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O período revolucionário de 1980 a 1993 foi parcialmente derrotado pelo acordo negociado, cuja pedra angular era a manutenção das relações capitalistas. O acordo manteve a proteção à propriedade privada. Em 1994, a Anglo American controlava diretamente mais de 50% das ações da Bolsa de Valores de Johanesburgo. O imperialismo manteve seu controle sobre a África do Sul através do acordo.

Por: WIVP – Workers International Vanguard Party

Em 2007, houve o início de revoltas em larga escala contra o regime CNA-PCAS-Cosatu[1] que não atendeu às aspirações democráticas das massas. As lideranças do PCAS e da Cosatu conseguiram transformar a revolta em um beco sem saída parlamentar, através de uma mudança de liderança na presidência do CNA. Vavi e Nzimande visitaram as capitais imperialistas para ganhar apoio para o governo de Zuma.

Desde 2007, a crise econômica mundial aprofundou-se e houve um período de ataques contínuos contra a classe trabalhadora. Isso foi acompanhado pela perda de apoio ao CNA no movimento operário. Esta perda de apoio aumentava desde 1994, em cada luta que ocorria. Nas eleições locais de 2016, não só o CNA perdeu o apoio majoritário em várias cidades-chave, mas, em geral, seu apoio é agora inferior a 50% dos que votaram nele. Isso significa que, nas eleições nacionais de 2019, se a tendência continuar, o CNA só poderia governar fazendo acordos com partidos de fora da Aliança Tripartite. Existe a perspectiva de uma aliança de direita assumir o poder, com os partidos DA-EFF[2]. No entanto, tanto o DA quanto o EFF perderam apoio. Todos os partidos parlamentares estão perdendo apoio.

O massacre de Marikana de 2012 demonstrou que o imperialismo tem uma crise de liderança. O CNA-PCAS-Cosatu não é mais capaz de controlar as massas. Desde 2012, houve revoltas nas fazendas e lutas nas universidades pela educação gratuita e o fim da precarização. A revolta nas universidades se enfraqueceu, mas ainda está viva. Forçou o Estado a conceder educação gratuita para estudantes do primeiro ano, que será gradualmente fornecida a todos os alunos. Este é um reflexo da profunda crise de legitimidade enfrentada pelo CNA.

No nível político, houve o congresso do sindicato de metalúrgicos, Numsa, em 2013, que resolveu romper com o CNA e o PCAS e formar uma ampla frente dos trabalhadores e um partido dos trabalhadores. Diante de uma perspectiva de todo o Cosatu romper com o CNA e o PCAS e formar um novo partido de trabalhadores, o imperialismo forçou a expulsão do Numsa, enfraquecendo o projeto de um partido de trabalhadores. No entanto, os líderes do Numsa também atrasaram o processo para a formação de um novo partido dos trabalhadores e apresentaram um rascunho baseado na Carta da Liberdade, o programa nacionalista do CNA. No entanto, há margem para desafiar e alterar o programa.

As exigências não satisfeitas da classe trabalhadora foram refletidas em uma divisão à esquerda do CNA, que resultou na formação dos Lutadores pela Liberdade Econômica (Economic Freedom Fighters, EFF).

A crise do imperialismo e a estagnação da economia capitalista mundial significaram mais ataques às massas e o aumento do ódio ao CNA. Esse aumento do ódio ao Estado voltou a ser canalizado eleitoralmente, mas com uma crise muito mais profunda. A queda do presidente Zuma identificou-o como um bode expiatório para os ataques do imperialismo. A profunda crise de liderança reflete-se na escolha do novo presidente, que está diretamente implicado no massacre de Marikana. O imperialismo enfrentaria um enorme problema se o CNA rompesse: quem controlaria a classe trabalhadora em seu nome? É por isso que a mudança de presidente foi tratada desta forma, por meio da renúncia e manutenção da unidade do CNA. Isso significa que eles só farão um show de ir atrás de peixes menores, mas a facção de Zuma não será processada nem enfrentará alguma medida dura que forçasse uma divisão.

A crise capitalista mundial continua

Todos os partidos governantes da África do Sul são forçados a manter os ataques às massas, a privatização e o aumento da exploração.

