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Artigo publicado noO Internacionalista N°89″


 


Na segunda-feira dia 8 de junho, as autoridades gabonesas anunciaram o falecimento do presidente Omar Bongo, 73 anos de idade, em razão de um câncer. Assim terminam quarenta e um anos sem interrupção, com Bongo à cabeça do Estado do Gabão [*]. Nesta ocasião, a imprensa e os meios de comunicação não puderam evitar recordar os vínculos que uniam esta personalidade com a “metrópole francesa”, vínculos que explicam em grande parte sua longevidade no poder. Bongo forjou uma máxima que sintetizava sua relação com França: “A África sem França é um automóvel sem motorista, França sem a África é um automóvel sem combustível”. Sua hospitalização em Barcelona foi, seguramente, a única infração importante a sua fidelidade para com os Governos franceses. É que no momento desta morte, a justiça francesa estava pesquisando (sem muito afinco, é claro) o patrimônio imobiliário e financeiro da família Bongo na França, já que uma ONG tinha denunciado malversações de fundos públicos de parte dos Chefes de Estados africanos. Bens que se adquiriram com a complacência do imperialismo francês, quem “remunerava” desta forma à personagem que garantia seus interesses no Gabão. Assim, Omar Bongo e seus próximos possuiriam um patrimônio imobiliário avaliado em 160 milhões de euros (segundo o Diário El-Batan).


 


Gabão: um símbolo da colonização francesa


 


O Gabão ocupa um lugar particular no império colonial francês. Possui um dos subsolos mais ricos do continente africano: fora as jazidas de ferro e hidrocarbonetos produz mais de 230.000 barris de petróleo ao dia; além disso, há manganês em grande quantidade (metal utilizado, entre outras coisas, na fabricação das baterias de celulares). O Gabão ocupa também uma posição estratégica na África equatorial e se beneficia ao mesmo tempo de um largo litoral, graças ao qual o imperialismo pode desenvolver uma atividade portuária lucrativa (da mesma forma que na Costa de Marfim, onde o porto de Abiyán está controlado por Bolloré Africa Logistics, filial do grupo de Vincent Bolloré, grande amigo de Nicolas Sarkozy).


 


Para proteger estes formidáveis recursos em seu interesse próprio, a metrópole esforçou-se em manter uma estabilidade política no Gabão, ao contrário de outros Estados africanos, como Ruanda, por exemplo, no qual o imperialismo estimulou confrontos, sempre pela mesma razão: proteger seus interesses. Esta política requeria, rapidamente, o surgimento de uma nomenclatura local completamente submetida à causa da burguesia francesa. Recordemos que antes da proclamação da independência, o primeiro Presidente do Gabão, León Mba, desejava que o Gabão se convertesse em um departamento francês.


 


A vida política do Gabão reflete a estabilidade desejada por França: sucedendo León MBA, Omar Bongo ocupou o poder até hoje. Bongo esteve envolvido em todos os “assuntos” da Francáfrica, particularmente em Elf [1], fabricado exclusivamente para proteger ao Presidente do Congo, Denis Sassou Nguesso, e circunstancialmente a seu sogro. Por sua vez, os dirigentes franceses e os principais partidos institucionais aproveitaram também da riqueza petrolífera do país, cada qual percebendo financiamentos e todos se apoiando em Bongo para levar à diante suas relações com os outros Chefes de Estado da África francófona. Por exemplo, foi Omar Bongo quem incitou a seus pares a apoiar a candidatura de Dominic Strauss Kahn à cabeça do FMI. A importância de Bongo no financiamento dos partidos burgueses provocou, inclusive, um intercâmbio agressivo entre Valéry Giscard d’Estaing e Jacques Chirac: sobre o cadáver ainda morno do “Papa”, em uma entrevista a rádio Europe1, Giscard acusou publicamente a Chirac de ter financiado sua campanha com contribuições de Bongo. Este episódio revela as tensões existentes no interior da burguesia francesa quanto às relações com as semi colônias.


 


Durante a Quinta República, é a corrente da direita gaullista quem por muito tempo manejou as relações franco-africanas, graças a Jacques Foccart [2], em particular; ainda que algumas personalidades da social-democracia tenham tido também sua importância, especialmente Michel Rocard e Bernard Kouchner. Ao chegar ao poder, Sarkozy não beneficia de nenhuma das redes gaullistas na África; no entanto, sua proximidade com a maioria dos grandes patrões (Bouygues, Bolloré) que participam do saque do continente africano, lhe permitiu desenvolver uma política para as semi colônias. Por conseguinte, sob a Presidência Sarkozy, Omar Bongo seria o primeiro Presidente convidado oficialmente ao Elíseo [**]. Sarkozy “demitirá” inclusive a seu Secretário de Estado encarregado da Francofonia que se permitiu criticar (se baseando em declarações do mesmo Sarkozy) a Francáfrica.


