COMPARTILHAR

Reproduzimos a entrevista com Palesa Mcophela, ativista da revolta estudantil na África do Sul, publicada pela revista Amandla!

Queremos socialismo. Queremos educação gratuita para todo mundo. Queremos o desenvolvimento da África do Sul e da África inteira.”

Palesa Mcophela é ativista do Fees Must Fall, um movimento de protesto estudantil que começou em meados de outubro de 2015 em resposta ao aumento das taxas universitárias. O movimento também reivindica o aumento dos salários dos funcionários não docentes, que trabalham para empresas terceirizadas encarregadas da limpeza e da segurança, e exige que eles sejam contratados diretamente pelas universidades. Os protestos começaram na Universidade de Witwatersrand em Johanesburgo e se estenderam rapidamente aos centros de todo o país.

– Revista Amandla! (A!): Como começou a mobilização em sua Universidade?

Palesa Mcophela (PM): A mobilização começou com um protesto nacional em resposta ao aumento das taxas aplicadas em todas as universidades. Por seu valor nominal, as taxas da Universidade do Cabo Ocidental (University of Western Cape, UWC) parecem muito baixas, mas para os estudantes são muito elevadas, já que a maioria não pode pagá-las. O maior problema que os estudantes enfrentam são suas dívidas: afogam-se em suas dívidas na UWC.

-A!: Ouvimos dizer com muita frequência que os estudantes são apáticos e apolíticos. Como você vê a consciência estudantil?

PM: A questão das taxas afeta todo mundo, por mais que a política esteja em baixa porque a maioria dos estudantes não é politicamente consciente. No entanto, já que o tema entrou no cenário nacional, nossos estudantes tomaram conhecimento. Discutimos muito com estudantes negros que não são realmente ativos, mas começam a nos entender e a se dar conta que é necessário se incorporar à luta.

-A!: Como conseguiram organizar e mobilizar os estudantes?

PM: Fomos de sala em sala, cantando e convidando os estudantes para que se unissem a nós e lutassem conosco. Vínhamos de diferentes organizações e dissemos que agora, com o FeesMustFall (FMF, “Abaixo as Taxas”), éramos uma organização independente. Não estamos alinhados politicamente, e se nossas diferentes organizações políticas estão contra a educação gratuita, ou têm que abandonar o FMF e continuar em suas próprias organizações ou têm que se unir e serem leais a nós.

-A!: Todos os problemas colocados durante esta revolta estudantil existem já existem há muito tempo. Por que você acha que revolta ocorreu agora?

PM: Porque nossos pais já não podem pagar as taxas. A situação dos estudantes se deteriorou porque a administração parece não se preocupar. Se fazem de surdos diante dos protestos. Em vez de abordar nossos problemas, estes são criminalizados e nós somos chamados de vândalos. E o que os estudantes propõem são realmente ideias brilhantes. Somos intelectuais e temos soluções para nossos problemas, pois nos sentamos e refletimos sobre eles coletivamente. Não é que estejamos entediados ou que nos sobre tempo. Queremos que nos levem a sério, o que as universidades e o governo não fazem: levar a sério os estudantes, ouvi-los e considerar suas soluções, que são bastante criativas.

Leia também:  Ser jovem trabalhador no Brasil é um risco de vida: Nos matam de fome, bala da polícia ou vírus

-A!: Quais são as principais forças que estão por trás do FMF?

PM: As principais forças que estão por trás do FMF são os próprios estudantes. Não há mais ninguém a não ser os estudantes. É um movimento de estudantes para estudantes. São os que serão excluídos por razões econômicas. São os que se veem assediados pelos SMS e e-mails dos gestores de créditos estudantis. São os que veem seus pais lutando para conseguir o dinheiro para custear seus estudos. Os estudantes querem que a educação seja gratuita para que todos possam estudar. Porque somos conscientes de que somos os afortunados que vamos à universidade. Há muitas pessoas que vivem nas periferias e que são nossos primos e irmãos, nossos sobrinhos e nossas sobrinhas, que precisam de educação, mas esta é tão cara que não podem pagá-la. Há outras pessoas, que são os doadores e que não conhecemos. Simplesmente enviamos mensagens e pedimos alimentos, água e apoio. É só isso.

-A!: Quem você acredita que seja o responsável pelos problemas dos estudantes?

PM: O maior problema são o governo e as grandes empresas, que realmente transformam a educação em mercadoria. Tudo se comercializa: além das taxas, temos que pagar pelos livros didáticos e pelo alojamento. Isso sem contar a alimentação e o lazer, porque somos jovens. Temos um sistema educacional misto porque as instituições privadas retiram a maioria de seus recursos das instituições públicas. Por isso, precisamos barrar a mercantilização do ensino. O Estado precisa criar outros meios para que possamos ter acesso à educação e realmente descolonizar o ensino.

-A!: Quais são as principais conquistas da mobilização estudantil?