Deve-se enfatizar que, devido à existência de um capitalismo decadente e a dominação pelo imperialismo mundial, o roubo da classe trabalhadora na África do Sul e no resto continente e do mundo neocolonial se intensificará. O Journal of Southern African Studies informa que, a cada ano, o roubo por empresas mineradoras imperialistas equivale a pelo menos 200 bilhões de rands por ano. Compare isso com os menos de 10 bilhões de rands que o grupo de Zuma roubou e podemos ver que sua saída não tem nada a ver com a luta contra a corrupção, mas sobre a recuperação do Estado para que o roubo em grande escala pelo imperialismo possa continuar. A mensagem do imperialismo para o partido no poder é que eles podem roubar, mas não muito. O imperialismo está comprando estabilidade através de uma mudança na liderança. No entanto, 2018 não é 2007. Existe uma maior perda de apoio entre as massas para o partido no poder.

O imperialismo adoraria limitar o programa do partido operário que o Numsa quer construir a uma variante da Carta da Liberdade, em essência, um programa de cooptação da liderança da classe trabalhadora nas relações capitalistas. Isso deve ser combatido a todo custo.

O surgimento da Coalizão da Crise da Água (CCA), uma organização independente, é um sinal de um movimento da classe trabalhadora independente que pode levar a uma resistência à privatização da água, que é o objetivo do Estado. Pela primeira vez, forças da Cosatu e da Saftu (Federação Sindical Sul-africana) estão unidas em comitês de base. A CCA é, no entanto, terreno contestado, pois há uma presença significativa da classe média, que só estaria preparada para lutar até certo ponto.

No entanto, mais significativamente, o campo está aberto para o rápido desenvolvimento de um partido revolucionário da classe trabalhadora. O grupo de Zuma pode estar enfraquecido, mas não foi destruído como uma facção. O discurso da renúncia de Zuma, dizendo que trabalhará pela agenda de Transformação Econômica Radical de seu partido e que ele considerou o momento parecido com aquele quando Mbeki removeu-o da vice-presidência, significa que ele vai trabalhar pelo seu retorno. No entanto, o imperialismo apoiou o programa de Zuma de educação universitária gratuita e de expropriação seletiva da terra para neutralizar sua base. À medida que as lutas internas do partido no poder continuam, as possibilidades de desenvolvimento de um partido revolucionário da classe operária e de organizações independentes da classe trabalhadora aumentam.

Se o imperialismo prosseguir com sua experiência social de fechar as torneiras na Cidade do Cabo[3], haverá uma revolta que nenhuma força na Terra poderá parar. É essa ameaça de revolução que obriga o imperialismo a reduzir sua ameaça de fechar as torneiras, mas ainda estão pressionando para tentar privatizar a água através de fábricas de dessalinização e a imposição de medidores de água pré-pagos. Há uma série de outros ataques, como a limitação do direito à greve, que também estão sendo preparados.

O massacre de Marikana, as greves dos mineiros, as revoltas dos trabalhadores rurais, as revoltas estudantis foram de alcance limitado, mas o momento de uma revolta generalizada está se aproximando.

A “primavera azaniana”[4] está prestes a chegar. As revoltas no Zimbábue, nos Camarões e na República do Congo são sinais de que o levante da primavera se espalhará por toda a África. Precisamos unir os trabalhadores de toda a África, de outros países neocoloniais e dos centros imperialistas. O imperialismo controla a África e só podemos ser livres se a classe trabalhadora dos centros imperialistas se unir na luta conosco. A formação de uma Internacional revolucionária, para nós, a reconstrução da Quarta Internacional, é uma necessidade premente.

WIVP, 17 de fevereiro de 2018.

 

Notas:

[1] A chamada Aliança Tripartite, formada pelo Congresso Nacional Africano (CNA), o Partido Comunista da África do Sul e a central sindical Cosatu.

[2] DA: Aliança Democrática (Democratic Alliance). EFF: Lutadores pela Liberdade Econômica (Economic Freedom Fighters).

[3] A Cidade do Cabo vive a maior crise hídrica de sua história e, com a privatização da água, o fornecimento de água à população pobre pode acabar.

[4] Referência à Organização do Povo de Azania (AZAPO), um partido que luta pela libertação dos negros da África do Sul conforme as posições de Steve Biko, assassinado na prisão em 1977. Azania designa a África subsaariana.

Tradução: Marcos Margarido