 


O imperialismo francês, debilitado, prepara sua reorganização no continente africano


 


A morte de Omar Bongo deveria precipitar a transformação do imperialismo francês na África. Na atualidade, a burguesia francesa não tem já os meios de exercer uma influência decisiva no conjunto dos países africanos em que intervinha anteriormente. Mantém, no entanto, suas forças armadas nos países estratégicos: Chade, República Centro africana, Costa do Marfim e… Gabão (800 homens). A sucessão de Omar Bongo representa, pois, uma aposta decisiva para a burguesia francesa. Outros imperialismos, em particular os Estados Unidos, demonstram um apetite crescente pelas semi colônias francesas. Quando os republicanos estavam no poder, os meios de comunicação americanos conduziram uma campanha contra os dirigentes africanos vinculados ao imperialismo francês, especialmente Denis Sassou Nguesso. Muitas revelações, relativas às finanças pessoais de alguns Presidentes de Estados africanos, apareceram nos meios de comunicação pertencentes a Rupert Murdoch, um dos principais apoiadores de George W. Bush. A principal ONG (Sherpa) na base destas denúncias de malversações de fundos públicos está em parte, controlada (e financiada conseqüentemente) pelo famoso multimilionário e amigo do Partido Democrata, George Soros [3]. A chegada de Obama ao poder é um elemento da tática da burguesia americana para se aproximar de dirigentes africanos e ganhar confiança na África. É por esta razão que o novo Presidente americano reagiu tão rapidamente à morte de Omar Bongo, se dizendo “entristecido” pelo desaparecimento dessa personalidade.


 


Se o capitalismo francês pode desenvolver-se e converter-se em uma das principais potências econômicas mundiais, é porque desde sempre, e sem interrupção, a patronal vem saqueando os recursos e explorando cruelmente à mão de obra do continente africano. Na divisão do mundo entre os diferentes imperialismos, a África é considerada como uma reserva de mão de obra e matérias primas. Para dar somente um exemplo, atualmente, a empresa de Estado AREVA sustenta o Governo nigeriano em sua guerra contra os rebeldes Tuaregs, população cuja única culpa é viver em regiões de onde se extrai o urânio que abastece as centrais nucleares francesas.


 


Pelos Estados Unidos Socialistas da África


 


Na situação atual, quando bilhões de euros são esbanjados para tentar estabilizar o sistema financeiro, os trabalhadores africanos sofrem de cheio as conseqüências da crise do capitalismo. O Franco CFA [4] – a dívida financeira dos países semi colonizados para com o imperialismo – são os instrumentos da burguesia francesa para continuar explorando a África. A alternativa: socialismo ou barbárie, proposta por Trotsky em 1938, encontra hoje sua mais trágica realidade no continente africano. Os culpados são conhecidos: tanto os grandes grupos capitalistas pertencentes a um poucos indivíduos, quanto os Governos dos países imperialistas. Portanto, qual poderia ser a solução para a miséria dos povos da África: as denúncias feitas pelas ONGs, suspeitas ante a justiça dos países coloniais? A ajuda humanitária das organizações internacionais da burguesia (ONU, UNICEF etc.)? Para nós, militantes trotskistas, o primeiro combate é a luta contra o imperialismo, o que implica trabalhar em reconstruir a Quarta Internacional. O isolamento das lutas dos trabalhadores africanos é o fruto da ausência de uma direção revolucionária a escala internacional. O imperialismo se desmorona quando os trabalhadores dos países colonizados e das metrópoles se unem (Argélia, Vietnã). No entanto, hoje se comprova que a luta pela emancipação nacional não é mais que uma quimera se não está unida à luta pelo socialismo. Lutemos pela anulação da dívida e pela retirada das tropas francesas dos países africanos e apoiemos as lutas dos trabalhadores africanos. Contra o imperialismo e seus aliados, contra a barbárie do capitalismo: viva a Quarta Internacional, vivam os Estados Unidos Socialistas da África!


 


Rémy


 


[1] O assunto Elf é a soma de várias ações judiciais em torno da empresa Elf-Aquitaine, que tinha por objeto reorganizar as redes do imperialismo francês na África, restaurando o predomínio da diplomacia de Estado contra a diplomacia oficiosa feita pelos dirigentes de empresas. Hoje absorvida pela Total, a função de rede paralela da Elf-Aquitaine permanece;


 


[2] Jacques Foccart (1913-1997) é uma ilustração, por si só, do combate do imperialismo francês por uma parte contra sua classe operária, por outra parte pela proteção do império. Jacques Foccart trabalhou conjuntamente pela instauração de dirigentes fiéis ao imperialismo francês (Mobutu), e pela instauração do Serviço de Ação Cívico, a milícia gaullista contra o movimento operário;


 


[3] George Soros possuiria pessoalmente interesses na África mediante dois fundos de investimentos (Soros Fund Management LCC et Quantum Endowement Fund NV);


 


http://lelephantafricain.wordpress.com/


 


[4] O Franco CFA é a moeda da maioria dos países africanos do ex-império francês; é controlado diretamente pela metrópole (mediante o Banco da França e o Tesouro Público). A dívida contratada pelas semi colônias serve para obstruir financeiramente a estes Estados, com o fim de proibir-lhes toda política social e permitir aos grupos capitalistas tomem o controle dos serviços públicos (Veolia Water, por exemplo, é acionista majoritário da Sociedade de Energia e Água de Gabão).


 


http://www.veoliaeau.com/profil/implantations/afrique/gabon.htm)


 


 


NT:


[*] Gabão (Nome oficial: República Gabonesa, capital Libreville) situado no continente Africano; faz fronteiras com o Oceano Atlântico, Camarões, República do Congo e Guiné Equatorial;


[**] O Palácio do Eliseu (Palais de l’Élysée) é a residência oficial do presidente da República Francesa, onde está localizado o seu gabinete e onde se reúne o Conselho de Ministros.