PM: Em primeiro lugar está a unidade. Viemos de diferentes partidos políticos, com diferentes ideologias. No entanto, fomos capazes de nos comprometer com um objetivo, apesar de nossas diferenças. Também demonstra uma nova revolução – para dizê-lo de alguma forma – em que as pessoas são capazes de se unirem por uma ideia, em que não esperam que os partidos políticos tomem uma posição, e sim que se unem e se posicionam. Não esperam por seus líderes. Transformam-se em seus próprios líderes. Sim, esta é uma das maiores conquistas. É emocionante ver como as pessoas se unem para trabalhar duramente por alguma coisa. Porque nos apoiamos mutuamente, lutamos uns pelos outros, e agora todos se conhecem. Além da unidade estudantil, também nos unimos com os trabalhadores. Isso é o mais importante. Porque vemos os trabalhadores todos os dias, mas a maioria dos estudantes não tinha se relacionado com eles até agora. Sim, é a unidade.

Leia também:  Ser jovem trabalhador no Brasil é um risco de vida: Nos matam de fome, bala da polícia ou vírus

-A!: Quais reivindicações faltam ser atendidas?

PM: Em primeiro lugar, a terceirização e, em segundo, a compensação da dívida. Mas, para que fique claro, ainda precisamos de um calendário em relação a todas as demais reivindicações. Quando será feito isto e aquilo? Como será feito?

-A!: As reivindicações estudantis costumam centrar-se em questões exclusivamente estudantis, mas vocês dão muita importância ao apoio aos trabalhadores terceirizados das universidades. Por quê?

PM: Porque os trabalhadores também são pais que realmente não podem pagar nossa educação. São nossos pais. Com frequência os pressionamos: “Mãe, preciso de dinheiro para a matrícula”. E já que eles não ganham o suficiente, também não podem pagar. De maneira que essas lutas estão muito relacionadas entre si. Os trabalhadores são, além disso, os que contribuem para melhorar as condições de vida dos estudantes. Além de limparem o campus, estão sempre ao nosso dispor quando temos algum problema.

-A!: O FMF e as organizações estudantis insistiram muito em defender sua autonomia e recusar a intervenção de partidos políticos. Por quê?

PM: Porque a maioria das organizações políticas, quando se unem à nossa luta, fazem isso por questões políticas. No ano que vem ocorrerão as eleições municipais. Se eles vêm, vão causar confusão. Vão querer levar para o seu lado, mas esta luta tem que ser pelo interesse dos estudantes. Isso também mostra aos estudantes que eles têm poder à margem do poder político. Eles são capazes de forjar seu próprio poder e comprovar até onde podem chegar por si mesmos. A independência é muito importante, porque vamos ser os líderes do futuro e não podemos depender de partidos políticos que misturam as coisas. Queremos que a luta seja muito orgânica e não seja questão dos partidos políticos, mas dos estudantes.

Leia também:  Ser jovem trabalhador no Brasil é um risco de vida: Nos matam de fome, bala da polícia ou vírus

Além disso, queremos resultados logo. Com os partidos políticos, sempre há processos e procedimentos. Nos partidos políticos sempre se faz política, e já se sabe, a política estraga tudo, realmente estraga tudo, em particular os líderes políticos. Quando se politiza alguma coisa, isso deixa de ser puro, porque entram em jogo muitos interesses. Mas agora, já que somos os estudantes, só temos um interesse: conseguir a educação gratuita. Juntas e juntos temos poder. Temos poder como estudantes. Antes não sabíamos isso. Agora vimos que temos poder se nos unirmos.

-A!: Quais são as principais influências ideológicas, se é que existem, que inspiraram as lutas estudantis no último período?

PM: Diria que o socialismo, porque com o capitalismo tudo vai mal, principalmente aqui, na África do Sul. Temos duas economias, que são os ricos, ricos, ricos e os muito pobres. Como estudantes, somos muito conscientes disso. Além do mais, vemos que o capitalismo não funciona. A riqueza não é dividida com os de baixo com rapidez; de fato, leva tempo. Queremos tudo, que todo mundo compartilhe a riqueza. Inclusive dizemos que queremos uma educação puramente socialista. De modo que sim, a ideologia que nos move é o socialismo. Os estudantes querem socialismo. Querem um ensino africano. Querem descolonizar. Os estudantes querem recuperar a terra. Porque vemos que nossos pais estão sofrendo, nem sequer somos donos de nossa terra. De modo que sim, o socialismo e recuperar nossa terra são o principal.

-A!: Finalmente, Palesa, para onde vamos agora?

PM: Para onde vamos agora? Estamos recuperando a África do Sul. Sim, estamos colocando o capitalismo para fora. Queremos o socialismo. Queremos educação gratuita para todo mundo. Queremos o desenvolvimento da África do Sul e de toda a África. Queremos os Estados Unidos da África. Sim, estamos tratando de restabelecer a criança africana e a sociedade africana.

Fonte: Revista Amandla! N° 43/44, dezembro 2015

Tradução ao espanhol de Vientosur

Tradução: Rosangela Botelho