiro mandato foi de 11 anos (1979 à 1992), neste segundo mandato governa há 23 anos.  Outro exemplo é o da Eritréia, o impagável Isaias Afwerki que está há 16 anos no cargo e sem nunca ter realizado eleições. E não podemos deixar de fora ainda Paul Kagame de Ruanda que está há 19 anos no poder.

Outros também poderão ter dias difíceis em 2020, como a Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Mbasogo, que há 40 anos no poder e ainda em Uganda, Yoweri Museveno, há 33 anos governando o país.

O que podemos afirmar também é que na África do Sul a crise econômica segue seu curso. Como consequência observamos a queda de Jacob Zuma que governou de 2009 à 2018 e depois de sucessivas denúncias e escândalos financeiros foi pressionado pelo Congresso Nacional, presidido pelo seu partido, e foi obrigado a renunciar. Então, Cyril Ramaphosa assumiu um mandato tampão e posteriormente foi eleito presidente, em maio de 2019. Desta forma, a África do Sul é um país em profunda crise por conta da desindustrialização, do desemprego, uma economia em sucessivas contrações, e podemos esperar que o recém-eleito governo de Ramaphosa será um governo de crise.

Os trabalhadores e a juventude, após 50 ou 60 anos das lutas independentistas, são uma geração sem memória da experiência do colonialismo e sua principal referência são os efeitos dos ajustes estruturais, a globalização, ditaduras e de todos os efeitos nocivos do neoliberalismo.

A queda desses governos acima relatadas – via mobilização ou até mesmo via eleições – são parte desse processo de experiência e busca por alternativas. Assim, acreditamos que devemos participar e apoiar todas as lutas em curso, sejam elas por salários, ou por direitos juvenis ou contra as ditaduras. No entanto, nessas lutas devemos colocar a necessidade de uma Segunda Independência, com uma real ruptura com imperialismo e a construção de uma nova sociedade, mais justa, igualitária e fraterna, uma sociedade socialista.

[1] “Shadow and substance”. The Economist. May 10, 2014..

[2] “New Research Reveals the Banks and Investors Financing the Expansion of the Global Coal Plant Fleet”. Urgewald. 2018-12-05.

[3] “BlackRock’s Big Problem | Making the climate crisis worse”. BlackRock’s Big Problem | Making the climate crisis worse.

[4] https://www.marketscreener.com/BLACKROCK-INC-11862/company/

[5] https://en.wikipedia.org/wiki/Brian_Deese

[6] “The 31-Year-Old in Charge of Dismantling G.M.” by David E. Sanger, The New York Times, May 31, 2009 (p. B1 NY ed.)

[7] The Editors (2011-11-03). “Washington’s Most Powerful, Least Famous People”. The New Republic

[8] https://www.blackrock.com/institutions/en-us/biographies/brian-deese

[9] LENIN, IMPERIALISMO ETAPA SUPERIOR DO CAPITALISMO – www.marxists.org

[10] IRA advocates Files Forced Child Labor Case Against Tech Giants Apple, Alphabet, Dell, Microsoft and Tesla for Aiding and Abetting Extreme Abuse of Children Mining Cobalt in DRC

http: iradvocates.mayfirst.org/press-release/iradvocates-files-forced-child-labor-case-against-tech-giants-apple-alphabet-dell

[11]   “Sustaibale” Nestle Cocoa Made With Child Slavery, Suit Says

http: iradvocates.mayfirst.org/news/sustaibale-nestle-cocoa-made-child-slavery-suit-says

[12]    10 000 families to be moved from DR Congo cobalt site – provincial governor

http: m.news24.com/Africa/News/10-000-families-to-be-moved-from-dr-congo-cobalt-site-provincial-governor-20191218

[13]  There is blood in the tea –  http: mg.co.za/article/2019-11-01-00-there-is-blood-in-the-tea

[14] Se você leitor é daqueles que acreditam que as guerras civis ou entre países é motivado por questões religiosas, por busca da paz, por governos corruptos e autoritários e outras lendas, temos uma má notícia: as guerras são para dominar e saquear nossas riquezas. Veja quem são os principais acionistas das cinco maiores empresas militares (Lockheed Martin Corporation, BOEING, Raytheon, BAE Systems, Northrop Grumman Corp) no mundo e compare com os principais acionistas das empresas de mineração. As cinco maiores empresas militares são controlados por 27 fundos de investimentos. A maioria desses fundos de investimento, também são controladores de empresas de mineração. Vejamos: The Vanguard Group, Inc. e Capital Research & Management Co. são acionistas nas cinco maiores empresas. SSgA Funds Management, Inc., Capital Research & Management Co. (World Investors) e BlackRock Fund Advisors esses três fundos de investimento são acionistas em quatro das cinco maiores empresas

[15] Quanto representa 26 bilhões de reais. Vamos comparar. Em 2011 o Estado gastou 17 bilhões de reais com “bolsa família” e atendeu 13, 9 milhões de famílias ou aproximadamente 50 milhões de pessoas. Ou seja BlackRock recebeu sozinha uma pequena ajuda que atenderia aproximadamente 21 milhões de famílias ou  76 milhões de pessoas.

[16] Correio Internacional – Publicação da Liga Internacional dos Trabalhadores/IV Internacional.  2018, nº 9 pag. 22

[17] https://www.worldbank.org/en/region/afr/publication/accelerating-poverty-reduction-in-africa-in-five-charts

[18] UNITED NATIONS/Economic Commission for Africa -Assessing Regional Integration in Africa – Next Steps for Africa – Continental Free Trade Area

[19] https://www.quora.com/q/africas/Africa-is-poor-they-said#

[20] Correio Internacional – Publicação da Liga Internacional dos Trabalhadores/IV Internacional.  2018, nº 9 pag. 7