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A renúncia do presidente sul-africano Zuma, em janeiro de 2018, mostrou como está politizada e mobilizada a classe trabalhadora e a população da África do Sul. Ramaphosa também não é aceito por eles, porque se lembram da sua responsabilidade pelo massacre de 34 mineiros em Marikana em agosto de 2012. Agora que Ramaphosa quer realizar mais ataques aos trabalhadores, se utilizando da “lei de salário mínimo” e restringindo o direito de greve, os sindicatos que romperam com a COSATU estão chamando greves e manifestações.

Por: Américo Gomes

O transporte está parado

Desde 18 de março, mais de 300 mil pessoas, que usam serviços de ônibus, não puderam se locomover por causa da forte greve do transporte em todo o país. Os sindicatos SATAWU, do transporte (South African Transport and Allied Workers Union) e o NUMSA, dos metalúrgicos (National Union of Metalworkers of South Africa) dizem que vão intensificar suas ações, depois que as negociações com os empregadores não levaram a nada na sexta-feira. A greve deve ter impacto de longo alcance na economia do país.

Greve Geral dia 25

Por isso, a Federação Sul-Africana de Sindicatos (SAFTU), que tem 800.000 membros, e seu maior sindicato o NUMSA, com aproximadamente 300.000, estão convocando uma Greve Geral no dia 25 de abril. Eles querem impedir as votações, no parlamento, da Tabela Nacional de Salários Mínimos, que vai estabelecer um salário mínimo de R20 (Vinte Rands – cerca de 1,7 dólares) por hora, das emendas à Lei de Relações Trabalhistas, que vão restringir o direito de greve, e da Lei de Condições Básicas de Emprego que prejudicam os trabalhadores.

A COSATU (Congresso dos Sindicatos da África do Sul) afirma que embora concorde que o salário mínimo é baixo, o considera um ponto de partida para ir melhorando é “o que a economia sul-africana poderia dar-nos” além do que, para eles, esta lei beneficiará 40% dos trabalhadores, atualmente ganhando abaixo de R20 por hora. Também afirma que as emendas à Lei Trabalhista não são tão “dramáticas”. Por isso não vão aderir à greve.

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A SAFTU rompeu com a COSATU em abril de 2017

A direção do NUMSA publicou um comunicado onde afirma estar “chocada” com direção da COSATU que esta concordando com a proposta de limitar o direito à greve. “Como NUMSA, estamos nos perguntando como uma federação, outrora poderosa, que ajudamos a construir poderia sacrificar os trabalhadores e suas famílias dessa maneira. O direito de greve foi pago com o sangue da classe trabalhadora. Não foi negociado. Os trabalhadores lutaram e morreram para poder entrar em greve para que pudessem melhorar suas vidas. Estamos horrorizados que este governo negro possa trair trabalhadores e suas famílias implementando tais políticas atrasadas”.

A greve será realizada na véspera do “Dia da Liberdade” de maneira simbólica, para lembrar a luta dos trabalhadores para acabar com o Apartheid do qual “ainda não está livre a África do Sul”(…) “Devemos derrotar nossos opressores da maneira como derrotamos o Apartheid”![1]

Levante nas Províncias

Não só as greves incomodam o presidente Cyril Ramaphosa. Semana passada ele teve que abandonar a reunião da Commonwealth, em Londres, por causa dos protestos que estavam ocorrendo na Província do Noroeste, na região da capital Mahikeng.

Foram três dias de violentos protestos, em que um homem morreu, propriedades foram incendiadas e lojas saqueadas enquanto os moradores pediam a derrubada do governador da província de Supra Mahumapelo. Os manifestantes montaram barricadas nas estradas impedindo a circulação, ônibus foram incendiados, carros e pneus queimados. Enfrentaram-se com a policia que usou gás lacrimogêneo e balas de borracha, anunciando a detenção de 16 pessoas. Os protestos tinham como objetivo a renúncia do governo e melhores condições de moradia e de trabalho.

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Os trabalhadores da saúde pública já vinham em greve há semanas devido à falta de recursos e más condições de trabalho. Em virtude disso, os trabalhadores ligados ao Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação, Saúde e Afins (Nehawu), a Organização Democrática de Enfermagem do SA (Denosa) e o Sindicato de Pessoal de Saúde e Outros Serviços do SA (Hospersa) marcharam pela cidade até a sede do legislativo exigindo a saída de Mahumapelo.

Contra a manifestação o governador enviou um grupo de jovens vestidos com camisetas da ANC Youth League (ANCYL) empunhando porretes, cantando músicas de apoio a Mahumapelo e pôsteres escritos; “Hands off Supra”. Mas como estavam em menor numero que os funcionários públicos foram dispersos por eles. Esta foi uma das primeiras vitórias da mobilização. Estes grupos paramilitares já havia acabado com protestos anteriores em Montshiwa e invadido reuniões do sindicato.

Depois deste enfrentamento o porta-voz provincial da ANCYL, Thapelo Galeboe, disse que aqueles que estavam tentando bloquear a marcha não eram seus membros, mas gente contratada para isso e que a ANCYL apoiava a luta dos trabalhadores e também defendia que Supra Mahumapelo renunciasse, “Não podemos coexistir com líderes que pensam que o dinheiro público é o seu próprio dinheiro“, denunciando que ele enriqueceu, “a si mesmo e seus amigos”, à custa dos pobres[2].

Os Mahumapelo

Os Mahumapelo fazem parte das famílias negras que se transformaram em burgueses depois que o CNA chegou ao poder. É conhecida sua ligação com a família Gupta, nacionalmente denunciada por envolvimento em corrupção e favorecimentos por parte do governo Zuma. O próprio Supra foi denunciado por dar ao ex-presidente Jacob Zuma um rebanho de gado, como presente. Presente pago por fundos públicos destinados a ajudar os agricultores pobres de North West. Supra é particularmente amigo de Rajesh “Tony” Gupta, vinculado ao tio Tau Mahumapelo, que trabalhava no conglomerado estatal de armas Denel SOC Ltd, e que junto com Zwelakhe Ntshepe assinou um contrato de parceria com a VR Laser, de propriedade da família Gupta e do filho do presidente Jacob Zuma, Duduzane, atualmente considerado fraudulento. A Denel recentemente deu uma bolsa de estudos milionária a Oarabile Mahumapelo, filho de Supra, para se tornar piloto na Air School, em Port Alfred, apesar de Denel não conceder bolsas para pessoas se tornarem pilotos. Isso, em um país em que o ensino foi privatizado e as mensalidades são caríssimas. Já a esposa, Kule Mahumapelo quase teve sua lanchonete McDonalds, queimada junto com o complexo comercial da cidade, pelos manifestantes durante os protestos.

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[1]NUMSA is disgusted by the DA’s resolution to allow workers to ‘opt out’ of the NMW, https://www.numsa.org.za/article/numsa-is-disgusted-by-the-das-resolution-to-allow-workers-to-opt-out-of-the-nmw/

[2] https://www.enca.com/south-africa/mahumapelo-enriching-himself-friends-nw-young-communist-league