COMPARTILHAR

Os trabalhadores da Pepsico realizaram uma luta heroica contra a multinacional que fechou suas portas deixando na rua quase 600 famílias. Por mais de quatro meses, esta luta teve diferentes momentos e o PSTU sempre esteve presente. Hoje, queremos começar a discutir algumas conclusões que sirvam como aprendizagem para as futuras lutas que surgirão enfrentando o ajuste do governo de Macri.

Por: PSTU – Argentina

O fechamento não foi surpresa

No dia 20 de junho, muitas pessoas ficaram surpresas com a notícia de que a Pepsico Florida havia fechado suas portas sem aviso prévio, somente com um cartaz na porta. Muitos trabalhadores ficaram indignados e foram à fábrica para levar sua solidariedade aos companheiros. Mas para aqueles que trabalharam lá não foi nenhuma surpresa. Houve muitos avisos prévios, que a burocracia da chapa Verde do Sindicato da Alimentação de Rodolfo Daer escondeu e a Comissão Interna, liderada pelo PTS, minimizou: fechamento de linhas, fechamento do sistema de purificação de água, todo tipo de cortes nas condições de trabalho dos operários e operárias etc.

A traição da gestão de Daer já estava presente antes do fechamento. Eles sabiam que a empresa estava esvaziando a fábrica e se limitaram a se “acomodar” em outros postos, o que depois não se concretizou. As campanhas difamatórias que se voltaram contra a CI (Comissão Interna), bem como as traições nacionais nos acordos coletivos, dividiram muito os trabalhadores na base. Infelizmente, a direção da CI entrou nessa batalha divisionista na fábrica, sem política para unir a base e aprofundando sua divisão, o que fortalecia a patronal.

Se a direção da fábrica tivesse preparado a base na maior unidade possível para enfrentar o que estava por vir, organizando a resistência ao fechamento, fazendo vigílias permanentes com os trabalhadores, exigindo que o Sindicato Nacional se pronunciasse contra o esvaziamento, teriam sido outras as condições da luta no dia 20 de junho. Pelo contrário, os dirigentes do PTS expuseram, inclusive em plenárias do sindicato, que seu objetivo era formar uma cooperativa caso a Pepsico fechasse.

Leia também:  Festival pela liberdade de Sebastián Romero, detido pelos protestos contra a reforma da previdência

Comitê de Luta e a exigência de Greve Geral

Apenas três dias depois do fechamento, com os operários acampando no portão da fábrica, a direção de Daer trai e faz um acordo com o governo e a patronal, fazendo uma negociação unilateral sem consultar os trabalhadores da Pepsico, aceitando uma melhor indenização (200% e mais) e dando por encerrado o conflito. Para demarcar a traição, a burocracia fez uma campanha nas fábricas, e da qual a mídia fez eco, dizendo que a Pepsico fechava suas portas por culpa da esquerda.

Para poder lutar em melhores condições e apesar dessa traição, o PSTU colocou desde o início a necessidade de unificar a luta de toda a base através da formação de um Comitê de Luta que fosse representativo do conjunto dos trabalhadores, uma forma de organização que envolvesse todos e que desse tarefas à maioria dos demitidos. Era necessário envolver na direção do conflito a Comissão das Mulheres da fábrica, os setores que não se viam representados pela CI dirigida pelo PTS e todos os setores que queriam lutar pela sua fonte de trabalho. A recusa absoluta que obtivemos da direção da CI, juntamente com a enorme traição da burocracia, afastou centenas de trabalhadores e deixou cada vez mais sozinhos aqueles que não aceitaram essas migalhas e que decidiram ocupar a fábrica.

Outro debate que atravessou esse momento foi a recusa da direção do conflito à nossa proposta de buscar a solidariedade de cada fábrica da Alimentação como tarefa principal. Era possível levar panfletos, a caixa do fundo de greve e conversar com os companheiros do sindicato para pressionar o Sindicato Nacional a fazer uma greve da alimentação, rumo à greve geral tão necessária (e possível) para ganhar esta luta. Pelo contrário, o isolamento foi afastando qualquer possibilidade de triunfar na reivindicação da reincorporação dos demitidos aos seus postos de trabalho.

Leia também:  A campanha por Sebastián Romero no Uruguai

A brutal repressão sofrida pelos trabalhadores da Pepsico quando foram despejados da fábrica chocou a todos e obrigou a apoiar a luta, incluindo os líderes sindicais da CTA e da CGT, que convocaram os demitidos a se reunirem com eles naquele dia. A política sectária do PTS fez com que os trabalhadores se recusassem a exigir dessas centrais sindicais, mais uma vez, a Greve Geral. Sem eles, e diante do repúdio geral à repressão, a CGT teve que convocar uma mobilização para se esquivar, mas para um mês depois! A CI e o PTS voltaram a repetir o erro que cometeram na jornada de 7 de março, dividiram a base da fábrica e chamaram a fazer uma convocatória isolada dos milhares de trabalhadores que fizeram parte dessa jornada histórica.

Uma política a serviço da campanha eleitoral

Durante todo esse tempo, os trabalhadores da Pepsico deram mostras de heroísmo e tenacidade, as companheiras foram claramente a vanguarda e ganharam o título de “Leoas”. Enfrentaram as campanhas da patronal, a traição da burocracia, a repressão do governo e abraçaram com força todos os lutadores que compareceram para se solidarizar.

Lamentavelmente, o sectarismo expressado pelo PTS durante a luta em relação ao resto dos operários “não vermelhos” e a falta de uma convocatória para um Encontro de Trabalhadores que se pusesse na direção da luta para barrar Macri e seu ajuste nas ruas (tarefa que nós do PSTU insistimos que era absolutamente necessária) é, na realidade, a expressão mais crua do giro oportunista que esta corrente vem dando nos últimos tempos. As ações e orientações que eles tiveram para o conflito passaram uma mensagem equivocada aos lutadores operários: toda a confiança devia ser colocada no Congresso e nos parlamentares da FIT.

A mobilização solidária após a repressão, da qual participaram mais de 30 mil companheiros, teve a grande oportunidade de responsabilizar o governo de Macri marchando para a Praça de Maio, enquanto exigia-se a Greve Geral da burocracia CGT. Mas, em vez disso, terminamos a passeata no Congresso, onde os operários instalaram uma tenda para expressar toda a sua luta heroica em um Projeto de Lei por uma Cooperativa, que todas as forças políticas, incluindo as patronais, usaram para a sua campanha eleitoral, como kirchnerismo, o massismo etc.

Leia também:  Sebastián Romero: “Eu estava me defendendo com um foguete de venda livre, a polícia estava armada com balas de borracha”

Esta política do PTS expressa uma enorme desconfiança na força da mobilização dos operários e levou a colocar esta luta a serviço da campanha eleitoral para negociar com os blocos políticos patronais a votação da cooperativa no Congresso, dividiram a base na luta e fizeram um acordo com a burguesia pela mão de seus parlamentares.

Hoje, a tenda da Pepsico não tem a força do começo e são os próprios trabalhadores que devem decidir se continuam com essa medida ou não. Nem a repressão do governo, nem as especulações parlamentares devem definir essa decisão. O PSTU continuará na luta pela mais ampla unidade para enfrentar Macri, exigindo a reintegração de todos os demitidos e debatendo com grandes lutadores como os da Pepsico nossas conclusões para poder avançar no enfrentamento do plano de ajuste e reformas deste governo.

Tradução: Kélvia Trentin